Com Maria de Lourdes Modesto, João Paulo Martins e Hugo nascimento
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Rosário Breve Duas Suíças ou menos por Daniel Abrunheiro
1 “Tenta
viver como se fosse manhã.”
Isto é Nietzsche lido por Bloom (H.).
Parece-me boa injunção. Não é fácil: a noite figurada parece invencível as mais
vezes. Não é fácil – mas é possível. E se é possível, está ao alcance.
Em caleidoscópio, as imagens do mundo
concorrem-nos sem cessação. A atenção dispersa-se ao sabor (quantas vezes
amargo) dos estímulos. A honestidade existe, mas não campeia. O banditismo
parece integrar a essência humana. Os valores tidos por essenciais (direito à
vida, ao trabalho, à saúde, à honra, à paz) podem ser e são escamoteados a
pretexto de fantasmas obstinados: a superstição, a ganância, a ignorância, o
preconceito, a dominação.
A veracidade evidente destas constantes é avessa
à tal manhã existencial. Mas é
possível combatê-la – antes que se faça tarde.
2 Na exígua paróquia do Universo chamada
Portugal, os últimos tempos voltaram a ser fustigados pela euforia bêbeda da bola. Pelas redes sociais, umas (poucas)
almas ainda verberaram tanta barulheira gráfica. Tipo assim: “Ah Portugueses dum caraças, se o desemprego,
a saúde, a justiça e a austeridade forçada vos fizessem cerrar sempre fileiras
combativas assim, seríamos para aí duas Suíças”. Mais ou menos isto. O
espírito era este, se não o texto. Mas – quê? Rui Jorge Vitória Jesus, Jonas
Fisgas Slimani Pistolas etc. etc. etc. etc.
3 Nos entrementes, há quem queira (e o queira
muito) intoxicar a opinião pública com a antinomia Escola Pública – Colégios
Particulares/Cooperativos. É natural
que sim: estão em jogo os milhões de todos a saque de uns poucos. A necessidade
pretérita dos ora famigerados contratos
de associação tem sido em muitos casos, mercê do crescimento da oferta
pública de rede escolar, debelada. Assim sendo, proponho três equações simples:
Dinheiro Público – Escola Pública; Dinheiro Privado – Escola Privada; Caixa de
Esmolas – Ensino Religioso. Pim, pam, pum. Posto de outra
maneira: onde o contrato de associação se justifique (e há
casos em que sim, note-se bem), cumpra-se; onde não, rasgue-se. E siga(mos) para bingo.
4 Se duas causas há que não apenas me não merecem simpatia como bem antes
pelo contrário, elas são:
- a dos taxistas de Lisboa;
- a dos suinicultores nacionais.
Há tempos, na TV, um taxista queixava-se de que “por causa da Uber, só fazemos serviços para a chungaria”,
acrescentando que “a polícia anda sempre
em cima de nós e se levamos um euro a mais é o diabo”. Isto nem carece de
comentário.
Quanto à suinicultura nacional, relembro tão-só que a ganância impura e
simples, anos/décadas a fio, tem levado os produtores íncolas a desprezar as
mais básicas condições ecológico-ambientais suas envolventes. ETAR? Os
municípios que as paguem. Sei, infelizmente sei, muito bem do que falo:
habitante há anos de uma região enxameada de pecuárias afins, não desconheço os
recorrentes (e não punidos) atentados contra, por exemplo, os aquíferos e os
flúvios. Como se também os suinicultores estendessem à chungaria consumidora a pouca higiene do seu/deles porquinho.
5 Onde isto já vai: comecei citando Nietzsche e já
ronco… Não é grave, porém: a realidade ficará exactamente no mesmo sítio,
pesada, inamovível, indiferente a estas minhas filosofices impotentes. Salva-me
todavia o facto vero & mesmo de ser manhã. Objectivamente manhã.
Horariamente manhã. Tenho o dia todo (tê-lo-ei?) por minha conta. Na cama que
dele fizer, a noite passarei.
E nela sonharei, naturalmente que sim, com o meu tetra na próxima época.
Assim seja.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Crónica Rosário Breve Com a senhora de violeta por Daniel Abrunheiro
Sonhei há tempos com a minha morte.
Não foi um sonho mórbido. Teve, pelo
contrário, qualquer coisa de apaziguamento. Deu-me mais placidez do que acidez.
Posso contar-Vos, claro.
Parece que a minha morte é uma senhora.
Tem a minha idade: nasceu no meu nascimento. Apareceu-me sem
fogos-fátuos-de-artifício. Os sonhos são filmes-mudos e a preto-cinza-e-branco,
pelo que preciso de escrever aqui “violeta” para Vos dar a ver o vestido dela;
e de oculta aparelhagem áudio surdia um fio que tanto podia ser de Bach como de
Tony de Matos.
Era num relvado violeta também, posto que
o escrevo. Arvoredo disperso exclamava a prosa do ar. Eu tinha uma caixa
pequena de queijadas idênticas àquelas de que um homem se esquece em Sintra e
uma botelha plena de um vinhito branco muito enxuto, muito decente, muito capaz
de embaciar o palato e a espera por melhores dias.
Apesar da amplidão por assim dizer
cinemascópica do cenário aberto, não havia passarada, facto que me angustiava
um bocadito. Um trecho de rio fulgurava de mercúrio vivo ao canto exacto da
tela. Medas de palha enxuta torravam ao sol frio. A senhora & eu, era
descalços que estávamos.
Uma espécie de curiosidade serena quis
que eu lhe desvelasse o rosto. Consegui, mas não foi fácil. Bastava não olhá-la
directamente. Bastava fechar os olhos para descortinar na perfeição a sua
efígie: era a minha cara mas em rapariga. Aquilo fez-me sorrir: a minha morte usava
mamitas e tinha de urinar sentada.
Não falámos um com a outra por a absoluta
desnecessidade de poluirmos com sílabas oxidadas a qualidade limpa-metal da
quietude. Entendemo-nos como nem nos melhores casamentos.
Ela mordiscou um doce, serviu-se a si
mesma de um cristal de branco, suspirava de quando em vez como se fosse ela a
sonhar. Eu ainda quis recorrer à telepatia para lhe falar da importância
devastadora que a poesia de Carlos de Oliveira, tão precocemente desaparecido,
teve – e continua a ter – na minha vida, mas a senhora telegrafou-me isto sem
abrir a boca: “Essa morte não era eu.”
Condenado como toda a gente a reatar os
liames do re-nascimento por força do despertar, despertei. Dei por mim sozinho
na cama como um feixe de ossos numa cova sem leões, Daniel sendo embora. A boca
sabia-me a branco agora morno e a pedacitos de Sintra. Não me sabia a amargura,
como tão de costume.
Até hoje, não voltei a vislumbrá-la.
Tenho ido à senhora minha médica, a contagem dos glóbulos-brancos não indicia
leucemias, o tabaco tem sido muito mas queima-se bem tipo ashes to ashes, o apetite varia com a exposição maior ou menor às
malevolências da política e o meu Benfica, enfim, parece querer saudar de novo
a memória do senhor meu Pai.
Estou agora numa expectativa quase
trémula: morro de curiosidade. Morro de curiosidade por acabar, ou seja, morro
de curiosidade por acabar sabendo quem me voltará primeiro – se ela, se os
pássaros.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
quarta-feira, 4 de maio de 2016
O Não-Jornal “ O Macaco” - Um caso de Imprensa Satírica por António Gomes de Almeida
Um jornal de Humor faz-se, em
princípio, para ter graça. Se esse objectivo não é conseguido, isto é, se o
jornal não tem graça nenhuma, fica a desconfiança de que, provavelmente,
aqueles que o fazem não são lá grandes Humoristas – se calhar, são mesmo uns
tristes… Conhecem-se vários exemplos, que não interessa mencionar aqui, para
não entristecer os leitores… Mas talvez interesse, isso sim, descrever o caso
de um jornal de Humor que tinha tudo o que parecia necessário para vir a ter
graça, mas perdeu a oportunidade de o comprovar, porque… não passou do Número
Zero! Foi, portanto, um não-jornal…
Tudo aconteceu a meio do
revolucionário ano de 1974, quando se viviam por cá as emoções e as angústias
do PREC, o tal Processo Revolucionário Em Curso,
que os jovens de hoje não imaginam o que foi – só o conheceram bem aqueles que
são agora delicadamente designados pelo respeitoso nome de seniores (naquele
tempo, chamavam-se os chatos dos velhos). Os
acontecimentos políticos e sociais dessa época deram origem ao aparecimento de
uma catadupa de jornais ditos de Humor, quase todos de vida efémera (ver, a
propósito, noutro local deste mesmo site do CPI, o texto
intitulado “Que é feito dos nossos jornais de Humor?”). Todos eles
faleceram de morte natural – mas houve um que se finou, de forma algo original,
ainda antes de ter nascido. Chamou-se (ou melhor, iria chamar-se) O
Macaco. E esta é a sua breve história.
Tenho de pedir desculpa por narrar
estes factos na primeira pessoa, garanto que não é por vaidade, é só porque não
encontro melhor forma de explicar o que se passou, ao ser convidado para ser o
Director desse jornal. Se calhar porque tivera, anteriormente, algumas
experiências, umas com êxito, outras nem por isso, na direcção de publicações
de Humor. Dirigira O Mundo Ri, em 1954, e O Picapau, em 1955.
Entre 1960 e 1962, tinha dirigido o semanário de humor dos Parodiantes
de Lisboa (e este episódio também pode ser lido no site,
sob o título “O fenómeno Parada da Paródia”). Depois, entre 1972 e 1974,
tinha escrito mais de uma centena de crónicas, sob o título Os Pontos,
com o pseudónimo Óscar Pontinho, para a revista Rádio &
Televisão, propriedade da Radioprel (empresa intimamente ligada à Sociedade
Industrial de Imprensa, sendo esta a proprietária do Diário Popular, e
funcionando todas estas entidades no mesmo edifício, na Rua Luz Soriano, no
Bairro Alto).
Terá sido por causa desse passado
ligado ao Humor (que algumas “pessoas sérias” poderiam talvez considerar pouco
recomendável…) que fui convidado para dirigir o projecto de um novo jornal
satírico, que viria a ser O Macaco. Bem… viria a ser é força de
expressão, porque o projecto, afinal, não passaria disso mesmo: de projecto.
O Diário Popular era
então um vespertino com grande popularidade e prestígio, tendo como
colaboradores alguns dos mais acreditados jornalistas da época.
O convite, muito honroso pela
confiança que atribuía à pessoa do convidado, consistia em produzir um jornal
de humor, com um aspecto físico pouco usual em publicações deste género: uns
imensos 43x30 cm, o mesmo formato do Popular. Seria um semanário,
impresso a offset, a cores, com saída à sexta-feira, distribuído pela mesma
Sociedade Industrial de Imprensa, e vendido ao preço de 5 escudos. A ideia era
a de testar o sistema offset, que seria depois aplicado, se tudo corresse bem,
ao próprio Diário Popular.
Aceite o encargo, seguiu-se a
instalação da Redacção, sempre na Rua Luz Soriano, e os convites aos futuros
colaboradores, na sua maioria já conhecidos por terem pertencido a idênticas
equipas anteriores. O entusiasmo era grande, porque os acontecimentos políticos
ainda recentes (o 25 de Abril tinha poucos meses) davam-nos a esperança de
podermos, finalmente, fazer aquele tipo de Humor que a Censura nos proibira até
então. Verdade que havia, além dessa expectativa, também alguma aflição meio
escondida: com a liberdade total que nos tinha sido anunciada, seríamos capazes
de produzir material humorístico de jeito? Ou os condicionalismos de tantos
anos levar-nos-iam, inconscientemente, a manter a prudência auto-censória a que
nos tínhamos habituado? Enfim, logo se veria, agora, o essencial era formar a
equipa!
OS COLABORADORES
Foi fácil e rápida a constituição
do grupo de Humoristas que iriam trabalhar n’O Macaco. Na verdade, a
única dificuldade surgiu, um tanto inesperadamente, por razões políticas! Toda
a gente andava muito atarefada a inscrever-se nos Partidos políticos que iam
surgindo todos os dias, e a resolver qual a bandeirinha ideológica a escolher.
Por isso, alguns, que tinham feito parte de equipas anteriores, trabalhando
lado a lado em publicações em que só era importante produzir coisas com graça,
punham agora dúvidas, perguntando antecipadamente: “Mas… o jornal vai ser o
quê? Socialista, comunista, maoista? Vai ser esquerdista, direitista?...”
Deu algum trabalho explicar que o jornal deveria ser, principalmente, Humorista…
Enfim, lá se constituiu a turma, que ficou formada por um conjunto de
redactores de que faria parte Fernando Ávila (que era jornalista
no DP, com especial propensão para escrever sobre ciclismo,
acompanhando apaixonadamente a Volta a Portugal; era também autor de Teatro de
Revista, em parceria com autores de sucesso, como Aníbal Nazaré, Amadeu do
Vale, etc.); também o Carlos Miranda, que já colaborara noutros
jornais de humor (e, curiosamente, era também muito ligado a reportagens sobre
Ciclismo); este viria, mais tarde, a ser Director do jornal A Bola; Mário-Henrique
Leiria, sim, esse mesmo, o surrealista, autor dos Contos do
Gin-Tónico, um revolucionário na Política e na Arte, que deixou escrito um
inédito “Dicionário Modesto para Famílias de Poucos Haveres” e,
ultrapassando o seu estado físico debilitado, trazia uma alegria contagiante à
Redacção; Álvaro Magalhães dos Santos, que já colaborara, com
rubricas de humor, em vários diários, depois de ter sido descoberto na Parada
da Paródia; e ainda mais alguns Humoristas talentosos. A estes se juntava
um excelente lote de ilustradores, encabeçado pelo genial João Martins,
e contando ainda com o talentoso Zé Manel, mais o José
Antunes, o Vitor Milheirão e o Ricardo Reis,
todos excelentes e todos “repescados” de aventuras humorísticas anteriores. O
departamento gráfico estava entregue a Henrique Tenreiroe a
publicidade a António Franco, dos quadros da SII.
PREPARANDO O LANÇAMENTO
Foi acordado que o Diário
Popular, na sua qualidade de “patrono” do novo semanário, faria uma
campanha de informação, precedendo o lançamento do primeiro número, previsto
para Novembro de 1974. E assim aconteceu. Durante vários dias, as páginas do
popularíssimo diário vinham salpicadas com anúncios da próxima saída d’O
Macaco. Entretanto, iam sendo preparados os originais para os primeiros
números – particularmente para um “Número Zero”, que serviria de mostruário dos
que viriam a seguir, e que seria oferecido aos leitores, acompanhando uma
edição normal do Diário Popular – passando O Macaco,
a partir da semana seguinte, a ser vendido separadamente. Assim tinha sido
previsto e combinado.
Na véspera, isto é, no dia 28 de
Novembro, uma página inteira anunciava: “O Macaco – amanhã é dado!
(Poderá encontrá-lo aqui, incluído como separata de oito páginas do “Diário
Popular”, a cores e a preto e branco, impresso em offset, com a sua graça
escondida e o rabo de fora…) P.S. – Apenas por ser um ZERO e amostra sem
valor é de borla – os outros números vão ser A PAGAR.”
Na Redacção, vivia-se a
expectativa do acolhimento que o público daria ao jornal, quando visse, no dia
seguinte, a amostra que tínhamos preparado do seu conteúdo.
UM “MACACO” QUE NÃO CHEGOU A SAIR
DO SEU GALHO...
Só que… no dia seguinte, uma
minúscula notícia, meio escondida numa página discreta do Diário
Popular, informava: “O Macaco – Por motivos de ordem técnica, alheios à
nossa vontade, não nos é possível incluir hoje, em separata, e conforme
tínhamos anunciado, o número zero do semanário humorístico “O Macaco”. Do
facto, apresentamos desculpas aos nossos leitores.”
Ora, na verdade, os “motivos de
ordem técnica” não tinham nada de “técnica”, tinham mais a ver com “política”…
A efervescência era então muito grande, tanto nas Redacções como nas Oficinas
dos jornais de Lisboa, em alguns dos quais, embalados pelas teorias de esquerda
assimiladas um tanto à pressa, no calor da Revolução, os trabalhadores gráficos
pretendiam sobrepor-se aos jornalistas, mesmo no que se referia ao conteúdo dos
textos. E o mesmo quanto às opções editoriais – o que incluía iniciativas como
a da criação de um novo título.
Foi assim que uma delegação do
pessoal gráfico veio informar-nos de que resolvera, à última hora, na sequência
de um plenário, impedir a saída d’O Macaco. E esclareceram mesmo, um
pouco embaraçados: “Não é nada contra vocês, até respeitamos o vosso
trabalho… É contra a Administração, que temos suspeitas de andar a preparar
algumas manobras contra os trabalhadores!”…
Tais “manobras” nunca chegaram a
ser concretizadas...
Mas foi assim que o Número Zero d’O
Macaco, já impresso, com a apresentação do conteúdo e do estilo que
pretendíamos dar ao jornal, e uma amostra dos talentos dos seus vários
colaboradores, não chegou às mãos dos leitores, e acabou ingloriamente
guilhotinado nas oficinas, e despejado no contentor do papel sem uso…
Com alguma dificuldade,
salvaram-se dois exemplares, cuidadosamente conservados, como peças raras que
são, e como testemunhos de um “hebdomacaco com macaquinhos no sótão”,
como se lia no cabeçalho – um projecto de semanário de humor, um “não-jornal”
que, devido a circunstâncias muito peculiares, acabou antes de começar e,
por isso, não chegou a ter, afinal, graça nenhuma!...
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Crónica Rosário Breve - Eu, rico por Daniel Abrunheiro
Não.
Mas sim.
José Niza.
Luís Eugénio Ferreira.
Eurico Heitor Consciência,
agora.
Mas sim é que não: não
negarei ao doutor Consciência um obituário ao mesmo tempo triste & feliz.
Triste – pelo lado do
sacolejão brusco, da violência estapafúrdia, do escândalo insensato que todo o
falecimento de alguém tão merecedor de honra, estima, consideração & elogio
nunca deixa de causar. Mas feliz também, senhor.
Feliz – pelo lado de
absoluta bonomia que a sua desempoeirada figura, a sua figura alta, egrégia sem
favor, ínclita até, esparrinhou por todos (nós) quantos, ou conhecendo-o em
pessoa, ou dele beneficiando a profissão, ou a ele-cronista lendo em duas
colunas de página-cinco, tiveram a muito (tanta!) boa-sorte de contemporanizar.
Respirámos no mesmo
metro-quadrado uma vez única. Foi por uma gala do nosso comum O Ribatejo. Saudei-o como quem sobe. Ele
recumprimentou-me como se não descesse. Trocámos mimos. Não trocámos números
telefónicos. Isso passou – como tudo passa.
Posso finalmente
escrevedizê-lo em voz-alta, agora que ele me não pode ouvi(le)r: foi sempre
pela coluna de Eurico, O Não-Presbítero, que comecei a leitura do meu/Vosso
Jornal. Mais: fi-lo sempre porque as palavras dele nunca me faziam rir – sorrir
sim, sempre, ah isso sim! Ainda esta semana já para sempre pretérita: a
mordedura irónica do seu incisivo de propósito mal escondido, sabes tu, Leitor?
Aquele sarcasmo nunca humilhante, aquele escárnio nunca gozão, aquele maldizer tão bem dito sempre: e aquela
elegância completamente cavalheiresca, de homem antigo que não sabe ser velho,
ai!, aquela compostura toda democrática que ele português, num Português
forrado de quanto Latim, jurídico ou não, fosse preciso ou não fosse, lembra-te
tu, pá, Leitor dele merecido que meu quero merecer – e tudo sempre, mas sempre,
para Todos, todos quanto fossem, quantos viessem todos.
Meti-me uma vez com ele.
Fi-lo sorrir. Eu sabia que sim, que ele sorriria. Sorriu. Que um advogado com Consciência era abrantino fenómeno só
aos fenómenos do Entroncamento cotejável. Ele encaixou sem esgar nem esforço a
minha boutade, que simpatia
sinalética era. Respondeu-me na crónica seguinte com Abrunhos etc. e tal. Foi das maiores honras da minha vida. Eu era
lido. Por ele. Ele respondia ao que eu fingira perguntar.
O doutor Eurico Heitor
Consciência viveu acordado a vida toda, 79 anos dela. Espero hoje e aqui,
tão-só, que a morte no-lo tenha roubado dormindo.
Dormindo e sorrindo, que é o
que precisamente estou a fazer para não desatar a chorar, José Niza. Perdão, para
não desatar a chorar, Luís Eugénio. O senhor sabe, doutor Eurico. Não finja que
não sabe (fazer) sorrir.
Até para a semana.
segunda-feira, 11 de abril de 2016
V BIENAL DE HUMOR LUÍZ D’OLIVEIRA GUIMARÃES – PENELA 2016 “DO MEL AO FERRÃO”
V BIENAL DE HUMOR LUÍZ D’OLIVEIRA GUIMARÃES – PENELA 2016
“DO MEL AO FERRÃO”
Por: Osvaldo
Macedo de Sousa
“O humorismo
representa a mais sã de todas as filosofias, que é a dos que sabem rir.
O humorista
comentando através da sua ironia os homens e os factos que gravitam á sua
volta,
produz,
quando o faz com o espirito superior e critério conceituoso, uma profunda obra
moral.
Por isso
mesmo a alegria dos humoristas nem sempre deixa de ser ilusória.
Quantas vezes
a pequena máscara cor-de-rosa que eles ostentam sobre a face,
esconde uma
lágrima pungente! A ironia que se desprende da sua “verve” sagaz encobre,
de certo
modo, o drama que o mundo oferece dia-a-dia. Ao seu comentário flagrante.”
(LOG. In “Entre nós que ninguém nos ouve” pág. 68)
O que une a
abelha e o cartoonista, o espírito do mel ou a sátira do ferrão?
Como em tudo
na vida, depende da perspetiva de cada um e, se a verdade nunca está de um lado
nem no do outro, e muito menos no centro mas na essência dos seres, das coisas,
das relações, as minhas deambulações metafóricas por este tema não passam de
muletas, divagações do pensamento, portas para cada um seguir o seu caminho de
reflexão humorística no tópico selecionado para esta Bienal, concordando ou
discordando totalmente do que está escrito.
A abelha, ou a
apicultura, com a exploração de todos os derivados inerentes à actividade deste
insecto, está ligada ao Homem, desde que este tomou consciência do seu espírito,
energia essa que também lhe abriu a mente para conseguir olhar o mundo afora
das aparências, consciencializar-se para além do espelho, pensar ademais da
neblina das palavras e das perspectivas.
Graficamente
encontramos as suas primeiras representações por volta de 7.000 a.C., em
pinturas rupestres de Araña – Valência. No Antigo Egipto (a partir de 3.200 a.C.)
está associada à realeza faraónica, agregadora numa única colmeia – federação de
todas as regiões do Egipto: o verdadeiro título do Faraó era NyswBit, onde Bit
significa Abelha e é o símbolo do baixo Egipto. Segundo a sua mitologia, Bit foi
gerada das lágrimas de Rá (o deus-sol) ao caírem sobre a terra, impondo-se como
um ser de múltiplas riquezas e características terapêuticas, ao mesmo tempo que
assume a iconografia da alma Divina do ser humano.
Esta ligação
espiritual surge em quase todas as culturas da antiguidade, representando,
muitas das vezes, a crença da sobrevivência além-morte, da ressurreição /
reencarnação. Esta ilação ao caminho da evolução da alma leva a que tenha sido
associada a cerimónias iniciáticas, em que o Espírito / Palavra (em hebraico
“abelha” escreve-se “Dbure”, cuja raiz Dbr significa verbo / palavra) se purifica
pelo fogo, se nutre com o mel (o hidromel é a bebida dos deuses) e que destrói as
impurezas / obstáculos com o seu ferrão.
Também o
cristianismo absorveu este universo alegórico em que Jesus assume a imagem da
abelha e o mel é a doçura da sua palavra / pensamento como alimento das almas e
o ferrão o papel de Cristo Justiceiro. Quanto ao Islão, encontramos na Surata
16 : “E teu Senhor inspirou as abelhas:
«Construí as vossas colmeias nas montanhas, nas arvores e nas habitações» /… Do
abdómen delas sai um líquido variegado de cores que constitui cura para os
homens. Nisto há sinal para os que reflectem.” A abelha, nos textos védicos
da India, representa o espirito que se embriaga com o pólen do conhecimento.
Resumidamente, nesta breve divagação nas espiritualidades, a abelha representa
o espírito versus a materialidade, a geometria (divina) contra a ignorância, a
ordem social contra a desordem.
Passando de
novo ao tema da Bienal, poder-se-á dizer que no princípio é o “pólen” que no
caso do humorista é a notícia, o quotidiano que é colhido pelo obreiro, e se na
abelha esse néctar é processado pelos enzimas digestivos, no cartoonista é
deglutido pelo olhar filosófico do humor, desconstruindo o supérfluo para
regurgitar em ironia, comicidade ou mesmo sátira. Tal como o mel, nem todos os
humores têm a mesma cor, nem todos riem da mesma forma, nem dos mesmos
assuntos, por muito que queiramos impôr a aldeia global para todos os seres, coisas
e pensamentos. Consoante os campos, as florações, os pólens recolhidos e as técnicas
de preparação, há várias colorações, aromas e gostos no mel. O riso, mesmo
universal como a luz divina no reconhecimento das fragilidades humanas, é
encarado ou reage em cada cultura e em cada zona geográfica, em cada campo
educacional de forma diferenciada. O riso, o cómico, o humor, é fruto dos pólens
recolhidos que, consoante os seus tratamentos, pode ter espaço de degustação
num território e não noutro. Claro
que, como o mel que quando é puro, com o tempo tende a cristalizar, já que não
foi sujeito a temperaturas que destroem o seu lado bactericida, também o humor
puro se cristaliza no tempo e, por mais anos que passem, por mais voltas que a
vida dê, está sempre actual, incisivo e actuante.
A abelha é um animal social, símbolo
de trabalho e lealdade, mas também um guerreiro na defesa da comunidade, quando
se sente ameaçada, usando o seu ferrão. Da mesma forma, o humor é uma fórmula
de pensamento doce que nos faz quebrar barreiras de sociabilidade, combater o
pessimismo, diluir as tristezas, construindo equilíbrio social pelo sorriso
filosófico, podendo contudo farpear, quando o político, as intolerâncias, os
abusos do poder colocam a comunidade em perigo.
O ferrão da abelha / humorista está
ligado a um sistema venoso que provoca um efeito alérgico, gravidade que está
dependente do sistema imunológico. No caso da sátira, o padrão de reacção à toxicidade
está concomitante ao grau educacional da vítima, ao nível do
seu sentido de humor, capacidade de autocrítica, surdez, cegueira ou
intolerância mental. Já o filósofo grego Epicetus tinha dito: “Não são os eventos do mundo que são o
problema, mas a nossa forma de olhar para eles”. Tal como a tolerância ou
intolerância, o sentido de humor tem de jorrar de ambas as partes.
Há muitas formas de olhar e de não querer ver e, neste momento em que
vivemos um grave deslocamento de povos, de migrações, em que as necessidades,
por vezes, se misturam com oportunismos, mafias, fundamentalismos, em que a
tolerância joga com outras intolerâncias, a alegoria da abelha é uma das formas
de olhar para esse fenómeno porque também ela, como a humanidade, está num
período de crise grave. Como refere Einstein: “Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas
mais quatro anos de existência, sem abelhas não há polinização (ela é
responsável por 80 a 90% deste fenómeno natural), não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não
haverá raça humana”. O equilíbrio da biodiversidade, tal como do
multiculturismo é fundamental. O que coloca em perigo este ser? As políticas de
pesticidas, a sobrepopulação de apicultura (que recomenda 800 metros entre cada
apiário), que cria guerras entre colmeias e migrações, a doença parasitária Varroose,
a vespa Velutina Nigotorax…. Comparativamente, podemos referir que também as
políticas de opressão destroem a liberdade de expressão humorística, que a
doença parasitária do “politicamente correcto” asfixia a mente filosófica e a
vespa do terrorismo mata a criatividade. A vespa para além de cortar a cabeça
das abelhas, instala-se à porta das colmeias infestando esta com stress, com o medo de saírem à rua e
morrerem de fome…
O mel é um dos alimentos do corpo com maior valor energético, rico em
vitaminas, minerais e bactericida, o que lhe confere alto poder terapêutico (tal
como outros produtos ligados às abelhas), cumplicidade que mantém com o humor. A
“apiterapia” como a “geloterapia”, são medicinas alternativas fundamentais
porque o riso, subproduto do humor, quando “explode” exerce o seu impacto no
sistema muscular, nervoso central, respiratório, cardiovascular, imunológico e
endócrino….
O que separa a abelha do cartoonista? O mel é consumido por todos, sem
observar as religiões, os clubismos, os partidarismos distribuindo a sua
riqueza democraticamente, assim como o seu ferrão é usado apenas quando a
segurança da colmeia é posta em causa. Já a comicidade tem componentes
subjectivas, porque o ser humano é falível, e por muito filósofo que queira ser
no seu humor construtivo, a desconstrução dos factos, que nem sempre são
globais mas parciais, pode induzir a erros, as facciosismos, e isso só se cria
com a verdadeira liberdade de espírito, estando acima das tolerâncias e
intolerâncias, ser superior às ideologias e crenças, ser democrata no sentido
de reconhecer e aceitar as diferenças, assim como obrigar a que reconheçam e
aceitem a sua diferença. Não há melhor critica, filosofia construtiva, ou comicidade
que a que é feita pelo sorriso.
“/…/ O sorriso é o bom
tempo do espírito. As almas que apenas sabem rir e soluçar são almas
que têm apenas Verão e
Inverno. Falta-lhes a Primavera e Outono – que são na verdade,
as duas estações
sorridentes da Natureza”
(LOG in “Fim de Semana” de 15/3/1948)
Por tudo isto podemos dizer “Sigam a Abelha”, a qual, se é um barómetro
do equilíbrio dos sistemas ecológicos, também o humor é o barógrafo de alerta
da sanidade mental da sociedade, do equilíbrio democrático do poder, razão pela
qual ambos têm de ser protegidos para que não sejamos uma humanidade em vias de
extinção.
Sendo portanto o tema desta V Bienal de Humor Luís d’Oliveira Guimarães –
Penela 2016 - “Do Mel ao Ferrão”, convidamos os artistas de todo o mundo a
filosofarem sobre o papel da abelha / mel (e demais derivados) na nossa
sociedade e, paralelamente, o papel do humorista / cartoonista. Não nos podemos
esquecer das alergias que se têm desenvolvido contra o ferrão da sátira /
ironia, o medo da vespa terrorista que tem matado, perseguido e oprimido os
filósofos da liberdade e da actualidade que vive um momento importante no jogo
das tolerâncias e intolerâncias. Não nos esqueçamos que a integração só resulta
quando o outro também se integra, tolerância exige tolerância, intolerância
cria intolerância.
Podendo participar com o máximo de quatro trabalhos, dois devem ser
obrigatoriamente sobre esta temática (ou os quatro), podendo os outros dois
serem retratos-caricaturais de cartoonistas (auto-caricatura ou de mestres do
seu país).
V BIENAL de HUMOR
“LUÍS D’OLIVEIRA GUIMARÃES” - PENELA 2016
Uma
Organização: Câmara Municipal de Penela / Junta de Freguesia do Espinhal
Uma Produção: Humorgrafe - Director Artístico:
Osvaldo Macedo de Sousa (humorgrafe.oms@gmail.com)
1 - Tema: “Do Mel ao Ferrão” - convidamos os artistas de todo o mundo a filosofarem sobre o papel da abelha / mel (e demais
derivados, para alem do seu papel na biodiversidade) na nossa sociedade e
paralelamente o papel do humorista /
cartoonista. Não nos podemos esquecer das alergias que se têm desenvolvido
contra o ferrão da sátira / ironia, o
medo da vespa terrorista que tem matado, perseguido, oprimido os filósofos da
liberdade e da actualidade que vive um momento importante no jogo das tolerâncias e intolerâncias. Não nos
esqueçamos que a integração só resulta quando o outro também se integra, tolerância
exige tolerância, intolerância cria intolerância.
2 - Aberto à
participação de todos os artistas gráficos com humor, profissionais ou
amadores.
3 – Data Limite: 25 de Junho de 2016. Devem
ser enviados para humorgrafe.oms@gmail.com,
humorgrafe@hotmail.com ou humorgrafe_oms@yahoo.com (No caso de
não receberem confirmação de recepção, reenviar de novo SFF).
4 - Cada
artista pode enviar, via e-mail em formato digital (300 dpis formato A4) até
4 trabalhos a preto e branco (uma só cor com todos
os seus matizes – não são aceites
desenhos a 2, 3 ou 4 cores – em que obrigatoriamente dois
devem ser sobre esta temática, podendo os outros dois serem retratos-caricaturais
de cartoonistas - auto-caricatura ou caricatura de mestres do seu país),
aberto a todas as técnicas e estilos como caricatura, cartoon, desenho de
humor, tira, prancha de bd
(história num prancha única)... devendo estes vir acompanhados com
informação do nome, data de nascimento, morada e e-mail.
5 - Os
trabalhos serão julgados por um júri constituído por: representantes da Câmara
Municipal de Penela; representante da Junta de Freguesia do Espinhal;
representante da família Oliveira Guimarães; pelo Director Artístico da Bienal;
um representante dos patrocinadores, um representante de comunicação social local
e um a dois artistas convidados, sendo outorgados os seguintes Prémios:
*
1º Prémio da V BHLOG- 2016 (no valor de € 1.800)
*
2º Prémio da V BHLOG- 2016 (no valor de € 1.300)
*
3º Prémio da V BHLOG- 2016 (no valor de € 800)
*
Prémio Revelação de Humor da V BHLOG- 2016 (no valor de € 250) (para
autores nacionais com menos de 25 anos de idade).
O
Júri, se assim o entender, poderá conceder “Prémios Especiais” António Oliveira
Guimarães, Município de Penela. Junta de Freguesia do Espinhal e Humorgrafe), a
título honorífico, com direito a troféu.
6 -
O Júri outorga-se o direito de fazer uma selecção dos melhores trabalhos para
expôr no espaço disponível e edição de catálogo (o qual será enviado a todos os
artistas com obra reproduzida).
7 –
A Organização informará todos os artistas por e-mail se foram selecionados para
a exposição e catálogo, e quais os artistas premiados. Os trabalhos premiados
com remuneração, ficam automaticamente adquiridos pela Organização. Os
originais dos trabalhos premiados deverão ser entregues à Organização (o
original em trabalhos feitos a computador é um print de alta qualidade em A4,
assinado à mão e numerado 1/1), porque sem essa entrega, o Prémio monetário não
será desbloqueado.
8 -
Os direitos de reprodução são propriedade da Organização, logo que seja para
promoção desta organização, e discutidos pontualmente com os autores, no caso
de outras utilizações.
9 -
Para outras informações contactar o Director Artístico: Osvaldo Macedo de Sousa
(humorgrafe.oms@gmail.com) ou V
Bienal de Humor Luís d’Oliveira Guimarães, Sector de Cultura, Câmara Municipal
de Penela, Praça do Município, 3230-253 Penela - Portugal.
10 -
A V Bienal de Humor Luís d’ Oliveira Guimarães – Penela 2016, realiza-se de 3 a
21 de Setembro no Centro Cultural do Espinhal, podendo contudo ser também
exposta em outros locais a designar.
sexta-feira, 25 de março de 2016
«Uma DISSERTAÇÃO PARIETAL de Arte'Factos Visuais». de Helder Mendes na Soc. Portuguesa de Oftalmologia até ao final do mês
Na Sociedade Portuguesa de Oftalmologia,
em Lisboa, encontra-se patente ao público uma exposição de alguns dos trabalhos
de Helder Mendes, que intitulou «Uma DISSERTAÇÃO PARIETAL de Arte'Factos
Visuais».
Esta exposição pode ser visitada até ao
final do mês de Março, de segunda a sexta-feira, das 10:00 às 12:00 e das 14:00
às 18:00 horas, nas instalações da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia - Largo
do Campo Pequeno, n.º 2 - 13.º (edifício COSEC).
quinta-feira, 24 de março de 2016
Crónica Rosário Breve - Via melros, rumo à Graciete & a Bruxelas por Daniel Abrunheiro
As palavras iniciais da minha crónica
desta semana eram (e continuam a ser) estas aqui: “Há melros pela linha berma-fluvial que todas as manhãs palmilho em
aparato discreto de gajo pastor de palavras, à falta de melhor destino”. A
hora de Bruxelas, todavia, fustigou-me irremediavelmente tal bucolismo afinal
tão lingrinhas quão flúvio-ornitológico.
O terrorismo é a
Noite-sem-(a)Manhã. Duas não-pessoas, convictas de que o seu/delas deus é mais
maiúsculo do que os blasfemos deuses (ou não-deuses) dos outros, decidiram
matar às cegas os cidadãos não-fundamentalistas que se preparavam para o pecado
de ir trabalhar. À hora a que escrevo (11h41m da Terça-Feira-22-III-16),
dezenam-se já os mortos & os feridos, em mais um episódio (não será o
último) de uma guerra córnea & intolerável que é, em si, antítese a mais
crua de Humanidade.
Os meus melros cedo-matinais,
aturdidos pelo espavento genocida da noite-sem-manhã belga, desertaram-me a página,
proscénio de papel em que me vejo ora sozinho à maneira de uma dessas folhas
que, caduco-tombadas à terra, querem ser árvore na mesma como a mãe de ramos.
Ao cabo do trilho ribeirinho, porém, vela ainda, valha-me isso ao menos, a
Graciete Florista. O cesto a seus/dela pés irroram o ar de sílabas cromáticas
que são as violetas a dez tostões, olhos que são os gerânios a doze, sínteses
de neve que são as gardénias (carotas…) a vinte-cinco, humildades vegetais
feitas dálias a dezoito - & papoilas que tingem o ar de vivíssimos beijitos
escarlates pelo que o freguês quiser dar.
(Isto deveria ser sempre assim,
Graciete: sem bélgic’arabismos percutores de pólvora.)
Valho-me, pois, da literatura
possível para afugentar da manhã portuguesa a minha indignação rábica. Ou
(a)rábica. A Graciete vende também xaropes de refresco aquoso: groselha,
capilé, café, lima, canela abaunilhada. Enverga, a Florista, uma blusa de chita
com aquele florão de estampado que antigamente se designava por “de fantasia”. O home’ dela, que é tão Vicente quão fraca gente, sei-o burgesso,
calcanhar-rachado, canastrão, cabotino, impertinente, grosso, acavalgadurado,
jogador & ecuménico-bagaceiro. Mas ela gosta dele e a outro não quer, quem
sou eu, ninguém, Romeiro.
Eu vinha-vos esta matina pelos
melros, juros. São tão bonitos, os caraças dos melros! Carvões vivos, ónixes
alados, atiram-me aquelas bocas-de-ouro como crisóstomos retóricos, finos de
uma esperteza nunca manhosa, sabedores de serem,
eles-mesmos-consigo-de-si-em-si, mestres de pontuação no texto que é o chão.
Melros & Graciete: precisa cá um escritorzeco de beira-rio de mais algum
tesouro? Não precisa. Eu não precisozeco.
No Outono de 2002, estive em
Bruxelas, lá onde se deu o terror de hoje. Exerci o meu francês escolar para
com os meus Belgas: a livreira que me vendeu um belo Saint-Exupéry em seu vol-de-nuit, o porteiro melancólico do
hotel pago pelo grupo parlamentar convidante deste Vosso criado, o
cervejeiro-gato-pingado do célebre & mortuário bar “Le Cercueil” (“O Caixão”) da Rue des Harengs (10-12) & a
hospedeira de hálito mentolado e mamitas perfeitas no avião do feliz regresso
ao pátrio-mátrio Portugal meu & vosso, que era, a hospedeira, redondilha,
perdão!, redondinha como um heptassílabo açucarado.
NB: Já V. disse, em outra crónic’ocasião, que a nossa morte já
começou – lá onde estivemos & aonde não voltaremos. Sei que a minha vida
não voltará a Bruxelas, nessa Bélgica dividida & estranha onde de quando em
vez nascem gigantes tipo Brel & Cortázar. A minha morte irrelevante não se
conta, porém, entre as dezenas de hoje, no aeroporto como no metro. A das
vítimas de hoje carece de remédio hoje.
De remédio & de vindicta
inexorável. O endurecimento repressivo é inevitável. Não é à totó-Trump que
falo. Mas é que a pena-de-morte foi restabelecida: por eles-monstros, não por
nós. Não nos basta ser civilizados: temos de ser civilizantes. Mas atenção: não
iremos lá com espúrios esquerdismos de capitulação: o cancro só extirpação
merece. O terrorismo não é remediável com reformatórios paliativos tipo
bonzinho-guterres-de-calcutá – é com olho da mesma boca & com dente do
mesmo olhar.
Recentemente, perdi a amizade de
alguém que, sentindo-me reticências quanto à beatificação automática de tanto
refugiado só-porque-sim, me vilipendiou de estúpido
para baixo. O lobo com pele-de-ovelha não deixa de cheirar a mijo-de-lobo. E o
lobo não é o melhor amigo do homem-caniche. Perder esse ex-amigo (terrível
justaposição, mas justa) nada me é. Perder estas pessoas da manhã belga – isso
despassara-me de todo os carretos ornitolófilos.
Vou pelos meus melros. Fez-se
entretanto toda de cristal, a manhã deles & minha. Interflúvios eu &
eles, vamos ter com quem? Com a Graciete. Gerânios. Violetas não viole(n)tas, E
uma papoila tingida de groselha via – viva como o sítio onde estamos & a
que voltaremos.
quinta-feira, 17 de março de 2016
terça-feira, 8 de março de 2016
Cartoon Xira inaugura dia 12 de Março no Celeiro da Patriarcal de Vila Franca de Xira
Com obras de António, André Carrilho, Cid, Bandeira, Brito, Cristina Sampaio, Gonçalves, Henrique Monteiro, Maia, Rodrigo de Matos, Vasco Gargalo,
sábado, 5 de março de 2016
De onde vem a palavra = P.O.R.T.U.G.A.L.?
PARA RIR... ou para chorar...
De onde vem a palavra = P.O.R.T.U.G.A.L.?
Após aprofundados estudos de grandes historiadores, descobriu-se agora
o significado da palavra P.O.R.T.U.G.A.L. :
- País Onde Roubar, Tirar, Usurpar, Gamar e Aldrabar, é Legal!
SE CAMÕES FOSSE VIVO ESCREVERIA ASSIM OS LUSÍADAS:
I
As sarnas de barões todos inchados,
Eleitos pela plebe lusitana,
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana,
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram...!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando...!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte...!
III
Falem da crise grega todo o ano...!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram...!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta...?
IV
E vós..., ninfas do Coura onde eu nado,
Por quem sempre senti carinho ardente...!
Não me deixeis agora abandonado,
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente...!
Aqueles que já têm no seu gene,
A besta horrível do poder perene...!
(Luiz Vaz Sem Tostões e mais iões....?)
Após aprofundados estudos de grandes historiadores, descobriu-se agora
o significado da palavra P.O.R.T.U.G.A.L. :
- País Onde Roubar, Tirar, Usurpar, Gamar e Aldrabar, é Legal!
SE CAMÕES FOSSE VIVO ESCREVERIA ASSIM OS LUSÍADAS:
I
As sarnas de barões todos inchados,
Eleitos pela plebe lusitana,
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana,
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram...!
II
E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando...!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte...!
III
Falem da crise grega todo o ano...!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram...!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta...?
IV
E vós..., ninfas do Coura onde eu nado,
Por quem sempre senti carinho ardente...!
Não me deixeis agora abandonado,
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente...!
Aqueles que já têm no seu gene,
A besta horrível do poder perene...!
(Luiz Vaz Sem Tostões e mais iões....?)
terça-feira, 1 de março de 2016
Conferência 1 de março no do ISCTE-IUL, na Unidade Curricular Projectos Culturais de Património – “Será que o Bordalo ia gostar?” por João Alpuim Botelho
O Museu Bordalo
Pinheiro vai ser o tema de uma das sessões do Mestrado de Empreendedorismo e
estudos da Cultura do ISCTE-IUL, na Unidade
Curricular Projectos Culturais de Património do professor José Soares Neves.
"Será que o Bordalo ia gostar?" é a pergunta que nos leva pensar a
programação do Museu no ano do seu centenário.
Entrada livre | 1 de Março | 20.30
Entrada livre | 1 de Março | 20.30
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