quinta-feira, 10 de novembro de 2016

O Cartoonista iraniano Emad Salehi, 1º Prémio na Bienal de Humor Luis d'Oliveira Guimarães - Espinhal - Penela 2016 esteve cá e visitou o Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa

 Emad Salehi com o Director da Bienal Osvaldo macedo de sousa e com o Director do Museu João Alpuim Botelho




 Em conversa com a pintora Emilia Nadal na visita da exposição temporária de Paula Rego


No Museu Raphael Bordalo Pinheiro numa alusão ao tema da Bienal de Humor do Espinhal Penela - Do Mel ao Ferrão (O Director da Bienal Osvaldo Macedo de Sousa e o 1º Prémio Emad Salehi)

Crónica Rosário Breve Meio século de O Judeu por Daniel Abrunheiro


O Judeu de Bernardo Santareno foi publicado há 50 anos.
Obra-prima da literatura dramatúrgica portuguesa do século XX (e de todos os que vierem), é ponto cimeiro do extraordinário repertório teatral criado por António Martinho do Rosário, nome civil do dramaturgo nascido a 19 de Novembro de 1920 na scalabitana freguesia de Marvila.
O Judeu marca, também e ainda, a incursão de Santareno na dimensão épica do entrecho discursivo-dramático, monumento que alguns tolos (críticos de pacotilha, revolucionários de café) acharam “irrepresentável em palco”. (Talvez os engulhasse o parentesco brechtiano da viragem formal da escrita do Santareno pós-neo-realista.) Mas não só. A peça de Santareno tem por núcleo primacial a tragédia pessoal de António José da Silva (1705-1739), autor, como Santareno, de uma produção dramática incómoda (exasperante até) para o regime seu contemporâneo. As sátiras espirituosas deste cristão-novo (como As Guerras do Alecrim e da Manjerona) caíram mal, para dizer o mínimo, entre os intolerantes e fanáticos monstros da “Santa” Inquisição, que de muito mais não precisaram para o queimar em público auto-da-fé a 18 de Outubro de 1739.
Retratado & retratista (António ambos) irmanam-se na desventura trágica das respectivas existências terrenas. A António José da Silva corresponde Bernardo Santareno do paralelo modo como ao Santo Ofício dos séculos XVI a XIX corresponde a PIDE do século XX. A polícia política de Salazar não extinguiu fisicamente, é certo, Bernardo Santareno – mas tudo fez para lhe sufocar a Obra, a torrencial & primorosa obra teatral com que Santareno fustigou o despotismo ao tempo mesmo que exalçava a peremptoriedade da dignidade humana, essa dignidade que outra coisa não é, ou outro nome não tem, que isto & este: Liberdade (e da incondicional).
Em e a partir desse remo(r)to ano de 1966, O Judeu não pôde, naturalmente (aqui, o itálico não é de resignação fatalista mas de fatal acusação), ser levado à cena. Saiu em livro, para prontamente ser perseguido pelas feras cinzentas & analfabetas do salazarismo, que nessa década de 60/XX já estertorava de necrose. Todavia, um facto triste veio adensar a solidão vitalícia do grande escritor. (Faço aqui parágrafo para mais distintamente vos sublinhar a injustiça e a ingratidão dos factos:)
Não havendo, depois do 25 de Abril, qualquer razão (bem antes pelo contrário) para não representar O Judeu, as tricas & baldricas aparentemente fatais do milieu intelectual(óide…) português obstaram a que a magnífica peça tivesse palco & plateia antes da morte física de Bernardo Santareno. Com efeito, o grande dramaturgo, morrendo a 30 de Agosto de 1980, não assistiu já à estreia do seu opus-magnum, que ocorreu apenas e quase meio ano depois (a 20 de Fevereiro de 1981, no Teatro Nacional de D.ª Maria, com encenação de Rogério Paulo). Bem e acertadamente andou Luiz Francisco Rebello quando escreveu (in O Jornal de 5/9/1980):
Santareno não morreu na fogueira acesa pela Inquisição para suprimir o Judeu da sua obra-prima []mas consumiram-no as chamas de mil pequenos fogos ateados pela mesquinhez, pela intolerância, pelo ódio, até pela indiferença às vezes mais cruel ainda, que desde muito longe, desde Gil Vicente e mais atrás, têm sufocado a respiração do teatro português.
Consolemo-nos, digo eu, com a certeza de o gigante Santareno ter morrido na consciência muito íntima da sublime valia não só de O Judeu como de toda a sua Obra literária, a qual, resistindo à corrosão inapelável do Tempo, se iniciou em 1954 com A Morte na Raiz (poesia), permanecendo viva & actual para além da extinção corpórea do Homem/Artista que no-la deu.

Resta-nos demonstrar, como Público & como Povo, que somos merecedores de tão descomunal, tão alta, tão preciosa oferenda. Ou então que, não dela merecedores, ardamos a frio nessa labareda de gelo chamada esquecimento.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Na próxima 3a feira, dia 8 de Novembro às 19 horas, no Museu Bordalo Pinheiro

ARTISTAS DE CAUSAS é o tema da conversa sobre a exposição Diálogos Imaginados que coloca lado a lado as obras de Bordalo Pinheiro e Paula Rego, porque a defesa de causas e ideais é mais um tópico que une as obras destes dois artistas.

A conversa juntará Arlete Alves da Silva (que, com o seu marido Manuel Brito, foi uma das responsáveis pela divulgação da obra de Paula Rego em Portugal, através das exposições na Galeria 111 e mantém uma amizade forte com a artista) e Pedro Bebiano Braga (comissário da exposição e profundo conhecedor da obra de Bordalo).

Na próxima 3a feira, dia 8 de Novembro às 19 horas, no Museu Bordalo Pinheiro


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Inauguração da exposição "Humores do Vinho" no Teatro Municipal de Vila Real integrada na Vila Real Capital da Cultura do Eixo Atlântico Aconteceu dia 22 de Outubro pelas 21h e estará patente ao público até 11 de Novembro 2016. Mais uma produção Humorgrafe / Osvaldo Macedo de Sousa




   A Vereadora da Cultura Drª Eugénia Almeida, o Director do Teatro Municipal Rui Araújo e o Comissário da Exposição Osvaldo Macedo de Sousa.


   A Vereadora da Cultura Drª Eugénia Almeida, o Director do Teatro Municipal Rui Araújo e o Comissário da Exposição Osvaldo Macedo de Sousa.
 O liveo editado

Elisio Amaral Neves e o cartoonista Santiagu

Crónica Rosário Breve - Escrever nas folgas por Daniel Abrunheiro

Um amigo meu é historiador amador. Comete monografias. Sabe coisas impensáveis que as mais das vezes resultam genealógicas. Ou pior. Uma inscrição de fontanário extasia-o como a mim só me acontece com, com quê?, talvez c’a Sophia Loren aqui há uns oitenta anitos. Da I República para trás e para os lados todos, cimabaixestiborbombordo, sabe tudo – menos o que será desta de agora.
Acontece que ontem, sob a morrinha persistente que acinzentava mais o dia do que à nossa vista a passagem de uma viúva sincera, apanhei-o esmifrado de nervos & sudorífero de raivas. Indaguei:
– Atão, pá? Tás c’umas beiças qu’inté parece que te caiu um músculo a dormir, home’! Qu’é que foi? Morreu-te a vizinha de baixo ou debaixo?
Ele desganiu-se-me com a explicação:
– Rafeiro, fui ao Arquivo Municipal ver se catava uma data infalível e olha, népias.
Tentei ajudar, claro. (Eu sou assim, ajudante. Nunca hei-de chegar a chefe por causa de ser assim, assim bom, assim porreirinho, assim amigalhaço, assim sempre-de-ajudar, assim mentiroso.)
– Que filão é que escavaste?
E ele:
Os Anais, claro. Mas aquilo era só folgas.
E eu:
Pá, isso é mau. Anais com folgas… E eram todos de trânsito só de-dentro-p’a-fora?
E ele:
Goza, meu ganda-marreco-das-orelhas, goza pr’aí. Era coisa importante, pá, coisa importantezinha, mat’rial necessário ó Pobo, pá, necessário cumò pão pà boca, cumò pão pà boca, pá.
Solidarizei-me. Ofereci-lhe que beber. (Só beber. É de lei que, co’ comer & co’ fumar & co’ aquele resto que toda a gente sabe, cada um paga o seu. E o dever acima de tudo, como na tropa.) Fomos ao Ramiro Tira-Linhas a modos que esvurmar uma tal pomada que ele lá tem, mas tal, que os médicos só não a receitam para o ranger das artroses e para as borrachas da figadeira porque isto de médicos e laboratórios, pá, isto de médicos e laboratórios é tudo Roque-da-Amiga & Amiga-do-Roque. É-é, mas-é-qu’é mesm’assim. Entonces, depois de umas pucheiritas lá mudámos para o cântaro, que sempre fica mais em conta.
Na brevidade que a vida é, por contar menos um dia do que o carnaval, a pajens-tantos intentei cognoscer (no mínimo, cognoscer, que eu ainda fiz o quinto-ano antigo), quer’eu dizer, apurar o âmbito & o intuito das anais escavações do meu amigo.
Ele recognosceu-me ist’assim:
Tinha a ver com a data exacta, ali exactinha preto-no-branco, da última vez em que a Câmbra interveio, pá, sei lá, nos problemas. Os problemas, tás-a-ver?, as cenas que dão mau nome aqui à parvónia, pá, aqui à parvónia, pá, mau nome, tás-a-ver?
E eu:
Tar-a-ver-tou. Mas assim tipo alguma zona em particular, sei lá, tipo ali nas Trigosas?
E o sacana do gajo a esgalhar-se todo de risota & a cuspinhar farelo de pevides pa’ todo o lado, o sacana do gajo assim na mouche qu’eu às vezes c’a pomada fico:
Trigosas? Trigosas? Ó meu, bebe cérélác sem grumos cuspidos, meu! Eles lá nas Trigosas não são de folgas, meu. Se precisam, não pedem nem esperam. Fazem. Fazem ali feitinho. Entre todos. Para todos. E pluribus unum, carago! Mete lá esta nos teus anais, anda.

E eu meti. Tanto meti, qu’inté escrevi esta de pé e tudo.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Cronica Rosário Breve - Três de Janeiro, por exemplo por Daniel Abrunheiro

A 3 de Janeiro de 1903, Alois Hitler, pai do Adolf, morreu. O mal estava já feito, todavia. Klara, a mulher dele, foi definitivamente roída pelo cancro em 1907 – mas o mal não apenas teimava feito como crescia. Sobre a morte desse obscuro funcionário público austríaco, o mesmo há a reter que da sua vida: cinza uma como cinza outra. A coisa passou-se.
Exactamente 22 anos depois, eram suprimidos em Itália os partidos políticos que queriam ser oposição à meteórica trajectória ascendente de um tolo perigoso chamado Benito. (Nessa precisa data de 3/I/1925, contava a senhora minha Mãe 68 dias de vida – e era decerto feliz, pois que então purificada pelo esquecimento do futuro.)
O futuro é que se não esqueceu do seu destino demolidor. Assim foi pois que, num terceiro dia januário também, mas o de 1935, se assiste em Coimbra a uma cena causadora de colectiva tristeza. Tem a ver com demolição & destino: por decisão da Câmara Municipal, é demolida a altaneira e histórica Torre de Santa Cruz, em frente ao formoso Jardim da Manga. A construção ameaçava iminente & eminente derrocada. Tinha de um lado o Celeiro dos frades crúzios (onde funciona hoje em dia a esquadra da PSP) e do outro a Enfermaria, que foi depois residência do senhor Prior e biblioteca até se tornar no que é hoje: a Escola Secundária de Jaime Cortesão.
Treze anos exactos se esfumam. Não estamos já em Coimbra lacrimejando de impotência à face do sacro entulho. É ora em Lisboa que estamos. Por magia, quantos são hoje? 3 de Janeiro. O ano é 1948. A noite promete: há fadistagem no Café Luso, como de costume, mas este serão é especial por ser o da consagração de um fadista chamado Alfredo. Desde outro Janeiro (o de 1941) que o Luso já não é na Avenida da Liberdade (onde nascera em 1927), trasladado que foi para as antigas adegas e cocheiras do Palácio do Largo de São Roque, ali à Travessa da Queimada (8-A, telefone 32 889). Chama-se agora Cervejaria Luso. Há menos de três anos que o filho do tal Alois foi ter com o pai. Há menos de três anos que o Benito foi pendurado pelas patas como uma carcaça de açougue. Os ventos da democratização que por (alguma) Europa grassam, não desgraçam porém a cinzenta nau ibérica, cujos timoneiros se chamam Franco e Salazar. Muitos Janeiros hão-de arder a frio até que seja Abril. Mas hão-de.
Ainda assim, e meros doze anos passados sobre a boémia consagratória do fadista Marceneiro, a estagnação estadonovista é furiosamente sacudida de cabo a rabo. 3/I/1960 – de uma das mais perversas prisões de alta-segurança da Ditadura, o Forte de Peniche (que nos nossos tristes presentes dias os patarecos da dinheirama fácil & rápida parece quererem transformar em amnésica hotelaria), chega notícia de sensação: fugiram uns gajos que ali estavam presos “por seu livre pensamento” (cf. fado Abandono, vulgo Fado Peniche, pela divina Amália). Eram eles: Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, Rogério de Carvalho, Francisco Martino Rodrigues & um tal Álvaro Barreirinhas Cunhal. A intrépida evasão roça a ironia histórica. Porquê? Por se dar precisamente dez anos & um dia depois da morte de Militão Ribeiro, acontecida a 2 de Janeiro de 1950 na Penitenciária de Lisboa, supostamente ao cabo da greve de fome que a cabo levava contra a falta de assistência médica. Militão e Cunhal haviam sido presos conjuntamente pela PIDE em 1949. Nunca mais seriam presos: Militão, pela absoluta libertação chamada Morte; Cunhal, pela absoluta liberdade chamada Vida.
De modo que: 1903, 1925, 1935, 1948, 1960. Tudo depois de Cristo. E a 3 de Janeiro tudo. Queira todavia o meu Leitor tomar nota ainda de uma outra efeméride. A próxima edição deste Jornal não há-de esperar pelo 3 de Janeiro do ano que há-de vir. Pois não. A próxima acontece a 27 de Outubro.
Ora, a 27 de Outubro nasceu a senhora minha Mãe.

Mas aí a História, porque futura, porque purificada, porque nunca esquecida, aí a História já é outra.

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Crónica Rua dos Combatentes - LOUSÃ, MEU HUMOR por José Oliveira (in jornal TREVIM da Lousã)

Nunca acreditei que Lisboa fosse, verdadeiramente, ‘capital’ de Portugal; antes pelo contrário. Foi por isso que, há um quarto de século, sendo necessário um título para o primeiro livro de recolha dos cartoons de ‘O Broncas’, optei por “Portugal, Capital de Lisboa”.
Felizmente, há evidentes sinais de algum esvaziamento da tutela macrocefálica, ao mesmo tempo que o ‘Portugal autêntico’ (ou devido a isso…) vai, paulatinamente, crescendo na afirmação da(s) sua(s) identidade(s) e na(s) sua(s) capacidade(s) de afirmação; ainda é em Lisboa que se cose (com ésse) e se cozinha (com zê) o Plano e Orçamento, ainda é em Lisboa, no hemiciclo de S. Bento, que os deputados vão dormir a sesta (e estou a tentar averiguar quais é que dormem mais… se os da capital, se os do Portugal autêntico…) mas vou notando que, na grande metrópole lisboeta (que engloba vários municípios envolventes da vetusta Olissipo), a tendência é para o desmantelamento de iniciativas que versem as artes da Caricatura e/ou da Banda desenhada. Porquê? (vou tentar averiguar); por serem actividades comunicacionais de grande adesão popular mas, ao mesmo tempo, caracterizadas pelo gene da irreverência? ou porque as respectivas organizações estavam a custar muito dinheiro? (e também tentarei averiguar por que é que custavam tanto). Não descarto a possibilidade de a verdadeira explicação radicar em ambas as razões. E assinalo: o ‘World Press Cartoon’ arvorou bandeira, durante bastantes anos, primeiro em Sintra e depois em Cascais; mas este ano já não se realiza. O Salão Nacional de Caricatura, cujas realizações se haviam consolidado em Oeiras, deixou de ter acolhimento naquele município e não teve continuidade. O Centro Nacional de Banda Desenhada e Imagem, do quadro municipal da Amadora, foi desmantelado; e o próprio festival de BD daquela cidade perdeu a pujança que tinha e – pior – suprimiu a sua componente de Caricatura.

Tudo se encaminha para que a Caricatura e, de um modo geral, o Humor, regressem à Lousã dentro de poucos meses. Vamos ver se para ganharem raízes, neste terreno que lhes tem sido propício.

Rosário Breve - Coisas que a vida e Abrantes me ensinam por Daniel Abrunheiro

1. “Lamento ter nascido.”; “Gostei muito de ter nascido.” A primeira frase é do ensimesmado poeta António Ramos Rosa. A segunda, do feliz & polivalente fazedor de campeões Moniz Pereira. Constam ambas de um livro intitulado O que a Vida me Ensinou. A obra compreende 34 depoimentos (23 homens, onze mulheres) de notórias figuras da nossa intelectualidade contemporânea coligidos pelo jornalista Valdemar Cruz para o semanário Expresso entre 2002 e 2005. A edição livresca aconteceu em Março de 2007, sob a chancela editorial da Temas e Debates. À data do livro, três dos entrevistados haviam morrido já. No entretanto destes nove anos & sete meses, muitos deles partiram já também. Todos tinham não menos do que 70 anos quando o jornalista com eles se encontrou.
A leitura enriqueceu-me. É um trabalho limpo, que vivamente recomendo a todos quantos dispensam à livralhada uma atenção & uma intenção que só proveitosas podem ser. Sublinhei muito, gastei todo um lápis. Adriano Moreira patenteou sem esforço a sua clara, incontornável sageza. O excesso pró-aforístico de Agustina não me aborreceu tanto, não desta vez. Siza Vieira, todo elegância. O sobredito Ramos Rosa pareceu-me o que o labor poético dele me parece: cansado & cansativo. Gostei muito do auto-retrato vital da fadista Argentina Santos. Eduardo Lourenço é um monumento. O investigador Fernando Catarino deu-me ideia de areia a menos para a camioneta exibida. Fernando Lanhas, giro, patusco, sábio. M.ª Helena da Rocha Pereira, maravilhosa. Manoel de Oliveira, banal & sobrevalorizado. D. Manuel Martins, vero filantropo & alma boa. Maria Keil do Amaral angustiou-me. Nella Maissa, prodigiosa. Óscar Lopes, outro monumento. Margarida Tengarrinha, humaníssima & exemplar. Sequeira Costa, profundo, grave, ortoépio. O industrial José Manuel de Mello, absolutamente execrável. Completam o rol: Anthimio de Azevedo, Borges Coelho, Eunice Muñoz, Fernando Távora, Galopim de Carvalho, Glicínia Quartim, Helena Sá e Costa, José Pinto da Costa, José Saramago, Júlio Pomar, Júlio Resende, Luísa Dacosta, M.ª de Lourdes Levy, Nuno Grande, Ruy de Carvalho e Vítor Crespo. Da minha leitura, mais por ora não digo. Diga-me da sua o Leitor, se caso disso for.
2. Outra proveitosa leitura que fiz por estes dias: Intelectuais Portugueses na Primeira Metade de Oitocentos (de M.ª de Lourdes Costa Lima dos Santos para a Editorial Presença, Lx., 1988). É tese de doutoramento muitíssimo bem lavrada. A poucas páginas do fim, aprendi que foi fundada em Abrantes, no remo(r)to ano de 1802, uma tal Sociedade Literária Tubuciana. Era dela figura-de-proa um Rodrigo da Silva Bivar, “Inspector da Plantação das Amoreiras e Director da Fiação da Seda”. A doutoranda Autora remete o interessado (em a nota remissivo-bibliográfica n.º 11, pp. 325) para uma monografia de há 40 anos – A Academia Tubuciana e os seus Membros, de Luís Bivar Guerra, in Anais da Academia Portuguesa de História, Lx., 1976. A abrantina agremiação de nome esquisito não esgotava o intuito pragmático na amoreira e no bicho-da-seda. Não. Leia-se: “(…) os seus objectivos eram mais vastos, visando concorrer para a felicidade da Nação através dos trabalhos dos seus membros nos campos mais variados (nos Programas da Tubuciana para 1803 e 1804 os assuntos propostos para apresentar comunicações abarcavam os domínios da História, da Literatura, do Direito, da Economia Política e da Agricultura).”
Mais: a Tubuciana não queria saber de não ser na Capital que tinha a sede. Pelo contrário, chateava Lisboa sempre que tinha por bem chateá-la. Exemplo: faltando “provimento de professores de primeiras-letras e de latim em Abrantes”, Diogo Bivar (filho e sucessor de Rodrigo) foi de mandar “uma representação ao Governo, censurando a Junta da Directoria Geral dos Estudos”. Lisboa ainda refilou, dando ordem ao juiz-de-fora de Abrantes (que até presidia à Tubuciana…) no sentido de “repreender severamente a ousadia com que na representação tinham sido caluniadas as diligências públicas da Junta” – mas o certo é que, “logo depois”, houve mando de “abrir concurso para que as cadeiras de latim e de primeiras-letras fossem providas de professores seculares com os devidos ordenados”.

3. Que aprendi eu, pois & assim? Aprendi que nem a Vida nem Abrantes me parecem ser já o que eram dantes.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Dia 12 de Outubro Inaugura a exposição "Mont'Alvão o Lado Irreverente de um democrata" na Biblioteca Municipal de Chaves, uma produção Humorgrafe


A retrospectiva da obra humorística do médico oftalmologista e fundador do Partido Socialista Júlio Augusto Morais de Montalvão Machado (Vila Real 27/7/1928 - Chaves 25/6/2012), o qual assinava Mont'Alvão, foi uma encomenda da Vila Real - Capital da Cultura Eixo Atlântico 2016, ou seja do Município de Vila Real à Humorgrafe (Osvaldo Macedo de Sousa) a qual após o seu sucesso no Museu da Vila Velha em Vila Real é apresentada agora em Chaves a partir do dia 12 de Outubro até 11 de Novembro de 2016

domingo, 31 de julho de 2016

Crónica Rosário Breve Terrorismos estivais por Daniel Abrunheiro


1 O terrorismo não se esgota nos atentados suicidas, nem no fundamentalismo mascarado de religião, nem no maniqueísmo simplista nós bons/eles maus. Ah pois não. Ele há mais terrorismo. O das famigeradas “sanções” da alegada União supostamente Europeia, por exemplo. Intolerável ingerência na soberania de cada Estado mais “periférico” (isto é: tudo o que não é Paris, não é Bruxelas & não é Berlim), todo este aparato dos “défices estruturais” e da “Dívida” traz água estragada no bico. Para mim, é terrorismo. E não costumo enganar-me nas palavras que uso.
2 Outro terrorismo: a Corrupção. Ela é o fascismo de colarinho-branco. É também & ainda, por dentro da Democracia, o mais voraz inimigo dos direitos básicos que são a própria essência da dita. O direito ao trabalho, o direito à justiça, o direito à saúde, o direito à educação – tudo é quotidianamente minado e apodrecido em consequência do que por aí vai de gente vil, sem uma pinga de vergonha na cara, que infesta a banca. Por exemplo, a banca – claro que articulada com a sabujice de certa politica. O clientelismo amiguista à portuguesa prima ainda, todavia, por um outro fenómeno iniludível. Este aqui: uma substancial porção do povoléu não deixa de sentir admiração pelos agiotas que roubam, pelas gravatas que garrotam, pelos euromilhões públicos gamados à escala industrial. É verdade: muito portuguesinho médio sente a sua veneraçãozinha pelos manhosos cujas roubalheiras tornam o erário público numa gamela a céu-aberto & à boca-fechada. Reforço & repito: há por aí muito Zé-Ninguém que gostaria de volver-se Zé-Alguém, não pela justa recompensa de um trabalho justo, mas pelo “esquema”. Haverá por aí algum Leitor meu que não conheça alguém assim?

3 Termino por esta semana com uma confissão: cada ano que acumulo, o Verão torna-se-me mais intolerável. A inflação centígrada dos últimos dias tem-me tornado um bicharoco recluso cozendo à sombra dos quarenta graus. Amanheço a desejar a noitinha. Jornada é fornada. No céu sem fronteiras, o grande Sol, rei ímpar, dardeja uma violência que calcina. Antigamente (falo por mim, só por mim), era uma estação bem-vinda. A trégua escolar chamava & juntava os grandes ócios maravilhosos de ir à fruta, ao rio, à mata, aonde o nariz livre apontasse. Aos 52 anos, sou um velhinho transido de calor que quer tão-só esses estores bem descorridos para baixo, essas cortinas bem encerradas, a casa tornada mosteiro de pedra fechada à violência solar. É como se o Sul da Europa tivesse sido tragado para sempre pelo Norte de África. Ou por Berlim. E ainda temos Agosto aí à porta, raios o partam.

terça-feira, 21 de junho de 2016

O GOLPE DE ESTADO NO BRASIL (impeachment da presidenta Dilma Roussef) PELA PENA SATÍTICA DE LUIZ GÊ

O Brasil está sofrendo um novo tipo de golpe de estado que foi aplicado primeiro em Honduras, depois no Paraguai e, para nossa vergonha, agora é aqui.
Existe muito dinheiro e poder em jogo, e os países ricos, e, em especial, as multinacionais não iriam deixar que o Brasil conseguisse formar um novo bloco econômico como o dos BRICS que estava começando a se desenhar e que ameaçava e se contrapor à sua hegemonia. Mas o campo de petróleo aqui descoberto vale pelo menos um trilhão de dólares e compensa a ninharia que a Secretaria de Estado americano possa vir a gastar para fazer o que fez, desestabilizar, depor e implantar um governo formado por bandidos para que lhes entregue a riqueza que for do seu interesse.
Desde o começo do ano voltei a fazer charges políticas (que não fazia desde o fim da ditadura militar em 84) lutando contra essa violência que mais uma vez se abate contra o Brasil e contra um melhor equilíbrio de forças do mundo inteiro, bem como contra a elevação do nível de vida de um  povo que já muito sofreu sob essa oligarquia truculenta que é a brasileira. Estou mandando algumas charges que fiz desde o acirramento do golpe (que na verdade se desenrola há muito mais tempo) e está sendo concertado pela mídia (dos maiores milionários brasileiros), pela justiça, que sempre foi muito classista, e que é fácil de manipular, pois um pequeno número de seus membros é suficiente para que os juízos sejam dados, e pelo congresso, que é o pior da nossa história, com mais da metade dos congressistas respondendo a processos, às vezes até por assassinatos (e que foi alçado ao poder também com a ajuda da mídia, é preciso que se diga)!
Este material foi produzido em um ambiente angustiante e kafkiano, de alguém que vê a nossa jovem democracia mais uma vez sucumbir aos golpes truculentos de uma oligarquia que jamais pensou na construção de um país, mas apenas no vil metal, para o qual desde sempre se vendeu às custas do sofrimento alheio.
Sei como as charges (não sei se vocês usam esse termo aí, ou se usam apenas caricatura?), precisam do contexto para serem compreendidas. Por isso comecei a escrever e a coisa virou uma espécie de resumo dos acontecimentos até agora. Se for necessário que eu explique alguma não hesite em me mandar uma mensagem.
Essa BD fala sobre o poder midiático e a dificuldade que o indivíduo tem, caso pense de forma diferente. Isso é o pano de fundo em que se desenrola todo o episódio do impeachment/ golpe atual. Era muito difícil emitir uma opinião e não ser, imediatamente, escorraçado pelos demais.
O símbolo da rede Globo, a mais poderosa e onipresente estação brasileira de TV é uma esfera com uma outra inserida numa tela da TV e que, na charge/ caricatura  abaixo aparece em azul. Seu dono é um dos mais, senão o mais rico dos brasileiros. A Globo foi criada para dar suporte à ditadura militar nos anos sessenta. Assim como ela mais duas das emissoras também o foram. Essa charge, a meu ver, resume toda a correlação de forças e a própria situação em que nos encontramos.
A soma das duas charges anteriores produz essa abaixo. Foi uma verdadeira epidemia de linchamentos morais e reais conduzida pela classe média e movida por esse incutido ‘moralismo’ midiático.
Nas manifestações contra o governo, amplamente apoiadas e divulgadas pela mídia, as pessoas, costumavam usar camisetas da Confederação Brasileira de Futebol, órgão totalmente corrupto, cujo presidente, José Maria Marin, foi preso na Suíça e enviado para os EUA para responder a processo. Era uma verdadeira ironia, que aqueles que protestavam contra um governo, cuja presidente era totalmente honesta, vestiam esse símbolo da própria corrupção  que hipoteticamente atacavam.
Mas o discurso dessas pessoas logo se revelou em toda a sua hipocrisia, quando a classe política que era o seu alvo predileto se transformou em força para derrubar o governo de esquerda que  
O congresso se tornou a principal forma de realizar o impedimento da presidente Dilma. Todos os partidos que haviam aderido ao governo do PT apenas por motivos fisiológicos, como o PMDB, passaram para o outro lado e, inclusive com medo de serem condenados na justiça, já que eram, em sua maioria réus de um ou mais processos. Engrossaram assim as fileiras pró-impeachment. O vice presidente Temer virou a casaca, quando percebeu que se tornaria presidente, mas também o fez por ser homem de Cunha, um super vilão (com cara de rato) que conseguira se tornar o presidente da Câmara dos Deputados. Esse super bandido, com milhões de dólares na Suíça e em outros paraísos fiscais, manobrava quase a metade da Câmara, repassando dinheiro para essa gentalha que representa, entre outras, siglas de aluguel, bancadas religiosas protestantes totalmente caça níqueis, argentárias, especializadas em tirar dinheiro dos fiéis. Quando o PT se negou a apoiá-lo ele aprovou o impeachment da presidente Dilma e deflagrou o processo. Saltou aos olhos o fato de que a Justiça nada fez até que ele tomasse essa medida. Apenas o retirou do cargo de presidente do congresso quando o ‘trabalho’ estava feito.


Veio então o infame dia 16 de Abril, quando um congresso de bandidos, incentivado pelas manifestações pseudo-moralistas apoiadas pela mídia fizeram o maior papelão da história política nacional, votando o impeachment da presidenta Dilma Roussef, pessoa sem uma única mancha em sua carreira política e profissional. O detalhe ficou por conta dos votos dos deputados, que repetiam hora após hora o mesmo discurso absolutamente monótono, medíocre, hipócrita e revelador: “ pelo meu filho”, “ pelo meu neto”, “ pela minha mulher”, “pelo meu sobrinho”, enfim, por “eles mesmos”. Às vezes diziam “pelo meu Estado”. Mas houve aqueles que disseram que o faziam por algum militar torturador da época da ditadura militar.







Uma das forças que impulsionou o movimento de impeachment, ou melhor, o golpe, foi outra vez, assim como em 1964, na ditadura militar, a FIESP a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Essa federação já pode ter sido mais importante. Hoje, acho bastante misteriosa sua representação. Quem será que ela representa? Digo isso, porque a indústria brasileira sofreu dois processos de desmantelamento brutais. Um foi no final da ditadura, que, sob o comando do FMI, a indústria brasileira, inclusive a estatal (trens, navios, material pesado, que aliás começaram a ser reativadas no governo do PT), sofreu um golpe devastador. O outro momento, que foi o tiro de misericórdia, foi no governo Fernando Henrique Cardoso do PSDB que, realizando as recomendações neoliberais do Conselho de Washington, retirou de um só golpe as medidas protecionistas e escancarou o país para as importações e a entrada facilitada de indústrias estrangeiras multinacionais. Mil e duzentas empresas nacionais de tradição, renome, mercado conquistado, desapareceram, falidas ou vendidas para multinacionais a troco de banana. Desconfio que a FIESP represente, hoje, apenas indústrias que executem serviços menores para as multinacionais. Pois bem, a FIESP realizou uma campanha acirrada pelo impeachment e usou como símbolo um pato inflável gigante usado nas manifestações e cujos olhos tinham em seu lugar cruzes. No peito do pato tinha uma inscrição: “não vou pagar o pato”. Isso era uma referência a um imposto, um dos raros impostos claramente justos, que no caso era sobre os cheques. Era justo porque era pequeno, e quem pagava mais eram os ricos que dão mais cheques e maiores (ou seja, eles da FIESP, por exemplo). Todo mundo hoje em dia usa cartão. Esse imposto ia diretamente para a área de saúde que é uma área muito carente no Brasil. Quando o PSDB, um dos principais partidos contrários ao governo do PT conseguiu derrubar o imposto, esse dinheiro que era crucial, deixou a área da saúde sem uma parcela importantíssima de recursos. Esse símbolo do pato, tão mal compreendido pela classe média, mostra como os poderes plutocráticos do Brasil conseguem manipular essas pessoas que se acham “esclarecidas” por lerem jornais (de propriedade dos ricos), que, é lógico, os manipulam como querem, geralmente apelando para suas crenças conservadoras. O, literalmente, patético é que pato (que virou o símbolo das passeatas golpistas) no Brasil, é gíria para trouxa, bobo. E, pior, o pato inflável foi copiado do pato de um artista europeu que havia exposto aqui no Brasil exatamente esse mesmo pato inflável de sua criação e que representa um daqueles patinhos com os quais as crianças brincam na banheira. No meio das manifestações da direita com esse pato, o artista se manifestou horrorizado pelo uso de seu trabalho de forma totalmente desautorizada (e pela direita, ainda por cima).


A revista semanal que virou um panfleto caricatural. Acabou o jornalismo isento no Brasil.

Atrás do pato, o prédio da FIESP na avenida Paulista, em São Paulo.
Mas a pior coisa que aconteceu, a mais infame, até o momento, foi a oligarquia ter colocado a democracia ‘no prego’ sem ao menos termos um juízo concreto sobre o mérito das questões apresentadas pelo impeachment de um presidente. Jamais houve um consenso. Centenas e centenas de juristas já apresentaram ou subscreveram demonstrações mostrando que não há base para um impedimento. Mas isso até agora não foi considerado pelo Supremo Tribunal Federal, que até agora apenas deu seu aval para as resoluções da câmara e senado, totalmente políticas e não legais, e muito provavelmente não será. A nação ficará sob tutela de gente sem um único voto, entregando o país para a sanha imperial, e quando vier esse ajuizado, será feito por meia dúzia de juízes do supremo. Ou seja, nada mais fácil de manobrar quando se tem o poder econômico e financeiro à disposição, como têm os poderosos interessados, nacionais e estrangeiros.
Impressionante como da classe média para cima, o pensamento nada tem a ver com o país, ou com os brasileiros. Até os médicos que tradicionalmente sempre foram das classes mais abastadas, da classe média para cima, tem o mesmo pensamento. Meu Deus, que luta insana e inglória!
Por fim, um pouco da nossa história, que não tem nada de alegre. Não sei como é que há o mito do brasileiro cordial.