quinta-feira, 16 de junho de 2016

Inauguração da exposição retrospectiva dos trabalhos de humor de Júlio Montalvão Machado - Montalvão o lado irreverente de um democrata no Museu da Vila velha em Vila Real

 O Director do Museu João Silva, Osvaldo Macedo de Sousa, o Presidente da Câmara Dr. Rui Santos, a Vereadora da Cultura DrªEugénia Almeida e o Vereador da Educação
 Osvaldo Macedo de Sousa, o Presidente da Câmara Dr. Rui Santos, 


 Com o Mestre do humorismo cubado Pepe Pelayo






Rosário Breve Onze milhões de Emplastros por Daniel Abrunheiro

É que nem Salazar teria sido capaz de tão alto feito: desmiolar toda uma república mercê de um desporto dito rei.
Não recuo um milímetro nem tiro uma sílaba ao título que escolhi para a crónica desta semana. Desgosta-me profundamente toda a euforia de plástico que pelo meu País, por desgraça, grassa. Outra vez as bandeiretas compradas nos chineses, caraças! Outra vez os patriotas da boca-para-fora, chiça! Ainda e sempre a impossibilidade de ligar a TV, num canal produzido cá, sem que os rebanhos de totós (quantos deles desempregados?) não irrompam pela pantalha mui parv’alegres, micóticos como a sarna, amostardados como o sinapismo cataplasmante – e de uma moral tipo impingem que já não vale a pena coçar.
Eu gosto muito de bola, juro que gosto. Até corri atrás dela que nunca me fartei, na minha remo(r)ta mocidade que não volta. Mas isto é de mais: a alienação a granel de uma gente que não é senão culpada da própria mi(s)tificação a que de tão bom grado se sujeita – e tudo sem um ai, sem um vagido, sem um isto-é-tudo-muito-lindo-mas-então-e-os-contratos-a-prazo-a-dívida-externa-o-Estado-a-socorrer-os-banqueiros-o-petróleo-no-Algarve-o-nuclear-em-Espanha-às-portas-da-fronteira-via-Tejo?
Quem há-de rinchavelhar-se desbragadamente com tudo isto há-de ser o Pepe. Todo o tuga conhece este grande lusíada. Pepe 10 – Jorge de Sena 0.
Rui Patrício 5 – Miguel Bombarda 0. Renato Sanches 4 – Passos Manuel 0. Quaresma 8 – Aristides de Sousa Mendes 0. CR7 1000 – Bernardo Santareno 0. E, de repente, a realidade: Portugal 1 – Islândia 1.
Já tive mais pena que assim fosse, seja & continue a ser. Com os anos, o futebol foi & veio dando lugar, no meu caso como na minha casa, a outras predilecções lúdicas: a gotinha de soro nos olhos a horas certas, a pastilhinha de alopurinol para prevenção da artrite gotosa, o copinho de água fria em jejum para lavar as vielas arteriais seguido do copinho de leite morno para caiar a adega, o chegar cedo ao Café da Graciete tal que a mesa predilecta de fazer as crónicas não esteja ocupada por algum meliante que escreva para outro jornal.
Não, nem sílaba nem milímetro retiro ao título. Tanto patusco também cansa. Tanto carneiro também farta. Tanta micose também exaspera. E tanta idiotia também aleija. Ainda se…
Ainda se os gajos das quinas em campo fossem, sei cá, o Damas, o Jordão, o Vítor Baptista, o Arnaldo, o Lourenço, o Lemos, o Pavão, o Coluna, o Manuel António, o Travassos e o Matateu, isso ’tá bem, isso é que era uma esquadra de ataque à maneira. E o Eusébio no banco a descansar um bocadito sem ser para sempre como agora está.

E, claro, eu como treinador, que percebo muito mais de ser emplastro do que certos 11 milhões de outros que eu bem cá sei mas não digo quem são.

V BIENNIAL of HUMOR "LUIZ D'OLIVEIRA GUIMARAES" - Penela 2016 - Deadline - June 25, 2016

Will the artists themselves, are aware of their role as graphic humorists in contemporary society? Will be simple comic in developing laughable burlesque or everyday philosophers? Simple clowns laugh or wake up consciences? They will be able to synthesize the design what it is your profession? / Function?
Everyone knows the allegory of the ant and the grasshopper, but no one speaks of the humorist bee, this being that with the pollen of news and everyday is the honey of our existence but that with its stinger, when necessary also pica ills society, fundamentalisms, dictatorships. The thematic challenge this year's V Biennial Penela Humor (Portugal) is the proper mood or role of the cartoonist in today's society, which can be presented as an allegorical / parodic trip with bee universe, that being that disappear humanity has no more than four years of existence (as advocated Einstein) and this philosophical art of seeing the world that is disappearing also signal the demise of mankind. At the same time we give way to self-caricatures and cartoons of professional companions.
How can you participate?
 a) The easiest - simple moods on the bee, honey, their ecological importance and therapy.
b) Easy - Self-portraits and caricatures-charge of other graphic humorists.
c) more difficult and more interesting - Parodies, allegories about the work of the bee and the graphic humorist - This should be philosophical (force us to think) as pure or just comic honey as honey processed? It should be therapeutic (the "apitherapy" as "geloterapia" are fundamental alternative medicines because laughter, byproduct of humor, when "explodes" exerts its impact on the muscular system, central nervous, respiratory, cardiovascular, immune and endocrine .... ) or cause allergy, violent reaction to the sting of the bee and satire? How to fight for victory humor / bee against oppression, censorship, terrorism, fundamentalisms / parasitic disease Varroa mites, wasp Velutina Nigotorax .... ? It is mandatory the presence of bee these pictures of what should be the contemporary cartoonismo.
We can not forget the allergies that have developed against the sting of satire / irony, fear of terrorist wasp that has killed, persecuted, oppressed philosophers of freedom and today living an important moment in the game the tolerances and intolerances. Let us not forget that integration only works when the other also integrates, tolerance requires tolerance, intolerance creates intolerance. We can not forget that in defending the right to freedom of thought and expression, the mood were killed, in addition to the world-known French cartoonists of "Charlie Hebdo" - Charb, Cabu, Tignous, Honoré and Georges Wolinski, noted in the last ten years Prageeth Eknaligoda (Sri Lanka), Akram Raslam (Syria).
The prison has spent the Algerian Ali Dilem and Tahar Djehiche; Iranian Mana Neyestani, Hadi Heidari and Athena Farghadani; Syrian Ali Ferzat and Chahim Barzanji, Indian Harish Yadav (Mussveer) and Aseem Trivedi, the Moroccan Walid Bahomane, Turkish Mehmet Duzenli and Musa Kart; Chinese Jiang Yefei in Thailand (but disappeared during his deportation to China); Egyptian Magdy El Shafel the palestiano Mohamed Sabaaneh; Thai Sai - Sakda Sae Lao; Malaysian Zunar - Zulkiflee Anwar Alhaque ...
Among many cases little known or jumped to the public knowledge as the censorship persecution or dismissal of Ecuadorian carbonyl and Vilma Vargas; Rayma Supremi in Venezuela; Portugal - Rui Pimentel; the prohibition to publish in your country (Mikhail Zlatkovsky - Russia); those who have to live under police protection (Lars Vilks - Sweden, Molly Norris - USA, Kurt Westergaard - Denmark) ... Not forgetting the surreptitious disappearance of graphic humor in the Portuguese press and many other countries.
"What we accuse me is not
in the drawing, but in your conscience. "
Philipon (century. XIX)

V BIENNIAL of HUMOR "LUIGI D'OLIVEIRA GUIMARAES" - PENELA 2016
An Organization: Municipality of Penela / Junta de Freguesia do Espinhal
A production: Humorgrafe - Artistic Director: Osvaldo Macedo de Sousa (humorgrafe.oms@gmail.com)
1 - Theme: "Honey to Stinger" - we invite artists from around the world to philosophize about the role the humorist / cartoonist and parallel the role of bee / honey (and other derivatives, in addition to their role in biodiversity) in our society. We can not forget the allergies that have developed against the sting of satire / irony, fear of terrorist wasp that has killed, persecuted, oppressed philosophers of freedom and today living an important moment in the game the tolerances and intolerances. Let us not forget that integration only works when the other also integrates, tolerance requires tolerance, intolerance creates intolerance.
2 - Open to the participation of all graphic artists with humor, professional or amateur.
3 - Deadline: 25 June 2016. They should be sent to humorgrafe.oms@gmail.com, humorgrafe@hotmail.com or humorgrafe_oms@yahoo.com (If you do not receive confirmation receipt resend new SFF).
4 - Each artist can send via e-mail in digital format (300 dpis A4) up to 4 monochrome works (one color with all its nuances - not accepted drawings 2, 3 or 4 colors -open to all techniques and styles as caricature, cartoon, humor design, strip, plank bd (story in a single board) ... which must be accompanied with information of name, date of birth, address and e-mail.
5 - Entries will be judged by a jury consisting of: representatives of the Municipality of Penela; Spinal representative of the Parish Council; representative of the family Oliveira Guimarães; the Artistic Director of the Biennale; a representative of the sponsors, a local media representative and two guest artists, and awarded the following prizes:
* 1st Prize V BHLOG- 2016 (worth € 1,800)
* 2nd Prize of V BHLOG- 2016 (worth € 1,300)
* 3rd Prize of V BHLOG- 2016 (worth € 800)
* Mood Revelation Prize V BHLOG- 2016 (worth € 250) (for national authors under 25 years old).
The jury, at its discretion, may grant "Special Awards" António Oliveira Guimarães, Municipality of Penela, Junta de Freguesia do Espinhal and Humorgrafe), the honorific title, complete with trophy.
6 - The jury granted the right to make a selection of the best works to exhibit in the space and catalog edition (which will be sent to all artists with work reproduced).
7 - The Organization shall inform all artists by email if you were selected for the exhibition and catalog, and which the winning artists. The works awarded compensation, are automatically acquired by the Organization. The originals of the winning entries must be submitted to the Organization (the original work made the computer is a high quality print in A4, signed by hand and numbered 1/1), because without such delivery, the monetary prize will not be unlocked.
8 - reproduction rights are owned by the Organization, as soon as to promote this organization, and occasionally discussed with the authors in the case of other uses.
9 - For further information contact the Artistic Director: Osvaldo Macedo de Sousa (humorgrafe.oms@gmail.com) or V Biennial of Humor Luis d'Oliveira Guimarães Culture Sector, Municipality of Penela, Largo do Municipio, 3230-253 Penela - Portugal.

10 - The V Biennial of Humor Luis d'Oliveira Guimarães - Penela 2016 takes place 3-21 September for Cultural Espinhal Center, but can also be exposed in other locations to be designated.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Crónica Rosário Breve Do estrangeiro quase pobre por Daniel Abrunheiro

1 Pobrezas
A gente é pobre, mas pobre não é gente. Pobre só é gente no Natal, quando faz de pobrezinho. Pobre vota, mas não conta. Pobre desconta.
Pode ser-se pobre estando rico. Mas ser pobre não enriquece. Rico pobre é o que se remedeia. Remediar-se empobrece muito mais no tal Natal.
Uma coisa é a gente ser pobre. Ser remediado é a mesma coisa. Mas estar rico não é o mesmo que ser rico. Ser rico pode ser estar pobre. Remediado é que não.
Remedeio não é remédio. Remédio é cara da coroa da doença. Doença é quando se pensa. Pensar empobrece, não remedeia nem enriquece.
Pobre vale mais quando não tem remédio. Menos quando tem remedeio. Quando tem remedeio, pobre é rico pobre.
Pobre rico é outra coisa. Vive remediado e morre pobre. Enriquecer a vida é empobrecer a morte. Mas remediá-la é matá-la porque é empobrecê-la. Como pensá-la é tudo menos remediá-la.
Pobre vota, mas não bota. Pobre perdigota. Pobre perde e gosta. Não gasta. Gosta. Remediado também gosta, mas bota. Bota rico porque vota pobre.
Que remédio.

2 Um estrangeiro quase feliz
Moro em Portugal desde que nasci, o que, naturalmente, não abona muito a meu favor. Sou mais um estrangeiro, portanto. Sim, é estrangeiro que me sinto. Manhã muito cedo, por exemplo, vou ao café do meu vizinho tomar a primeira chávena do dia. Como trabalho por conta própria, deixo-me estar. Ainda por cima, é permitido fumar. Porreiro. Então, ligam o televisor. É fatal: TVI. É fatal: o Goucha. Sou corrido por aquela portugalidade que me resulta inaceitável, intolerável, insustentável, incontornável. Cá fora, chove. Escolho outro sítio para escrever. Descobri um que, coisa rara, não tem televisão.

É o cemitério. Entro, escolho um jazigo com degraus, sossego o coração, trabalho. Ninguém me chateia. Estou ali na paz do Senhor. O vento dá nas árvores, as aves pontuam reticências pelo papel do céu, deixou de chover, uma farpa de sol fura o cartão das nuvens. Quando preciso de algum nome para uma personagem, dou uma volta pelo labirinto simples das sepulturas. O primeiro nome deste senhor aqui, o segundo daquele e os dois últimos desta tão saudosa e estremecida senhora. Como vou morar em Portugal até morrer, já ando, por assim dizer, entre eternas saudades. Pelo fim da tarde, concedo-me uma hora de faz-nenhum e descanso em paz. Dou pão aos pombos e aos pardais da praça, ouço o canto branco da fonte luminosa, vejo passar as mulheres dos outros, vou ao parque sentir os anjos que se fazem pedra quando são descobertos, desando pelas vielas húmidas, atravesso uma praça de chão de gravilha, leio os nomes das ruas, cheiro as bancadas de fruta que alegram as ruas de uma felicidade vegetal, cheiro o frango voador das churrasqueiras, aprecio o rosto cheio de dignidade dos cães, resisto à tentação de nunca mais parar, paro, tomo um doce num tasco geriátrico cujas paredes contam calendários de santos e posters do Sporting – e sou quase feliz, apesar de estrangeiro no, afinal, meu País.

terça-feira, 7 de junho de 2016

SARDINHAS DO POVO lançamento da edição no Museu Bordalo Pinheiro na quarta-feira, 8 de Junho, às 19h



Contraprova - Atelier de Gravura e o Museu Bordalo Pinheiro têm o prazer de vos convidar para o lançamento da edição "Sardinhas do Povo", na quarta-feira, 8 de Junho, às 19h. A exposição estará patente no Museu Bordalo Pinheiro até ao dia 22 de Junho.


Artistas participantes desta edição:
Alexandre Jorge
Ana Neto
Artur Madeira
Cristiana Fernandes
Daniela Crespi
Diogo deCalle
Joanna Latka
Luís Fernandes
Marcela Manso
Paula Almozara
Renata Bueno
Ricardo Campos
Sofia Morais
Susana Romão
Mais Informações:
Museu Bordalo Pinheiro
Campo Grande, 382 - Lisboa

Horário de Funcionamento:
Terça-feira a Domingo, das 10h às 18h
Encerrado às segundas-feiras e feriados

Evento no facebook:
 http://www.facebook.com/events/612398018937426/

segunda-feira, 6 de junho de 2016

"Mont'Alvão - O lado irreverente de um democrata" - Exposição retrospectiva inaugura dia 10 pelas 21h30 no Museu da Vila Velha em Vila Real (Capital da Cultura do Eixo Atlântico 2016)

Retrospectiva da obra humorística do Médico e Politico Júlio Augusto Montalvão Machado
Natural de Vila Real (1926 / 2012), Montalvão Machado foi uma personalidade histórica de reconhecido mérito no campo médico e político, sendo que poucos conhecem a sua faceta de humorista gráfico. Exibem-se os seus principais trabalhos (mais de 40 – fac-símiles, já que os originais se perderam pelas gavetas das redacções e tipografias) assim como quatro vitrinas com os álbuns onde o artista guardou os recortes dos jornais e exemplares dos livros de que foi autor ou realizou capas. Trata-se de uma retrospectiva da obra humorística de Mont’Alvão, um artista que surge no “Primeiro de Janeiro” de 1946 a 1958, com colaborações também nos “Ridículos”, “A Bomba”, “Cara Alegre”… Essa assinatura de Mont’Alvão só recentemente teve a confirmação da sua autoria, o artista Júlio Montalvão Machado.
Uma produção Humorgrafe (investigação de Osvaldo Macedo de Sousa)

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Crónica Rosário Breve Lisboa vai ela por Daniel Abrunheiro

Vem tu daí comigo, meu justo & meu fiel Leitor, ao quintal das traseiras da minha lembrança. Concede-me esse obséquio que, impagável embora, tentarei remunerar-te mercê de uma Língua limpa e, como tu, fiel e justa.
Tenho trinta anos. O senhor meu Pai morre há bocadito. Eu bato com a porta. Tenho trinta anos e estou há anos de mais na Escola. Desemprego-me do giz & da ardósia. Vou para Lisboa.
Ânimo que a Lisboa me leva: viver, se não do que escrevo, para o que puder escrever. Escolhi bem o exílio: Lisboa é a brancura perpétua, escândalo de cal que, qual mulher fácil, se oferece sem preço à veia aberta do Tejo.
Adapto-me logo: a pé, venho dos Prazeres à Alameda para (re)conhecer tudo. Franqueio as Águas-Livres, espreito de longe a podridão exposta do Casal Ventoso, tenho cuidado com a carteira quando roço os manhosos de Alcântara, da de São Paulo ao Arsenal colho a sombra já mediterrânica que encharca as casas velhas, pesponto, pedestremente sempre, a Áurea e a Augusta, descambo afinal no mesmo Rossio onde os senhores pais do Eça tiveram um quarto-andar.
É bonita, a Velha Olisipo. Às Portas de Santo Antão, que Rua de Eugénio dos Santos foi mas ingratamente deixou de ser, apetece-me pipis de frango imiscuídos em pimenta e caril. Vou-me a eles.
Enquanto tasquinho as entranhas aviárias e impregno as papilas gustativas de indianas especiarias, sei muito bem que estou existindo sem doença nem remédio na Cidade da multidão chamada Fernando Pessoa, que chamou nomes a Deus, e do douto doutor tomarense chamado José-Augusto França, que felizmente Deus ainda não chamou.
De ali, saio a ver o Passeio Público, a que têm a mania de chamar Avenida da Liberdade. Subo, subo, balão de todo. Escancara-se-me o Marquês, o tremendo anti-jesuíta da Reconstrução pós-1755. Saturo-me sem saciedade possível de todo o articulado geométrico, amplo, respiratório. A luz é tanta, mas tanta, que chega a doer nos ossos da cara. Compasso o passo ao ritmo capital da Cidade. Finjo que sou feliz, que sou liberto, que nunca deixarei de ter trinta anos nem de ser órfão, ou órgão, de Pai.
Tenho um quarto no Bairro dos Artistas, a poucas passadas do Areeiro. Vinte-seis continhos por mês e por baixo da mesa: não há papéis nem Finanças para ninguém. Trabalho ali aos Mártires da Pátria, Jardim do Torel, tão perto do Irmão Doutor José Thomaz de Souza Martins, esse tão bom médico, esse tão bom homem. Recebo sessenta e duas milenas: é curto, mas tem de dar. E dá. Foi dando.
Repara agora, meu Justo & meu Fiel: há quarta-feira europeia, os energúmenos dos cachecóis infestam o metro, há que evitá-los pelo lado certo da noite. Vou ao bar do peep-show sito ao sopé da Calçada de Santo António da Glória. O balconista chama-se Fernando e é sportinguista. A cerveja é a trezentos paus. Ainda não aconteceu a roubalheira da conversão do escudo em euro. Fernando teve qualquer coisa a ver com o Parque Mayer, ali tão perto: não sei se uma nostalgia teatral, se uma mulher. Não inquiro. Saio.

É Lisboa outra vez: se eu quiser, dou à doida pela Fontes Pereira de Melo, devasso os Campos, chego a Campolide. Mas não quero. Quero antes isto: submeto-me à paranóia descomunal da fugacidade do Tempo, tenho mas é 52 anos e dou-me de cara(s) a ti, meu Fiel, meu Justo, num jornal que é, afinal, de Santarém, primeiro e último apeadeiro até à Coimbra de que nunca deixarei de ser, por mais boa que ela vá.

Exposição de cartoons de Augusto Cid - Entre Lisboa e Macau na VSB Art Galeria (Estoril) inaugura dia 4 de Junho pelas 17h


quarta-feira, 18 de maio de 2016

dfia 18 de Maio pelas 18 h com Bordalo à nesa no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa - Dia Internacional dos Museus

Com Maria de Lourdes Modesto, João Paulo Martins e Hugo nascimento

Rosário Breve Duas Suíças ou menos por Daniel Abrunheiro

1 Tenta viver como se fosse manhã.
Isto é Nietzsche lido por Bloom (H.). Parece-me boa injunção. Não é fácil: a noite figurada parece invencível as mais vezes. Não é fácil – mas é possível. E se é possível, está ao alcance.
Em caleidoscópio, as imagens do mundo concorrem-nos sem cessação. A atenção dispersa-se ao sabor (quantas vezes amargo) dos estímulos. A honestidade existe, mas não campeia. O banditismo parece integrar a essência humana. Os valores tidos por essenciais (direito à vida, ao trabalho, à saúde, à honra, à paz) podem ser e são escamoteados a pretexto de fantasmas obstinados: a superstição, a ganância, a ignorância, o preconceito, a dominação.
A veracidade evidente destas constantes é avessa à tal manhã existencial. Mas é possível combatê-la – antes que se faça tarde.
2 Na exígua paróquia do Universo chamada Portugal, os últimos tempos voltaram a ser fustigados pela euforia bêbeda da bola. Pelas redes sociais, umas (poucas) almas ainda verberaram tanta barulheira gráfica. Tipo assim: “Ah Portugueses dum caraças, se o desemprego, a saúde, a justiça e a austeridade forçada vos fizessem cerrar sempre fileiras combativas assim, seríamos para aí duas Suíças”. Mais ou menos isto. O espírito era este, se não o texto. Mas – quê? Rui Jorge Vitória Jesus, Jonas Fisgas Slimani Pistolas etc. etc. etc. etc.
3 Nos entrementes, há quem queira (e o queira muito) intoxicar a opinião pública com a antinomia Escola Pública – Colégios Particulares/Cooperativos. É natural que sim: estão em jogo os milhões de todos a saque de uns poucos. A necessidade pretérita dos ora famigerados contratos de associação tem sido em muitos casos, mercê do crescimento da oferta pública de rede escolar, debelada. Assim sendo, proponho três equações simples: Dinheiro Público – Escola Pública; Dinheiro Privado – Escola Privada; Caixa de Esmolas – Ensino Religioso. Pim, pam, pum. Posto de outra maneira: onde o contrato de associação se justifique (e há casos em que sim, note-se bem), cumpra-se; onde não, rasgue-se. E siga(mos) para bingo.
4 Se duas causas há que não apenas me não merecem simpatia como bem antes pelo contrário, elas são:
- a dos taxistas de Lisboa; 
- a dos suinicultores nacionais.
Há tempos, na TV, um taxista queixava-se de que “por causa da Uber, só fazemos serviços para a chungaria”, acrescentando que “a polícia anda sempre em cima de nós e se levamos um euro a mais é o diabo”. Isto nem carece de comentário.
Quanto à suinicultura nacional, relembro tão-só que a ganância impura e simples, anos/décadas a fio, tem levado os produtores íncolas a desprezar as mais básicas condições ecológico-ambientais suas envolventes. ETAR? Os municípios que as paguem. Sei, infelizmente sei, muito bem do que falo: habitante há anos de uma região enxameada de pecuárias afins, não desconheço os recorrentes (e não punidos) atentados contra, por exemplo, os aquíferos e os flúvios. Como se também os suinicultores estendessem à chungaria consumidora a pouca higiene do seu/deles porquinho.
5 Onde isto já vai: comecei citando Nietzsche e já ronco… Não é grave, porém: a realidade ficará exactamente no mesmo sítio, pesada, inamovível, indiferente a estas minhas filosofices impotentes. Salva-me todavia o facto vero & mesmo de ser manhã. Objectivamente manhã. Horariamente manhã. Tenho o dia todo (tê-lo-ei?) por minha conta. Na cama que dele fizer, a noite passarei.
E nela sonharei, naturalmente que sim, com o meu tetra na próxima época.

Assim seja.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Crónica Rosário Breve Com a senhora de violeta por Daniel Abrunheiro

Sonhei há tempos com a minha morte.
Não foi um sonho mórbido. Teve, pelo contrário, qualquer coisa de apaziguamento. Deu-me mais placidez do que acidez. Posso contar-Vos, claro.
Parece que a minha morte é uma senhora. Tem a minha idade: nasceu no meu nascimento. Apareceu-me sem fogos-fátuos-de-artifício. Os sonhos são filmes-mudos e a preto-cinza-e-branco, pelo que preciso de escrever aqui “violeta” para Vos dar a ver o vestido dela; e de oculta aparelhagem áudio surdia um fio que tanto podia ser de Bach como de Tony de Matos.
Era num relvado violeta também, posto que o escrevo. Arvoredo disperso exclamava a prosa do ar. Eu tinha uma caixa pequena de queijadas idênticas àquelas de que um homem se esquece em Sintra e uma botelha plena de um vinhito branco muito enxuto, muito decente, muito capaz de embaciar o palato e a espera por melhores dias.
Apesar da amplidão por assim dizer cinemascópica do cenário aberto, não havia passarada, facto que me angustiava um bocadito. Um trecho de rio fulgurava de mercúrio vivo ao canto exacto da tela. Medas de palha enxuta torravam ao sol frio. A senhora & eu, era descalços que estávamos.
Uma espécie de curiosidade serena quis que eu lhe desvelasse o rosto. Consegui, mas não foi fácil. Bastava não olhá-la directamente. Bastava fechar os olhos para descortinar na perfeição a sua efígie: era a minha cara mas em rapariga. Aquilo fez-me sorrir: a minha morte usava mamitas e tinha de urinar sentada.
Não falámos um com a outra por a absoluta desnecessidade de poluirmos com sílabas oxidadas a qualidade limpa-metal da quietude. Entendemo-nos como nem nos melhores casamentos.
Ela mordiscou um doce, serviu-se a si mesma de um cristal de branco, suspirava de quando em vez como se fosse ela a sonhar. Eu ainda quis recorrer à telepatia para lhe falar da importância devastadora que a poesia de Carlos de Oliveira, tão precocemente desaparecido, teve – e continua a ter – na minha vida, mas a senhora telegrafou-me isto sem abrir a boca: “Essa morte não era eu.”
Condenado como toda a gente a reatar os liames do re-nascimento por força do despertar, despertei. Dei por mim sozinho na cama como um feixe de ossos numa cova sem leões, Daniel sendo embora. A boca sabia-me a branco agora morno e a pedacitos de Sintra. Não me sabia a amargura, como tão de costume.
Até hoje, não voltei a vislumbrá-la. Tenho ido à senhora minha médica, a contagem dos glóbulos-brancos não indicia leucemias, o tabaco tem sido muito mas queima-se bem tipo ashes to ashes, o apetite varia com a exposição maior ou menor às malevolências da política e o meu Benfica, enfim, parece querer saudar de novo a memória do senhor meu Pai.

Estou agora numa expectativa quase trémula: morro de curiosidade. Morro de curiosidade por acabar, ou seja, morro de curiosidade por acabar sabendo quem me voltará primeiro – se ela, se os pássaros.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXXIV - IV Bienal de Humor Luís d'Oliveira Guimarães - Penela 2014


Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXXIII - As Palavras dos Outros de António Pascal


O Não-Jornal “ O Macaco” - Um caso de Imprensa Satírica por António Gomes de Almeida


Um jornal de Humor faz-se, em princípio, para ter graça. Se esse objectivo não é conseguido, isto é, se o jornal não tem graça nenhuma, fica a desconfiança de que, provavelmente, aqueles que o fazem não são lá grandes Humoristas – se calhar, são mesmo uns tristes… Conhecem-se vários exemplos, que não interessa mencionar aqui, para não entristecer os leitores… Mas talvez interesse, isso sim, descrever o caso de um jornal de Humor que tinha tudo o que parecia necessário para vir a ter graça, mas perdeu a oportunidade de o comprovar, porque… não passou do Número Zero! Foi, portanto, um não-jornal
Tudo aconteceu a meio do revolucionário ano de 1974, quando se viviam por cá as emoções e as angústias do PREC, o tal Processo Revolucionário Em Curso, que os jovens de hoje não imaginam o que foi – só o conheceram bem aqueles que são agora delicadamente designados pelo respeitoso nome de seniores (naquele tempo, chamavam-se os chatos dos velhos). Os acontecimentos políticos e sociais dessa época deram origem ao aparecimento de uma catadupa de jornais ditos de Humor, quase todos de vida efémera (ver, a propósito, noutro local deste mesmo site do CPI, o texto intitulado “Que é feito dos nossos jornais de Humor?”). Todos eles faleceram de morte natural – mas houve um que se finou, de forma algo original, ainda antes de ter nascido. Chamou-se (ou melhor, iria chamar-se) O Macaco. E esta é a sua breve história.
Tenho de pedir desculpa por narrar estes factos na primeira pessoa, garanto que não é por vaidade, é só porque não encontro melhor forma de explicar o que se passou, ao ser convidado para ser o Director desse jornal. Se calhar porque tivera, anteriormente, algumas experiências, umas com êxito, outras nem por isso, na direcção de publicações de Humor. Dirigira O Mundo Ri, em 1954, e O Picapau, em 1955. Entre 1960 e 1962, tinha dirigido o semanário de humor dos Parodiantes de Lisboa (e este episódio também pode ser lido no site, sob o título “O fenómeno Parada da Paródia”). Depois, entre 1972 e 1974, tinha escrito mais de uma centena de crónicas, sob o título Os Pontos, com o pseudónimo Óscar Pontinho, para a revista Rádio & Televisão, propriedade da Radioprel (empresa intimamente ligada à Sociedade Industrial de Imprensa, sendo esta a proprietária do Diário Popular, e funcionando todas estas entidades no mesmo edifício, na Rua Luz Soriano, no Bairro Alto).
Terá sido por causa desse passado ligado ao Humor (que algumas “pessoas sérias” poderiam talvez considerar pouco recomendável…) que fui convidado para dirigir o projecto de um novo jornal satírico, que viria a ser O Macaco. Bem… viria a ser é força de expressão, porque o projecto, afinal, não passaria disso mesmo: de projecto.
Diário Popular era então um vespertino com grande popularidade e prestígio, tendo como colaboradores alguns dos mais acreditados jornalistas da época.
O convite, muito honroso pela confiança que atribuía à pessoa do convidado, consistia em produzir um jornal de humor, com um aspecto físico pouco usual em publicações deste género: uns imensos 43x30 cm, o mesmo formato do Popular. Seria um semanário, impresso a offset, a cores, com saída à sexta-feira, distribuído pela mesma Sociedade Industrial de Imprensa, e vendido ao preço de 5 escudos. A ideia era a de testar o sistema offset, que seria depois aplicado, se tudo corresse bem, ao próprio Diário Popular.
Aceite o encargo, seguiu-se a instalação da Redacção, sempre na Rua Luz Soriano, e os convites aos futuros colaboradores, na sua maioria já conhecidos por terem pertencido a idênticas equipas anteriores. O entusiasmo era grande, porque os acontecimentos políticos ainda recentes (o 25 de Abril tinha poucos meses) davam-nos a esperança de podermos, finalmente, fazer aquele tipo de Humor que a Censura nos proibira até então. Verdade que havia, além dessa expectativa, também alguma aflição meio escondida: com a liberdade total que nos tinha sido anunciada, seríamos capazes de produzir material humorístico de jeito? Ou os condicionalismos de tantos anos levar-nos-iam, inconscientemente, a manter a prudência auto-censória a que nos tínhamos habituado? Enfim, logo se veria, agora, o essencial era formar a equipa!
OS COLABORADORES
Foi fácil e rápida a constituição do grupo de Humoristas que iriam trabalhar n’O Macaco. Na verdade, a única dificuldade surgiu, um tanto inesperadamente, por razões políticas! Toda a gente andava muito atarefada a inscrever-se nos Partidos políticos que iam surgindo todos os dias, e a resolver qual a bandeirinha ideológica a escolher. Por isso, alguns, que tinham feito parte de equipas anteriores, trabalhando lado a lado em publicações em que só era importante produzir coisas com graça, punham agora dúvidas, perguntando antecipadamente: “Mas… o jornal vai ser o quê? Socialista, comunista, maoista? Vai ser esquerdista, direitista?...” Deu algum trabalho explicar que o jornal deveria ser, principalmente, Humorista… Enfim, lá se constituiu a turma, que ficou formada por um conjunto de redactores de que faria parte Fernando Ávila (que era jornalista no DP, com especial propensão para escrever sobre ciclismo, acompanhando apaixonadamente a Volta a Portugal; era também autor de Teatro de Revista, em parceria com autores de sucesso, como Aníbal Nazaré, Amadeu do Vale, etc.); também o Carlos Miranda, que já colaborara noutros jornais de humor (e, curiosamente, era também muito ligado a reportagens sobre Ciclismo); este viria, mais tarde, a ser Director do jornal A BolaMário-Henrique Leiria, sim, esse mesmo, o surrealista, autor dos Contos do Gin-Tónico, um revolucionário na Política e na Arte, que deixou escrito um inédito “Dicionário Modesto para Famílias de Poucos Haveres” e, ultrapassando o seu estado físico debilitado, trazia uma alegria contagiante à Redacção; Álvaro Magalhães dos Santos, que já colaborara, com rubricas de humor, em vários diários, depois de ter sido descoberto na Parada da Paródia; e ainda mais alguns Humoristas talentosos. A estes se juntava um excelente lote de ilustradores, encabeçado pelo genial João Martins, e contando ainda com o talentoso Zé Manel, mais o José Antunes, o Vitor Milheirão e o Ricardo Reis, todos excelentes e todos “repescados” de aventuras humorísticas anteriores. O departamento gráfico estava entregue a Henrique Tenreiroe a publicidade a António Franco, dos quadros da SII.
PREPARANDO O LANÇAMENTO
Foi acordado que o Diário Popular, na sua qualidade de “patrono” do novo semanário, faria uma campanha de informação, precedendo o lançamento do primeiro número, previsto para Novembro de 1974. E assim aconteceu. Durante vários dias, as páginas do popularíssimo diário vinham salpicadas com anúncios da próxima saída d’O Macaco. Entretanto, iam sendo preparados os originais para os primeiros números – particularmente para um “Número Zero”, que serviria de mostruário dos que viriam a seguir, e que seria oferecido aos leitores, acompanhando uma edição normal do Diário Popular – passando O Macaco, a partir da semana seguinte, a ser vendido separadamente. Assim tinha sido previsto e combinado.
Na véspera, isto é, no dia 28 de Novembro, uma página inteira anunciava: “O Macaco – amanhã é dado!  (Poderá encontrá-lo aqui, incluído como separata de oito páginas do “Diário Popular”, a cores e a preto e branco, impresso em offset, com a sua graça escondida e o rabo de fora…)  P.S. – Apenas por ser um ZERO e amostra sem valor é de borla – os outros números vão ser A PAGAR.”
Na Redacção, vivia-se a expectativa do acolhimento que o público daria ao jornal, quando visse, no dia seguinte, a amostra que tínhamos preparado do seu conteúdo.
UM “MACACO” QUE NÃO CHEGOU A SAIR DO SEU GALHO...
Só que… no dia seguinte, uma minúscula notícia, meio escondida numa página discreta do Diário Popular, informava: “O Macaco – Por motivos de ordem técnica, alheios à nossa vontade, não nos é possível incluir hoje, em separata, e conforme tínhamos anunciado, o número zero do semanário humorístico “O Macaco”. Do facto, apresentamos desculpas aos nossos leitores.”
Ora, na verdade, os “motivos de ordem técnica” não tinham nada de “técnica”, tinham mais a ver com “política”… A efervescência era então muito grande, tanto nas Redacções como nas Oficinas dos jornais de Lisboa, em alguns dos quais, embalados pelas teorias de esquerda assimiladas um tanto à pressa, no calor da Revolução, os trabalhadores gráficos pretendiam sobrepor-se aos jornalistas, mesmo no que se referia ao conteúdo dos textos. E o mesmo quanto às opções editoriais – o que incluía iniciativas como a da criação de um novo título.
Foi assim que uma delegação do pessoal gráfico veio informar-nos de que resolvera, à última hora, na sequência de um plenário, impedir a saída d’O Macaco. E esclareceram mesmo, um pouco embaraçados: “Não é nada contra vocês, até respeitamos o vosso trabalho… É contra a Administração, que temos suspeitas de andar a preparar algumas manobras contra os trabalhadores!”…
Tais “manobras” nunca chegaram a ser concretizadas...
Mas foi assim que o Número Zero d’O Macaco, já impresso, com a apresentação do conteúdo e do estilo que pretendíamos dar ao jornal, e uma amostra dos talentos dos seus vários colaboradores, não chegou às mãos dos leitores, e acabou ingloriamente guilhotinado nas oficinas, e despejado no contentor do papel sem uso…

Com alguma dificuldade, salvaram-se dois exemplares, cuidadosamente conservados, como peças raras que são, e como testemunhos de um “hebdomacaco com macaquinhos no sótão”, como se lia no cabeçalho – um projecto de semanário de humor, um “não-jornal” que, devido a circunstâncias muito peculiares, acabou antes de começar e, por isso, não chegou a ter, afinal, graça nenhuma!...

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Humor de Henricartoon


Crónica Rosário Breve - Eu, rico por Daniel Abrunheiro

Não.
Mas sim.
José Niza.
Luís Eugénio Ferreira.
Eurico Heitor Consciência, agora.
Mas sim é que não: não negarei ao doutor Consciência um obituário ao mesmo tempo triste & feliz.
Triste – pelo lado do sacolejão brusco, da violência estapafúrdia, do escândalo insensato que todo o falecimento de alguém tão merecedor de honra, estima, consideração & elogio nunca deixa de causar. Mas feliz também, senhor.
Feliz – pelo lado de absoluta bonomia que a sua desempoeirada figura, a sua figura alta, egrégia sem favor, ínclita até, esparrinhou por todos (nós) quantos, ou conhecendo-o em pessoa, ou dele beneficiando a profissão, ou a ele-cronista lendo em duas colunas de página-cinco, tiveram a muito (tanta!) boa-sorte de contemporanizar.
Respirámos no mesmo metro-quadrado uma vez única. Foi por uma gala do nosso comum O Ribatejo. Saudei-o como quem sobe. Ele recumprimentou-me como se não descesse. Trocámos mimos. Não trocámos números telefónicos. Isso passou – como tudo passa.
Posso finalmente escrevedizê-lo em voz-alta, agora que ele me não pode ouvi(le)r: foi sempre pela coluna de Eurico, O Não-Presbítero, que comecei a leitura do meu/Vosso Jornal. Mais: fi-lo sempre porque as palavras dele nunca me faziam rir – sorrir sim, sempre, ah isso sim! Ainda esta semana já para sempre pretérita: a mordedura irónica do seu incisivo de propósito mal escondido, sabes tu, Leitor? Aquele sarcasmo nunca humilhante, aquele escárnio nunca gozão, aquele maldizer tão bem dito sempre: e aquela elegância completamente cavalheiresca, de homem antigo que não sabe ser velho, ai!, aquela compostura toda democrática que ele português, num Português forrado de quanto Latim, jurídico ou não, fosse preciso ou não fosse, lembra-te tu, pá, Leitor dele merecido que meu quero merecer – e tudo sempre, mas sempre, para Todos, todos quanto fossem, quantos viessem todos.
Meti-me uma vez com ele. Fi-lo sorrir. Eu sabia que sim, que ele sorriria. Sorriu. Que um advogado com Consciência era abrantino fenómeno só aos fenómenos do Entroncamento cotejável. Ele encaixou sem esgar nem esforço a minha boutade, que simpatia sinalética era. Respondeu-me na crónica seguinte com Abrunhos etc. e tal. Foi das maiores honras da minha vida. Eu era lido. Por ele. Ele respondia ao que eu fingira perguntar.
O doutor Eurico Heitor Consciência viveu acordado a vida toda, 79 anos dela. Espero hoje e aqui, tão-só, que a morte no-lo tenha roubado dormindo.
Dormindo e sorrindo, que é o que precisamente estou a fazer para não desatar a chorar, José Niza. Perdão, para não desatar a chorar, Luís Eugénio. O senhor sabe, doutor Eurico. Não finja que não sabe (fazer) sorrir.

Até para a semana.