quarta-feira, 4 de maio de 2016

O Não-Jornal “ O Macaco” - Um caso de Imprensa Satírica por António Gomes de Almeida


Um jornal de Humor faz-se, em princípio, para ter graça. Se esse objectivo não é conseguido, isto é, se o jornal não tem graça nenhuma, fica a desconfiança de que, provavelmente, aqueles que o fazem não são lá grandes Humoristas – se calhar, são mesmo uns tristes… Conhecem-se vários exemplos, que não interessa mencionar aqui, para não entristecer os leitores… Mas talvez interesse, isso sim, descrever o caso de um jornal de Humor que tinha tudo o que parecia necessário para vir a ter graça, mas perdeu a oportunidade de o comprovar, porque… não passou do Número Zero! Foi, portanto, um não-jornal
Tudo aconteceu a meio do revolucionário ano de 1974, quando se viviam por cá as emoções e as angústias do PREC, o tal Processo Revolucionário Em Curso, que os jovens de hoje não imaginam o que foi – só o conheceram bem aqueles que são agora delicadamente designados pelo respeitoso nome de seniores (naquele tempo, chamavam-se os chatos dos velhos). Os acontecimentos políticos e sociais dessa época deram origem ao aparecimento de uma catadupa de jornais ditos de Humor, quase todos de vida efémera (ver, a propósito, noutro local deste mesmo site do CPI, o texto intitulado “Que é feito dos nossos jornais de Humor?”). Todos eles faleceram de morte natural – mas houve um que se finou, de forma algo original, ainda antes de ter nascido. Chamou-se (ou melhor, iria chamar-se) O Macaco. E esta é a sua breve história.
Tenho de pedir desculpa por narrar estes factos na primeira pessoa, garanto que não é por vaidade, é só porque não encontro melhor forma de explicar o que se passou, ao ser convidado para ser o Director desse jornal. Se calhar porque tivera, anteriormente, algumas experiências, umas com êxito, outras nem por isso, na direcção de publicações de Humor. Dirigira O Mundo Ri, em 1954, e O Picapau, em 1955. Entre 1960 e 1962, tinha dirigido o semanário de humor dos Parodiantes de Lisboa (e este episódio também pode ser lido no site, sob o título “O fenómeno Parada da Paródia”). Depois, entre 1972 e 1974, tinha escrito mais de uma centena de crónicas, sob o título Os Pontos, com o pseudónimo Óscar Pontinho, para a revista Rádio & Televisão, propriedade da Radioprel (empresa intimamente ligada à Sociedade Industrial de Imprensa, sendo esta a proprietária do Diário Popular, e funcionando todas estas entidades no mesmo edifício, na Rua Luz Soriano, no Bairro Alto).
Terá sido por causa desse passado ligado ao Humor (que algumas “pessoas sérias” poderiam talvez considerar pouco recomendável…) que fui convidado para dirigir o projecto de um novo jornal satírico, que viria a ser O Macaco. Bem… viria a ser é força de expressão, porque o projecto, afinal, não passaria disso mesmo: de projecto.
Diário Popular era então um vespertino com grande popularidade e prestígio, tendo como colaboradores alguns dos mais acreditados jornalistas da época.
O convite, muito honroso pela confiança que atribuía à pessoa do convidado, consistia em produzir um jornal de humor, com um aspecto físico pouco usual em publicações deste género: uns imensos 43x30 cm, o mesmo formato do Popular. Seria um semanário, impresso a offset, a cores, com saída à sexta-feira, distribuído pela mesma Sociedade Industrial de Imprensa, e vendido ao preço de 5 escudos. A ideia era a de testar o sistema offset, que seria depois aplicado, se tudo corresse bem, ao próprio Diário Popular.
Aceite o encargo, seguiu-se a instalação da Redacção, sempre na Rua Luz Soriano, e os convites aos futuros colaboradores, na sua maioria já conhecidos por terem pertencido a idênticas equipas anteriores. O entusiasmo era grande, porque os acontecimentos políticos ainda recentes (o 25 de Abril tinha poucos meses) davam-nos a esperança de podermos, finalmente, fazer aquele tipo de Humor que a Censura nos proibira até então. Verdade que havia, além dessa expectativa, também alguma aflição meio escondida: com a liberdade total que nos tinha sido anunciada, seríamos capazes de produzir material humorístico de jeito? Ou os condicionalismos de tantos anos levar-nos-iam, inconscientemente, a manter a prudência auto-censória a que nos tínhamos habituado? Enfim, logo se veria, agora, o essencial era formar a equipa!
OS COLABORADORES
Foi fácil e rápida a constituição do grupo de Humoristas que iriam trabalhar n’O Macaco. Na verdade, a única dificuldade surgiu, um tanto inesperadamente, por razões políticas! Toda a gente andava muito atarefada a inscrever-se nos Partidos políticos que iam surgindo todos os dias, e a resolver qual a bandeirinha ideológica a escolher. Por isso, alguns, que tinham feito parte de equipas anteriores, trabalhando lado a lado em publicações em que só era importante produzir coisas com graça, punham agora dúvidas, perguntando antecipadamente: “Mas… o jornal vai ser o quê? Socialista, comunista, maoista? Vai ser esquerdista, direitista?...” Deu algum trabalho explicar que o jornal deveria ser, principalmente, Humorista… Enfim, lá se constituiu a turma, que ficou formada por um conjunto de redactores de que faria parte Fernando Ávila (que era jornalista no DP, com especial propensão para escrever sobre ciclismo, acompanhando apaixonadamente a Volta a Portugal; era também autor de Teatro de Revista, em parceria com autores de sucesso, como Aníbal Nazaré, Amadeu do Vale, etc.); também o Carlos Miranda, que já colaborara noutros jornais de humor (e, curiosamente, era também muito ligado a reportagens sobre Ciclismo); este viria, mais tarde, a ser Director do jornal A BolaMário-Henrique Leiria, sim, esse mesmo, o surrealista, autor dos Contos do Gin-Tónico, um revolucionário na Política e na Arte, que deixou escrito um inédito “Dicionário Modesto para Famílias de Poucos Haveres” e, ultrapassando o seu estado físico debilitado, trazia uma alegria contagiante à Redacção; Álvaro Magalhães dos Santos, que já colaborara, com rubricas de humor, em vários diários, depois de ter sido descoberto na Parada da Paródia; e ainda mais alguns Humoristas talentosos. A estes se juntava um excelente lote de ilustradores, encabeçado pelo genial João Martins, e contando ainda com o talentoso Zé Manel, mais o José Antunes, o Vitor Milheirão e o Ricardo Reis, todos excelentes e todos “repescados” de aventuras humorísticas anteriores. O departamento gráfico estava entregue a Henrique Tenreiroe a publicidade a António Franco, dos quadros da SII.
PREPARANDO O LANÇAMENTO
Foi acordado que o Diário Popular, na sua qualidade de “patrono” do novo semanário, faria uma campanha de informação, precedendo o lançamento do primeiro número, previsto para Novembro de 1974. E assim aconteceu. Durante vários dias, as páginas do popularíssimo diário vinham salpicadas com anúncios da próxima saída d’O Macaco. Entretanto, iam sendo preparados os originais para os primeiros números – particularmente para um “Número Zero”, que serviria de mostruário dos que viriam a seguir, e que seria oferecido aos leitores, acompanhando uma edição normal do Diário Popular – passando O Macaco, a partir da semana seguinte, a ser vendido separadamente. Assim tinha sido previsto e combinado.
Na véspera, isto é, no dia 28 de Novembro, uma página inteira anunciava: “O Macaco – amanhã é dado!  (Poderá encontrá-lo aqui, incluído como separata de oito páginas do “Diário Popular”, a cores e a preto e branco, impresso em offset, com a sua graça escondida e o rabo de fora…)  P.S. – Apenas por ser um ZERO e amostra sem valor é de borla – os outros números vão ser A PAGAR.”
Na Redacção, vivia-se a expectativa do acolhimento que o público daria ao jornal, quando visse, no dia seguinte, a amostra que tínhamos preparado do seu conteúdo.
UM “MACACO” QUE NÃO CHEGOU A SAIR DO SEU GALHO...
Só que… no dia seguinte, uma minúscula notícia, meio escondida numa página discreta do Diário Popular, informava: “O Macaco – Por motivos de ordem técnica, alheios à nossa vontade, não nos é possível incluir hoje, em separata, e conforme tínhamos anunciado, o número zero do semanário humorístico “O Macaco”. Do facto, apresentamos desculpas aos nossos leitores.”
Ora, na verdade, os “motivos de ordem técnica” não tinham nada de “técnica”, tinham mais a ver com “política”… A efervescência era então muito grande, tanto nas Redacções como nas Oficinas dos jornais de Lisboa, em alguns dos quais, embalados pelas teorias de esquerda assimiladas um tanto à pressa, no calor da Revolução, os trabalhadores gráficos pretendiam sobrepor-se aos jornalistas, mesmo no que se referia ao conteúdo dos textos. E o mesmo quanto às opções editoriais – o que incluía iniciativas como a da criação de um novo título.
Foi assim que uma delegação do pessoal gráfico veio informar-nos de que resolvera, à última hora, na sequência de um plenário, impedir a saída d’O Macaco. E esclareceram mesmo, um pouco embaraçados: “Não é nada contra vocês, até respeitamos o vosso trabalho… É contra a Administração, que temos suspeitas de andar a preparar algumas manobras contra os trabalhadores!”…
Tais “manobras” nunca chegaram a ser concretizadas...
Mas foi assim que o Número Zero d’O Macaco, já impresso, com a apresentação do conteúdo e do estilo que pretendíamos dar ao jornal, e uma amostra dos talentos dos seus vários colaboradores, não chegou às mãos dos leitores, e acabou ingloriamente guilhotinado nas oficinas, e despejado no contentor do papel sem uso…

Com alguma dificuldade, salvaram-se dois exemplares, cuidadosamente conservados, como peças raras que são, e como testemunhos de um “hebdomacaco com macaquinhos no sótão”, como se lia no cabeçalho – um projecto de semanário de humor, um “não-jornal” que, devido a circunstâncias muito peculiares, acabou antes de começar e, por isso, não chegou a ter, afinal, graça nenhuma!...

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Humor de Henricartoon


Crónica Rosário Breve - Eu, rico por Daniel Abrunheiro

Não.
Mas sim.
José Niza.
Luís Eugénio Ferreira.
Eurico Heitor Consciência, agora.
Mas sim é que não: não negarei ao doutor Consciência um obituário ao mesmo tempo triste & feliz.
Triste – pelo lado do sacolejão brusco, da violência estapafúrdia, do escândalo insensato que todo o falecimento de alguém tão merecedor de honra, estima, consideração & elogio nunca deixa de causar. Mas feliz também, senhor.
Feliz – pelo lado de absoluta bonomia que a sua desempoeirada figura, a sua figura alta, egrégia sem favor, ínclita até, esparrinhou por todos (nós) quantos, ou conhecendo-o em pessoa, ou dele beneficiando a profissão, ou a ele-cronista lendo em duas colunas de página-cinco, tiveram a muito (tanta!) boa-sorte de contemporanizar.
Respirámos no mesmo metro-quadrado uma vez única. Foi por uma gala do nosso comum O Ribatejo. Saudei-o como quem sobe. Ele recumprimentou-me como se não descesse. Trocámos mimos. Não trocámos números telefónicos. Isso passou – como tudo passa.
Posso finalmente escrevedizê-lo em voz-alta, agora que ele me não pode ouvi(le)r: foi sempre pela coluna de Eurico, O Não-Presbítero, que comecei a leitura do meu/Vosso Jornal. Mais: fi-lo sempre porque as palavras dele nunca me faziam rir – sorrir sim, sempre, ah isso sim! Ainda esta semana já para sempre pretérita: a mordedura irónica do seu incisivo de propósito mal escondido, sabes tu, Leitor? Aquele sarcasmo nunca humilhante, aquele escárnio nunca gozão, aquele maldizer tão bem dito sempre: e aquela elegância completamente cavalheiresca, de homem antigo que não sabe ser velho, ai!, aquela compostura toda democrática que ele português, num Português forrado de quanto Latim, jurídico ou não, fosse preciso ou não fosse, lembra-te tu, pá, Leitor dele merecido que meu quero merecer – e tudo sempre, mas sempre, para Todos, todos quanto fossem, quantos viessem todos.
Meti-me uma vez com ele. Fi-lo sorrir. Eu sabia que sim, que ele sorriria. Sorriu. Que um advogado com Consciência era abrantino fenómeno só aos fenómenos do Entroncamento cotejável. Ele encaixou sem esgar nem esforço a minha boutade, que simpatia sinalética era. Respondeu-me na crónica seguinte com Abrunhos etc. e tal. Foi das maiores honras da minha vida. Eu era lido. Por ele. Ele respondia ao que eu fingira perguntar.
O doutor Eurico Heitor Consciência viveu acordado a vida toda, 79 anos dela. Espero hoje e aqui, tão-só, que a morte no-lo tenha roubado dormindo.
Dormindo e sorrindo, que é o que precisamente estou a fazer para não desatar a chorar, José Niza. Perdão, para não desatar a chorar, Luís Eugénio. O senhor sabe, doutor Eurico. Não finja que não sabe (fazer) sorrir.

Até para a semana.

segunda-feira, 11 de abril de 2016

V BIENAL DE HUMOR LUÍZ D’OLIVEIRA GUIMARÃES – PENELA 2016 “DO MEL AO FERRÃO”

V BIENAL DE HUMOR LUÍZ D’OLIVEIRA GUIMARÃES – PENELA 2016
“DO MEL AO FERRÃO”

Por: Osvaldo Macedo de Sousa

“O humorismo representa a mais sã de todas as filosofias, que é a dos que sabem rir.
O humorista comentando através da sua ironia os homens e os factos que gravitam á sua volta,
produz, quando o faz com o espirito superior e critério conceituoso, uma profunda obra moral.
Por isso mesmo a alegria dos humoristas nem sempre deixa de ser ilusória.
Quantas vezes a pequena máscara cor-de-rosa que eles ostentam sobre a face,
esconde uma lágrima pungente! A ironia que se desprende da sua “verve” sagaz encobre,
de certo modo, o drama que o mundo oferece dia-a-dia. Ao seu comentário flagrante.”
(LOG. In “Entre nós que ninguém nos ouve” pág. 68)

O que une a abelha e o cartoonista, o espírito do mel ou a sátira do ferrão?
Como em tudo na vida, depende da perspetiva de cada um e, se a verdade nunca está de um lado nem no do outro, e muito menos no centro mas na essência dos seres, das coisas, das relações, as minhas deambulações metafóricas por este tema não passam de muletas, divagações do pensamento, portas para cada um seguir o seu caminho de reflexão humorística no tópico selecionado para esta Bienal, concordando ou discordando totalmente do que está escrito.
A abelha, ou a apicultura, com a exploração de todos os derivados inerentes à actividade deste insecto, está ligada ao Homem, desde que este tomou consciência do seu espírito, energia essa que também lhe abriu a mente para conseguir olhar o mundo afora das aparências, consciencializar-se para além do espelho, pensar ademais da neblina das palavras e das perspectivas.
Graficamente encontramos as suas primeiras representações por volta de 7.000 a.C., em pinturas rupestres de Araña – Valência. No Antigo Egipto (a partir de 3.200 a.C.) está associada à realeza faraónica, agregadora numa única colmeia – federação de todas as regiões do Egipto: o verdadeiro título do Faraó era NyswBit, onde Bit significa Abelha e é o símbolo do baixo Egipto. Segundo a sua mitologia, Bit foi gerada das lágrimas de Rá (o deus-sol) ao caírem sobre a terra, impondo-se como um ser de múltiplas riquezas e características terapêuticas, ao mesmo tempo que assume a iconografia da alma Divina do ser humano.
Esta ligação espiritual surge em quase todas as culturas da antiguidade, representando, muitas das vezes, a crença da sobrevivência além-morte, da ressurreição / reencarnação. Esta ilação ao caminho da evolução da alma leva a que tenha sido associada a cerimónias iniciáticas, em que o Espírito / Palavra (em hebraico “abelha” escreve-se “Dbure”, cuja raiz Dbr significa verbo / palavra) se purifica pelo fogo, se nutre com o mel (o hidromel é a bebida dos deuses) e que destrói as impurezas / obstáculos com o seu ferrão.
Também o cristianismo absorveu este universo alegórico em que Jesus assume a imagem da abelha e o mel é a doçura da sua palavra / pensamento como alimento das almas e o ferrão o papel de Cristo Justiceiro. Quanto ao Islão, encontramos na Surata 16 : “E teu Senhor inspirou as abelhas: «Construí as vossas colmeias nas montanhas, nas arvores e nas habitações» /… Do abdómen delas sai um líquido variegado de cores que constitui cura para os homens. Nisto há sinal para os que reflectem.” A abelha, nos textos védicos da India, representa o espirito que se embriaga com o pólen do conhecimento. Resumidamente, nesta breve divagação nas espiritualidades, a abelha representa o espírito versus a materialidade, a geometria (divina) contra a ignorância, a ordem social contra a desordem.
Passando de novo ao tema da Bienal, poder-se-á dizer que no princípio é o “pólen” que no caso do humorista é a notícia, o quotidiano que é colhido pelo obreiro, e se na abelha esse néctar é processado pelos enzimas digestivos, no cartoonista é deglutido pelo olhar filosófico do humor, desconstruindo o supérfluo para regurgitar em ironia, comicidade ou mesmo sátira. Tal como o mel, nem todos os humores têm a mesma cor, nem todos riem da mesma forma, nem dos mesmos assuntos, por muito que queiramos impôr a aldeia global para todos os seres, coisas e pensamentos. Consoante os campos, as florações, os pólens recolhidos e as técnicas de preparação, há várias colorações, aromas e gostos no mel. O riso, mesmo universal como a luz divina no reconhecimento das fragilidades humanas, é encarado ou reage em cada cultura e em cada zona geográfica, em cada campo educacional de forma diferenciada. O riso, o cómico, o humor, é fruto dos pólens recolhidos que, consoante os seus tratamentos, pode ter espaço de degustação num território e não noutro. Claro que, como o mel que quando é puro, com o tempo tende a cristalizar, já que não foi sujeito a temperaturas que destroem o seu lado bactericida, também o humor puro se cristaliza no tempo e, por mais anos que passem, por mais voltas que a vida dê, está sempre actual, incisivo e actuante.
A abelha é um animal social, símbolo de trabalho e lealdade, mas também um guerreiro na defesa da comunidade, quando se sente ameaçada, usando o seu ferrão. Da mesma forma, o humor é uma fórmula de pensamento doce que nos faz quebrar barreiras de sociabilidade, combater o pessimismo, diluir as tristezas, construindo equilíbrio social pelo sorriso filosófico, podendo contudo farpear, quando o político, as intolerâncias, os abusos do poder colocam a comunidade em perigo.
O ferrão da abelha / humorista está ligado a um sistema venoso que provoca um efeito alérgico, gravidade que está dependente do sistema imunológico. No caso da sátira, o padrão de reacção à toxicidade está concomitante ao grau educacional da vítima, ao nível do seu sentido de humor, capacidade de autocrítica, surdez, cegueira ou intolerância mental. Já o filósofo grego Epicetus tinha dito: “Não são os eventos do mundo que são o problema, mas a nossa forma de olhar para eles”. Tal como a tolerância ou intolerância, o sentido de humor tem de jorrar de ambas as partes.
Há muitas formas de olhar e de não querer ver e, neste momento em que vivemos um grave deslocamento de povos, de migrações, em que as necessidades, por vezes, se misturam com oportunismos, mafias, fundamentalismos, em que a tolerância joga com outras intolerâncias, a alegoria da abelha é uma das formas de olhar para esse fenómeno porque também ela, como a humanidade, está num período de crise grave. Como refere Einstein: “Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência, sem abelhas não há polinização (ela é responsável por 80 a 90% deste fenómeno natural), não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não haverá raça humana”. O equilíbrio da biodiversidade, tal como do multiculturismo é fundamental. O que coloca em perigo este ser? As políticas de pesticidas, a sobrepopulação de apicultura (que recomenda 800 metros entre cada apiário), que cria guerras entre colmeias e migrações, a doença parasitária Varroose, a vespa Velutina Nigotorax…. Comparativamente, podemos referir que também as políticas de opressão destroem a liberdade de expressão humorística, que a doença parasitária do “politicamente correcto” asfixia a mente filosófica e a vespa do terrorismo mata a criatividade. A vespa para além de cortar a cabeça das abelhas, instala-se à porta das colmeias infestando esta com stress, com o medo de saírem à rua e morrerem de fome…
O mel é um dos alimentos do corpo com maior valor energético, rico em vitaminas, minerais e bactericida, o que lhe confere alto poder terapêutico (tal como outros produtos ligados às abelhas), cumplicidade que mantém com o humor. A “apiterapia” como a “geloterapia”, são medicinas alternativas fundamentais porque o riso, subproduto do humor, quando “explode” exerce o seu impacto no sistema muscular, nervoso central, respiratório, cardiovascular, imunológico e endócrino….
O que separa a abelha do cartoonista? O mel é consumido por todos, sem observar as religiões, os clubismos, os partidarismos distribuindo a sua riqueza democraticamente, assim como o seu ferrão é usado apenas quando a segurança da colmeia é posta em causa. Já a comicidade tem componentes subjectivas, porque o ser humano é falível, e por muito filósofo que queira ser no seu humor construtivo, a desconstrução dos factos, que nem sempre são globais mas parciais, pode induzir a erros, as facciosismos, e isso só se cria com a verdadeira liberdade de espírito, estando acima das tolerâncias e intolerâncias, ser superior às ideologias e crenças, ser democrata no sentido de reconhecer e aceitar as diferenças, assim como obrigar a que reconheçam e aceitem a sua diferença. Não há melhor critica, filosofia construtiva, ou comicidade que a que é feita pelo sorriso.

“/…/ O sorriso é o bom tempo do espírito. As almas que apenas sabem rir e soluçar são almas
que têm apenas Verão e Inverno. Falta-lhes a Primavera e Outono – que são na verdade,
as duas estações sorridentes da Natureza”
(LOG in “Fim de Semana” de 15/3/1948)

Por tudo isto podemos dizer “Sigam a Abelha”, a qual, se é um barómetro do equilíbrio dos sistemas ecológicos, também o humor é o barógrafo de alerta da sanidade mental da sociedade, do equilíbrio democrático do poder, razão pela qual ambos têm de ser protegidos para que não sejamos uma humanidade em vias de extinção.
Sendo portanto o tema desta V Bienal de Humor Luís d’Oliveira Guimarães – Penela 2016 - “Do Mel ao Ferrão”, convidamos os artistas de todo o mundo a filosofarem sobre o papel da abelha / mel (e demais derivados) na nossa sociedade e, paralelamente, o papel do humorista / cartoonista. Não nos podemos esquecer das alergias que se têm desenvolvido contra o ferrão da sátira / ironia, o medo da vespa terrorista que tem matado, perseguido e oprimido os filósofos da liberdade e da actualidade que vive um momento importante no jogo das tolerâncias e intolerâncias. Não nos esqueçamos que a integração só resulta quando o outro também se integra, tolerância exige tolerância, intolerância cria intolerância.
Podendo participar com o máximo de quatro trabalhos, dois devem ser obrigatoriamente sobre esta temática (ou os quatro), podendo os outros dois serem retratos-caricaturais de cartoonistas (auto-caricatura ou de mestres do seu país).

V BIENAL de HUMOR “LUÍS D’OLIVEIRA GUIMARÃES” - PENELA 2016

Uma Organização: Câmara Municipal de Penela / Junta de Freguesia do Espinhal
Uma Produção: Humorgrafe - Director Artístico: Osvaldo Macedo de Sousa (humorgrafe.oms@gmail.com)
1 - Tema: “Do Mel ao Ferrão” - convidamos os artistas de todo o mundo a filosofarem sobre o papel da abelha / mel (e demais derivados, para alem do seu papel na biodiversidade) na nossa sociedade e paralelamente o papel do humorista / cartoonista. Não nos podemos esquecer das alergias que se têm desenvolvido contra o ferrão da sátira / ironia, o medo da vespa terrorista que tem matado, perseguido, oprimido os filósofos da liberdade e da actualidade que vive um momento importante no jogo das tolerâncias e intolerâncias. Não nos esqueçamos que a integração só resulta quando o outro também se integra, tolerância exige tolerância, intolerância cria intolerância.
2 - Aberto à participação de todos os artistas gráficos com humor, profissionais ou amadores.
3 – Data Limite: 25 de Junho de 2016. Devem ser enviados para humorgrafe.oms@gmail.com, humorgrafe@hotmail.com ou humorgrafe_oms@yahoo.com (No caso de não receberem confirmação de recepção, reenviar de novo SFF).
4 - Cada artista pode enviar, via e-mail em formato digital (300 dpis formato A4) até 4 trabalhos a preto e branco (uma só cor com todos os seus matizes – não são aceites desenhos a 2, 3 ou 4 cores – em que obrigatoriamente dois devem ser sobre esta temática, podendo os outros dois serem retratos-caricaturais de cartoonistas - auto-caricatura ou caricatura de mestres do seu país), aberto a todas as técnicas e estilos como caricatura, cartoon, desenho de humor, tira, prancha de bd (história num prancha única)... devendo estes vir acompanhados com informação do nome, data de nascimento, morada e e-mail.
5 - Os trabalhos serão julgados por um júri constituído por: representantes da Câmara Municipal de Penela; representante da Junta de Freguesia do Espinhal; representante da família Oliveira Guimarães; pelo Director Artístico da Bienal; um representante dos patrocinadores, um representante de comunicação social local e um a dois artistas convidados, sendo outorgados os seguintes Prémios:
* 1º Prémio da V BHLOG- 2016 (no valor de € 1.800)
* 2º Prémio da V BHLOG- 2016 (no valor de € 1.300)
* 3º Prémio da V BHLOG- 2016 (no valor de € 800)
* Prémio Revelação de Humor da V BHLOG- 2016 (no valor de € 250) (para autores nacionais com menos de 25 anos de idade).
O Júri, se assim o entender, poderá conceder “Prémios Especiais” António Oliveira Guimarães, Município de Penela. Junta de Freguesia do Espinhal e Humorgrafe), a título honorífico, com direito a troféu.
6 - O Júri outorga-se o direito de fazer uma selecção dos melhores trabalhos para expôr no espaço disponível e edição de catálogo (o qual será enviado a todos os artistas com obra reproduzida).
7 – A Organização informará todos os artistas por e-mail se foram selecionados para a exposição e catálogo, e quais os artistas premiados. Os trabalhos premiados com remuneração, ficam automaticamente adquiridos pela Organização. Os originais dos trabalhos premiados deverão ser entregues à Organização (o original em trabalhos feitos a computador é um print de alta qualidade em A4, assinado à mão e numerado 1/1), porque sem essa entrega, o Prémio monetário não será desbloqueado.
8 - Os direitos de reprodução são propriedade da Organização, logo que seja para promoção desta organização, e discutidos pontualmente com os autores, no caso de outras utilizações.
9 - Para outras informações contactar o Director Artístico: Osvaldo Macedo de Sousa (humorgrafe.oms@gmail.com) ou V Bienal de Humor Luís d’Oliveira Guimarães, Sector de Cultura, Câmara Municipal de Penela, Praça do Município, 3230-253 Penela - Portugal.


10 - A V Bienal de Humor Luís d’ Oliveira Guimarães – Penela 2016, realiza-se de 3 a 21 de Setembro no Centro Cultural do Espinhal, podendo contudo ser também exposta em outros locais a designar.

sexta-feira, 25 de março de 2016

«Uma DISSERTAÇÃO PARIETAL de Arte'Factos Visuais». de Helder Mendes na Soc. Portuguesa de Oftalmologia até ao final do mês

Na Sociedade Portuguesa de Oftalmologia, em Lisboa, encontra-se patente ao público uma exposição de alguns dos trabalhos de Helder Mendes, que intitulou «Uma DISSERTAÇÃO PARIETAL de Arte'Factos Visuais».
Esta exposição pode ser visitada até ao final do mês de Março, de segunda a sexta-feira, das 10:00 às 12:00 e das 14:00 às 18:00 horas, nas instalações da Sociedade Portuguesa de Oftalmologia - Largo do Campo Pequeno, n.º 2 - 13.º (edifício COSEC). 

quinta-feira, 24 de março de 2016

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXXII - AmadoraCARTOON 2014 (António, Yuriy Pogorelov, Xaquin Marin)


Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXXI - AmadoraBD 2014


Crónica Rosário Breve - Via melros, rumo à Graciete & a Bruxelas por Daniel Abrunheiro

As palavras iniciais da minha crónica desta semana eram (e continuam a ser) estas aqui: “Há melros pela linha berma-fluvial que todas as manhãs palmilho em aparato discreto de gajo pastor de palavras, à falta de melhor destino”. A hora de Bruxelas, todavia, fustigou-me irremediavelmente tal bucolismo afinal tão lingrinhas quão flúvio-ornitológico.
O terrorismo é a Noite-sem-(a)Manhã. Duas não-pessoas, convictas de que o seu/delas deus é mais maiúsculo do que os blasfemos deuses (ou não-deuses) dos outros, decidiram matar às cegas os cidadãos não-fundamentalistas que se preparavam para o pecado de ir trabalhar. À hora a que escrevo (11h41m da Terça-Feira-22-III-16), dezenam-se já os mortos & os feridos, em mais um episódio (não será o último) de uma guerra córnea & intolerável que é, em si, antítese a mais crua de Humanidade.
Os meus melros cedo-matinais, aturdidos pelo espavento genocida da noite-sem-manhã belga, desertaram-me a página, proscénio de papel em que me vejo ora sozinho à maneira de uma dessas folhas que, caduco-tombadas à terra, querem ser árvore na mesma como a mãe de ramos. Ao cabo do trilho ribeirinho, porém, vela ainda, valha-me isso ao menos, a Graciete Florista. O cesto a seus/dela pés irroram o ar de sílabas cromáticas que são as violetas a dez tostões, olhos que são os gerânios a doze, sínteses de neve que são as gardénias (carotas…) a vinte-cinco, humildades vegetais feitas dálias a dezoito - & papoilas que tingem o ar de vivíssimos beijitos escarlates pelo que o freguês quiser dar.
(Isto deveria ser sempre assim, Graciete: sem bélgic’arabismos percutores de pólvora.)
Valho-me, pois, da literatura possível para afugentar da manhã portuguesa a minha indignação rábica. Ou (a)rábica. A Graciete vende também xaropes de refresco aquoso: groselha, capilé, café, lima, canela abaunilhada. Enverga, a Florista, uma blusa de chita com aquele florão de estampado que antigamente se designava por “de fantasia”. O home’ dela, que é tão Vicente quão fraca gente, sei-o burgesso, calcanhar-rachado, canastrão, cabotino, impertinente, grosso, acavalgadurado, jogador & ecuménico-bagaceiro. Mas ela gosta dele e a outro não quer, quem sou eu, ninguém, Romeiro.
Eu vinha-vos esta matina pelos melros, juros. São tão bonitos, os caraças dos melros! Carvões vivos, ónixes alados, atiram-me aquelas bocas-de-ouro como crisóstomos retóricos, finos de uma esperteza nunca manhosa, sabedores de serem, eles-mesmos-consigo-de-si-em-si, mestres de pontuação no texto que é o chão. Melros & Graciete: precisa cá um escritorzeco de beira-rio de mais algum tesouro? Não precisa. Eu não precisozeco.
No Outono de 2002, estive em Bruxelas, lá onde se deu o terror de hoje. Exerci o meu francês escolar para com os meus Belgas: a livreira que me vendeu um belo Saint-Exupéry em seu vol-de-nuit, o porteiro melancólico do hotel pago pelo grupo parlamentar convidante deste Vosso criado, o cervejeiro-gato-pingado do célebre & mortuário bar “Le Cercueil” (“O Caixão”) da Rue des Harengs (10-12) & a hospedeira de hálito mentolado e mamitas perfeitas no avião do feliz regresso ao pátrio-mátrio Portugal meu & vosso, que era, a hospedeira, redondilha, perdão!, redondinha como um heptassílabo açucarado.
NB: Já V. disse, em outra crónic’ocasião, que a nossa morte já começou – lá onde estivemos & aonde não voltaremos. Sei que a minha vida não voltará a Bruxelas, nessa Bélgica dividida & estranha onde de quando em vez nascem gigantes tipo Brel & Cortázar. A minha morte irrelevante não se conta, porém, entre as dezenas de hoje, no aeroporto como no metro. A das vítimas de hoje carece de remédio hoje.
De remédio & de vindicta inexorável. O endurecimento repressivo é inevitável. Não é à totó-Trump que falo. Mas é que a pena-de-morte foi restabelecida: por eles-monstros, não por nós. Não nos basta ser civilizados: temos de ser civilizantes. Mas atenção: não iremos lá com espúrios esquerdismos de capitulação: o cancro só extirpação merece. O terrorismo não é remediável com reformatórios paliativos tipo bonzinho-guterres-de-calcutá – é com olho da mesma boca & com dente do mesmo olhar.
Recentemente, perdi a amizade de alguém que, sentindo-me reticências quanto à beatificação automática de tanto refugiado só-porque-sim, me vilipendiou de estúpido para baixo. O lobo com pele-de-ovelha não deixa de cheirar a mijo-de-lobo. E o lobo não é o melhor amigo do homem-caniche. Perder esse ex-amigo (terrível justaposição, mas justa) nada me é. Perder estas pessoas da manhã belga – isso despassara-me de todo os carretos ornitolófilos.

Vou pelos meus melros. Fez-se entretanto toda de cristal, a manhã deles & minha. Interflúvios eu & eles, vamos ter com quem? Com a Graciete. Gerânios. Violetas não viole(n)tas, E uma papoila tingida de groselha via – viva como o sítio onde estamos & a que voltaremos.

terça-feira, 8 de março de 2016

Cartoon Xira inaugura dia 12 de Março no Celeiro da Patriarcal de Vila Franca de Xira

Com obras de António, André Carrilho, Cid, Bandeira, Brito, Cristina Sampaio, Gonçalves, Henrique Monteiro, Maia, Rodrigo de Matos, Vasco Gargalo, 

sábado, 5 de março de 2016

Novo prolongamento da exposição Luis Filipe e a Farsa da Vida no Museu Bordalo Pinheiro até 27 de Março


De onde vem a palavra = P.O.R.T.U.G.A.L.?

PARA  RIR... ou para chorar...


De onde vem a palavra = P.O.R.T.U.G.A.L.?

Após aprofundados estudos de grandes historiadores, descobriu-se agora
o significado da palavra P.O.R.T.U.G.A.L. :
 - País Onde Roubar, Tirar, Usurpar, Gamar e Aldrabar, é Legal!

SE CAMÕES FOSSE VIVO ESCREVERIA ASSIM OS LUSÍADAS:

I

As sarnas de barões todos inchados,
Eleitos pela plebe lusitana,
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana,
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram...!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando...!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte...!

III

Falem da crise grega todo o ano...!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram...!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta...?

IV

E vós..., ninfas do Coura onde eu nado,
Por quem sempre senti carinho ardente...!
Não me deixeis agora abandonado,
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente...!
Aqueles que já têm no seu gene,
A besta horrível do poder perene...!


(Luiz Vaz Sem Tostões e mais iões....?)

terça-feira, 1 de março de 2016

Conferência 1 de março no do ISCTE-IUL, na Unidade Curricular Projectos Culturais de Património – “Será que o Bordalo ia gostar?” por João Alpuim Botelho




O Museu Bordalo Pinheiro vai ser o tema de uma das sessões do Mestrado de Empreendedorismo e estudos da Cultura do ISCTE-IUL, na Unidade Curricular Projectos Culturais de Património do professor José Soares Neves. "Será que o Bordalo ia gostar?" é a pergunta que nos leva pensar a programação do Museu no ano do seu centenário.

Entrada livre | 1 de Março | 20.30

sábado, 27 de fevereiro de 2016

O Arquitecto e Cartoonista António Ferreira dos Santos (F´Santos) faleceu a 24 de Fevereiro de 2016

O Arquitecto e Cartoonista António Ferreira dos Santos (F´Santos) faleceu a 24 de Fevereiro de 2016 após prolongada doença cancerígena. Natural de Cucujães – Oliveira de Azemeis (30/8/1948) licenciou-se em Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes do Porto e exerceu actividade como arquitecto (urbanístico) na Câmara Municipal do Porto. Desde sempre se dedicou ao desenho de humor e seus primeiros trabalhos publicados na imprensa surgem em 1971 em “A Voz Portucalense”. Em 1988 começou uma colaboração regular no semanário “O Regional” de S. João da Madeira que se prolongou por décadas. Tem também trabalhos publicados na revista “A Razão” e nos jornais “O Jogo”, “O Público”, “Diário de Notícias”, “Jornal de Notícias”, “Comércio do Porto”, “O Inimigo”, “Terras da Beiras”, “Trevim – Supl. Bronkit”…
Realizou exposições individuais, no âmbito do desenho e da pintura no Porto, Ovar, S.J. Madeira, Rio Tinto, Matosinhos, Coimbra e Lisboa.
Participou em diversos Salões Internacionais de Humor no estrangeiro (Croácia, Rússia, Eslováquia, Espanha, França, Itália, Reino Unido, Turquia e Japão… onde foi galardoado em 1998 com um 3º Prémio no “V Certame Internacional de Tenerife – Canárias Espanha”), assim como em Portugal (Vila Real, Porto de Mós, Oeiras, Porto, Idanha-a-Nova, Coimbra, Penela e Espinho…) tendo sido premiados em 1989 no Salão nacional de Caricatura – Porto de Mós com o Troféu Humor e o Ambiente; em 1996 com o Prémio Nacional BD de Imprensa, no X Salão Nacional de Caricatura – Salão nacional de Imprensa – Oeiras e em 2000 com uma Menção Honrosa no I Salão de Humor de Aveiro. No âmbito da V Mostra de Humor Gráfico de Alcalá de Henares foi distinguido com o título de Professor Honorífico del Humor da Universidade de Alcalá de Henares – Madrid em 1998.
Participou em centenas de Festas da Caricatura organizadas pela Humorgrafe e não só, por todo o país e em Espanha (Ourense, Madrid…) assim como realizava caricaturas para Livros de Curso e em eventos de empresas de caricaturas ao vivo.
Ferro Rodrigues
Bibliografia: para além dos catálogos de Salões, ou exposições temáticas organizadas pela Humorgrafe (Rock in Caricatura, Vozes Líricas do séc. XX, Esse ser… Comediante, Humor e Saúde, “Caricaturistas por Timor, “Paródia & Pastiche, A Censura na Iconografia e na Caricatura Portuguesa, Humor d’Arquitecte, Comunicar com Humor, 150 Anos da Caricatura em Portugal, A Luta dos Trabalhadores (pelo humor), Tolerâncias e Intolerâncias da Humanidade, Humores ao Fado e á Guitarra, Humor Negro, O Bobo… ) publicou três coleções de postais – “Urbanovisões”, “Mupivisões” e Mijopostaise; em 2000 publica o livro de cartoons “O Dedo na f’rida”, em 2002 “Errare Urbanum Est”, em 2007 Cartoonices” e em 2013 “Kito”
Nos últimos anos, afastado da imprensa, com o pseudónimo de António Sabão cultivou vários blogs como cartoonisces, Saboonices http://cartoonicesasequela.blogspot.pt/, http://antoniosabaokito.blogspot.pt/ , http://toonnices.blogspot.pt/ http://caricartono.blogspot.pt/ , http://antoniosabaopintor.blogspot.pt/

Para o seu livro “Dedo na F’rida”escrevi este prefácio – Reconsiderações à volta de um cartoonista.
Ao longo dos anos tenho aprendido que nem todfos olham a vida da mesma maneira. Existem os cegos, os míopes, os astigmáticos… e os humoristas. Contrariamente a todos os outros que por defeito físico são optimistas e procuram adaptar-se da melhor forma à vida, a melhor forma de corrigirem o que vêem, os humoristas / caricaturistas são essencialmente “pessimistas” reconstrutivos.
No caso de F’Santos pode faze-lo por duas vias distintas, seja pela circunvalação, seja pela cintura interna, acabando no Cerco à sociedade, que neste caso concreto é o Cerco do Porto. Quero eu dizer que o caricaturista é pessimista porque olha sempre com comiseração para os outros. Olha com compaixão para todos aqueles que necessitam de pessimistas como interlocutores, para verem a realidade de uma forma irónica, satírica ou humorística. Para desvendarem a realidade nua e crua. /…/ António Augusto Ferreira dos Santos é um desses pessimistas que nasceu com o olhar “deformado” e que, desde novo, assumiu a missão de missionário da verdade irónica. Com a idade, ele tentou comprar esses óculos que se vendem nas farmácias, ditos milagreiros, mas nem assim deixou de ver o mundo deformado no grotesco do dia a dia.
/…/ Ferreira dos santos é um cultor de amizades, é um artista do belo pelo exagero. Um activista da estética sempre pronto a colaborar, a apoiar com a sua arte todas as causas nobres, a lutar pelo dignidade de um género estético, por vezes tão denegrido e incompreendido. /…/ A sorrir e por vezes a chorar com raiva, denuncia os atropelos dos humanos, desmascara as incongruências dos que para subirem no grau da animalidade social, para ganharem mais uns tostões não se importam de pisar os vizinhos. Contudo, no seu traço há sempre um matizado na agressividade, onde as aguadas, as cores subtis, dão um condão de leveza, de ironia. Ou seja, o seu humor é temperado pela cor.
Acima de tudo não nos podemos esquecer da sua formação de arquitecto, já que esse elemento é uma presença constante, seja como fundo cénico da ideia humorística, seja nas suas preocupações ambientais e estético-arquitectónicas, procurando denunciar, como poucos em Portugal, algumas atrocidades que ele vai encalhando pela via da vida. Ele é, pois, um grande observador, um pessimista que sabe viver com humor e sabedoria.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Rosário Breve - Roma 0 – Cristo 1 por Daniel Abrunheiro

Não se vê uma nuvem. Manhã perfeita. Sem uma gelha. Sem um ponto-persa. Revérberos coriscam no dorso do rio. É muito bom ter, da noite, renascido meridional, atenta a graça da jornada novel. Ao arrepio de antanhos recentes, a luz é de uma pureza riscável à unha. Bêbedas de viço, as aves matinais tripulam os veios azuis, as ramas verdes, o espaço branco, o ouro impagável da totalidade natural. Respirar é uma conspiração de açúcar. Não há por aqui sevandijas, sicários, bandoleiros &/ou corsários. Há gente (não muita) que se desestarrece ao sol franco, pintalgada de joalharias coloridas. Uma dama, que vinha a seu chá-meia-torrada, comete a ontem impensável extravagância da imperial-com-tremoços-mas-é. Um cavalheiro, tido por sisudo, mete-se a graçolar com cada bebé-de-colo que lhe passe ao alcance das unhas aparadas. Fiapo de eternidade, o instante vale um coalho de cal na colina-esmeralda. Não são vaidade, hoje, as lentes-fumadas de marca tornando de mochos cegos os rostos humanos. Não são (tão) frívolas, hoje, as poses do tipo perfil-egípcio com que os leitores do Expresso alardeiam aquela cultura-post-moderna-de-saco que nunca entenderam nem vão entender. Mesmo hoje. Mas adiante. O Sábado, coleante jibóia inócua, vive & deixa viver em uma paz inocente de barbáries. A duas mesas desta sobre que se amanha a crónica pró-Ribatejanos, um miudito faz rir o pai por-causa-de-quási-nada – nada, excepto o facto tremendo de um ao outro pertencerem para sempre. O preto e o branco não dão cinzento, hoje não. Das prévias jornadas februárias, os grandes ventos & as iradas chuvadas não campeiam nem enxurram nem descabelam nem geram gemer. É um bocadito como se o senhor Adão & sua/dele dona Eva não tivessem jamais sido compelidos à reforma mutilada. Com outro bocadito (de atenção, agora), é perfeitamente possível a ressuscitação das espécies extintas pelo plástico do Homem, pelos homens-de-plástico – ou pelo Demo que os não carregou a todos. Até o Tejo (mas, hélas!, só à distância apartada) parece um moço lavado em aparato de pé-de-alferes com a Lezíria que o bebe & deixa beber. Uma pessoa semicerra por instantes as persianas ópticas – & a música, à maneira de toda esfera arredondada pela claridade total, põe-se logo a violinar vivaldismos de passarada sem caçador derredor. A Dívida-Pública? Bah! Hoje (mas só hoje, sabemo-lo bem, que já há muito comemos broa rija), consiste tão-só no que, todos & cada um, devemos ao que é de todos: o perfume das maçãs portuguesas, o patriotismo rescendente do bacalhau, os bons-dias dados como pão novo, a saciedade cervejada daquela tremoceira dama, o patusco que aqueles bebés-de-(tira)colo acham o senhor-sisudo-de-outros-dias. Torpor pasmaceiro – a termonuclear prumo, o vertical meio-dia dardeja todo este santo lirismo sem caruncho, sem génio & sem progénie: este dia é filho-único, como Aquele que sabemos. Como na vida, todavia-toda-a-vida, em instantes se faz tarde. Os telemóveis tornaram a guinchar. O patrão da pastelaria ralhada desabrida & altiaudivelmente com a empregadita mai’ nova – que com as duas mais antigas não se atreve ele. O momento é chegado de nos retirarmos à la française. O exemplar do Correio da Manhã foi parar às mãos do miudito causador de patergargalhadas, que a feltros iridescentes o vai exsanguinando.

E ainda: sem uma nuvem sobre que descansar a augusta cabeça nevada, o Senhor, lá tão de cima, é obrigado a vigiar, cá tão bem baixo, Francisco – achando, como eu acho também, que o Argentino não é católico, mas sim cristão só. E sem gelha per(ver)sa, o danado do Homem. 

"Imprensa Humorística e República", com António Ventura e Ana Vasconcelosno Museu Bordalo Pinheiro (Lisboa)neste Quinta-feira

Esta quinta-feira, pelas 19.00, temos mais uma tertúlia aqui no Museu, desta feita dedicada ao tema "Imprensa Humorística e República", com António Ventura e Ana Vasconcelos. Mas não só. Também será lançado o livro "Luís Filipe e a Farsa da Vida", com a assinatura do triunvirato da casa: João Alpuim Botelho, Mariana Caldas de Almeida e Pedro Bebiano Braga. E assim acontece...!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Reportagerm da tertúlia de ontem, no Museu Rafael Bordalo Pinheiro (Lisboa) com Osvaldo Macedo de Sousa, Rui Pimentel conversando sobre o Modernismo e o Humor Gráfico

Ciclo de Tertulias - Luis Filipe e a Farsa da Vida
 João Alpuim Botelho, Director do Museu Bordalo Pinheiro e moderador da tertúlia
 João Alpuim Botelho, Rui Pimentel e Osvaldo Macedo de Sousa
 João Carlos Oliveira, da Hemeroteca Digital de Lisboa epresentando "A Farça" que esté on-line
  João Alpuim Botelho, Rui Pimentel e Osvaldo Macedo de Sousa

Osvaldo Macedo de Sousa, historiador do Humor e da Caricatura, e o cartoonista Rui Pimentel a conversar sobre o Modernismo e o Humor Gráfico à boleia da obra de Luís Filipe. 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Ciclo de tertúlias - Luís Filipe e a Farsa da Vida Galeria do Museu Bordalo Pinheiro - 18 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas Modernismo e Humor Gráfico por Osvaldo Macedo de Sousa e Rui Pimentel

Ciclo de tertúlias - Luís Filipe e a Farsa da Vida Galeria do Museu Bordalo Pinheiro - 18 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas  Modernismo e Humor Gráfico por Osvaldo Macedo de Sousa e Rui Pimentel

Museu Bordalo Pinheiro - Campo Grande, 382 - Lisboa
Entrada Gratuita
No âmbito da exposição Luís Filipe e a Farsa da Vida, o Museu Bordalo Pinheiro vai apresentar um conjunto de três conversas ao longo do mês de Fevereiro, que abordarão alguns aspetos da vida e obra deste autor tão pouco conhecido do Primeiro Modernismo Português. Para cada um destes temas convidámos especialistas de várias áreas (História, História da Arte, Design, Humor, Antropologia) permitindo assim um melhor conhecimento deste artista que há mais de 100 anos foi um dos pioneiros do Modernismo em Portugal mas que só agora a sua obra é apresentada em Lisboa.

18 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas  Modernismo e Humor Gráfico
 Osvaldo Macedo de Sousa (Historiador do Humor e da Caricatura | Humorgrafe)
e Rui Pimentel (Cartoonista)
Antecede a apresentação da disponibilização em linha na Hemeroteca Digital de Lisboa do jornal A Farça (1909 – 1910) de que Luís Filipe foi Diretor Artístico, por João Carlos Oliveira (Hemeroteca Digital / CML) http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/Periodicos/AFarsa/AFarsa.htm


25 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas Imprensa Humorística e República
António Ventura (Historiador - Faculdade de Letras/UL)
e Ana Vasconcelos (Historiadora da Arte Fundação Gulbenkian)
Antecede a apresentação do livro Luís Filipe e a Farsa da Vida da autoria de João Alpuim Botelho, Mariana Caldas de Almeida e Pedro Bebiano Braga

Luís Filipe (1887 – 1949) foi um dos pioneiros do Modernismo em Portugal. A exposição patente no Museu Bordalo Pinheiro Luís Filipe e A Farsa da Vida acompanha o seu percurso artístico, desde os primeiros anos em Coimbra, com o despertar da sua consciência política e social, mas também com a representação de tipos sociais retirados da vida mundana. Foi neste período que publicou o jornal A Farça (1909-1910), um dos primeiros a publicar desenhos modernistas em Portugal, e que faz a ligação ao título desta exposição; os anos que se seguiram à implantação da República, com uma forte presença nos jornais com desenhos acentuadamente políticos, anticlericais e denunciadores de situações de injustiça social; e por fim os desenhos da sua vida adulta, em Viana do Castelo, com caricaturas de figuras locais e representações da cor e movimento do folclore, sempre com um olhar humorístico.

A exposição apresenta também autocaricaturas e obras que outros artistas do grupo de Coimbra lhe dedicaram, como Cristiano Cruz e Almada Negreiros.