quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Não-Jornal “ O Macaco” - Um caso de Imprensa Satírica por António Gomes de Almeida


Um jornal de Humor faz-se, em princípio, para ter graça. Se esse objectivo não é conseguido, isto é, se o jornal não tem graça nenhuma, fica a desconfiança de que, provavelmente, aqueles que o fazem não são lá grandes Humoristas – se calhar, são mesmo uns tristes… Conhecem-se vários exemplos, que não interessa mencionar aqui, para não entristecer os leitores… Mas talvez interesse, isso sim, descrever o caso de um jornal de Humor que tinha tudo o que parecia necessário para vir a ter graça, mas perdeu a oportunidade de o comprovar, porque… não passou do Número Zero! Foi, portanto, um não-jornal
Tudo aconteceu a meio do revolucionário ano de 1974, quando se viviam por cá as emoções e as angústias do PREC, o tal Processo Revolucionário Em Curso, que os jovens de hoje não imaginam o que foi – só o conheceram bem aqueles que são agora delicadamente designados pelo respeitoso nome de seniores (naquele tempo, chamavam-se os chatos dos velhos). Os acontecimentos políticos e sociais dessa época deram origem ao aparecimento de uma catadupa de jornais ditos de Humor, quase todos de vida efémera (ver, a propósito, noutro local deste mesmo site do CPI, o texto intitulado “Que é feito dos nossos jornais de Humor?”). Todos eles faleceram de morte natural – mas houve um que se finou, de forma algo original, ainda antes de ter nascido. Chamou-se (ou melhor, iria chamar-se) O Macaco. E esta é a sua breve história.
Tenho de pedir desculpa por narrar estes factos na primeira pessoa, garanto que não é por vaidade, é só porque não encontro melhor forma de explicar o que se passou, ao ser convidado para ser o Director desse jornal. Se calhar porque tivera, anteriormente, algumas experiências, umas com êxito, outras nem por isso, na direcção de publicações de Humor. Dirigira O Mundo Ri, em 1954, e O Picapau, em 1955. Entre 1960 e 1962, tinha dirigido o semanário de humor dos Parodiantes de Lisboa (e este episódio também pode ser lido no site, sob o título “O fenómeno Parada da Paródia”). Depois, entre 1972 e 1974, tinha escrito mais de uma centena de crónicas, sob o título Os Pontos, com o pseudónimo Óscar Pontinho, para a revista Rádio & Televisão, propriedade da Radioprel (empresa intimamente ligada à Sociedade Industrial de Imprensa, sendo esta a proprietária do Diário Popular, e funcionando todas estas entidades no mesmo edifício, na Rua Luz Soriano, no Bairro Alto).
Terá sido por causa desse passado ligado ao Humor (que algumas “pessoas sérias” poderiam talvez considerar pouco recomendável…) que fui convidado para dirigir o projecto de um novo jornal satírico, que viria a ser O Macaco. Bem… viria a ser é força de expressão, porque o projecto, afinal, não passaria disso mesmo: de projecto.
Diário Popular era então um vespertino com grande popularidade e prestígio, tendo como colaboradores alguns dos mais acreditados jornalistas da época.
O convite, muito honroso pela confiança que atribuía à pessoa do convidado, consistia em produzir um jornal de humor, com um aspecto físico pouco usual em publicações deste género: uns imensos 43x30 cm, o mesmo formato do Popular. Seria um semanário, impresso a offset, a cores, com saída à sexta-feira, distribuído pela mesma Sociedade Industrial de Imprensa, e vendido ao preço de 5 escudos. A ideia era a de testar o sistema offset, que seria depois aplicado, se tudo corresse bem, ao próprio Diário Popular.
Aceite o encargo, seguiu-se a instalação da Redacção, sempre na Rua Luz Soriano, e os convites aos futuros colaboradores, na sua maioria já conhecidos por terem pertencido a idênticas equipas anteriores. O entusiasmo era grande, porque os acontecimentos políticos ainda recentes (o 25 de Abril tinha poucos meses) davam-nos a esperança de podermos, finalmente, fazer aquele tipo de Humor que a Censura nos proibira até então. Verdade que havia, além dessa expectativa, também alguma aflição meio escondida: com a liberdade total que nos tinha sido anunciada, seríamos capazes de produzir material humorístico de jeito? Ou os condicionalismos de tantos anos levar-nos-iam, inconscientemente, a manter a prudência auto-censória a que nos tínhamos habituado? Enfim, logo se veria, agora, o essencial era formar a equipa!
OS COLABORADORES
Foi fácil e rápida a constituição do grupo de Humoristas que iriam trabalhar n’O Macaco. Na verdade, a única dificuldade surgiu, um tanto inesperadamente, por razões políticas! Toda a gente andava muito atarefada a inscrever-se nos Partidos políticos que iam surgindo todos os dias, e a resolver qual a bandeirinha ideológica a escolher. Por isso, alguns, que tinham feito parte de equipas anteriores, trabalhando lado a lado em publicações em que só era importante produzir coisas com graça, punham agora dúvidas, perguntando antecipadamente: “Mas… o jornal vai ser o quê? Socialista, comunista, maoista? Vai ser esquerdista, direitista?...” Deu algum trabalho explicar que o jornal deveria ser, principalmente, Humorista… Enfim, lá se constituiu a turma, que ficou formada por um conjunto de redactores de que faria parte Fernando Ávila (que era jornalista no DP, com especial propensão para escrever sobre ciclismo, acompanhando apaixonadamente a Volta a Portugal; era também autor de Teatro de Revista, em parceria com autores de sucesso, como Aníbal Nazaré, Amadeu do Vale, etc.); também o Carlos Miranda, que já colaborara noutros jornais de humor (e, curiosamente, era também muito ligado a reportagens sobre Ciclismo); este viria, mais tarde, a ser Director do jornal A BolaMário-Henrique Leiria, sim, esse mesmo, o surrealista, autor dos Contos do Gin-Tónico, um revolucionário na Política e na Arte, que deixou escrito um inédito “Dicionário Modesto para Famílias de Poucos Haveres” e, ultrapassando o seu estado físico debilitado, trazia uma alegria contagiante à Redacção; Álvaro Magalhães dos Santos, que já colaborara, com rubricas de humor, em vários diários, depois de ter sido descoberto na Parada da Paródia; e ainda mais alguns Humoristas talentosos. A estes se juntava um excelente lote de ilustradores, encabeçado pelo genial João Martins, e contando ainda com o talentoso Zé Manel, mais o José Antunes, o Vitor Milheirão e o Ricardo Reis, todos excelentes e todos “repescados” de aventuras humorísticas anteriores. O departamento gráfico estava entregue a Henrique Tenreiroe a publicidade a António Franco, dos quadros da SII.
PREPARANDO O LANÇAMENTO
Foi acordado que o Diário Popular, na sua qualidade de “patrono” do novo semanário, faria uma campanha de informação, precedendo o lançamento do primeiro número, previsto para Novembro de 1974. E assim aconteceu. Durante vários dias, as páginas do popularíssimo diário vinham salpicadas com anúncios da próxima saída d’O Macaco. Entretanto, iam sendo preparados os originais para os primeiros números – particularmente para um “Número Zero”, que serviria de mostruário dos que viriam a seguir, e que seria oferecido aos leitores, acompanhando uma edição normal do Diário Popular – passando O Macaco, a partir da semana seguinte, a ser vendido separadamente. Assim tinha sido previsto e combinado.
Na véspera, isto é, no dia 28 de Novembro, uma página inteira anunciava: “O Macaco – amanhã é dado!  (Poderá encontrá-lo aqui, incluído como separata de oito páginas do “Diário Popular”, a cores e a preto e branco, impresso em offset, com a sua graça escondida e o rabo de fora…)  P.S. – Apenas por ser um ZERO e amostra sem valor é de borla – os outros números vão ser A PAGAR.”
Na Redacção, vivia-se a expectativa do acolhimento que o público daria ao jornal, quando visse, no dia seguinte, a amostra que tínhamos preparado do seu conteúdo.
UM “MACACO” QUE NÃO CHEGOU A SAIR DO SEU GALHO...
Só que… no dia seguinte, uma minúscula notícia, meio escondida numa página discreta do Diário Popular, informava: “O Macaco – Por motivos de ordem técnica, alheios à nossa vontade, não nos é possível incluir hoje, em separata, e conforme tínhamos anunciado, o número zero do semanário humorístico “O Macaco”. Do facto, apresentamos desculpas aos nossos leitores.”
Ora, na verdade, os “motivos de ordem técnica” não tinham nada de “técnica”, tinham mais a ver com “política”… A efervescência era então muito grande, tanto nas Redacções como nas Oficinas dos jornais de Lisboa, em alguns dos quais, embalados pelas teorias de esquerda assimiladas um tanto à pressa, no calor da Revolução, os trabalhadores gráficos pretendiam sobrepor-se aos jornalistas, mesmo no que se referia ao conteúdo dos textos. E o mesmo quanto às opções editoriais – o que incluía iniciativas como a da criação de um novo título.
Foi assim que uma delegação do pessoal gráfico veio informar-nos de que resolvera, à última hora, na sequência de um plenário, impedir a saída d’O Macaco. E esclareceram mesmo, um pouco embaraçados: “Não é nada contra vocês, até respeitamos o vosso trabalho… É contra a Administração, que temos suspeitas de andar a preparar algumas manobras contra os trabalhadores!”…
Tais “manobras” nunca chegaram a ser concretizadas...
Mas foi assim que o Número Zero d’O Macaco, já impresso, com a apresentação do conteúdo e do estilo que pretendíamos dar ao jornal, e uma amostra dos talentos dos seus vários colaboradores, não chegou às mãos dos leitores, e acabou ingloriamente guilhotinado nas oficinas, e despejado no contentor do papel sem uso…

Com alguma dificuldade, salvaram-se dois exemplares, cuidadosamente conservados, como peças raras que são, e como testemunhos de um “hebdomacaco com macaquinhos no sótão”, como se lia no cabeçalho – um projecto de semanário de humor, um “não-jornal” que, devido a circunstâncias muito peculiares, acabou antes de começar e, por isso, não chegou a ter, afinal, graça nenhuma!...

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