sábado, 13 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
II Ciclo de Conferências – Temas Olisiponenses - “Lisboa na Caricatura: pode uma cidade ser tema caricatural?” - a cargo do Dr. Osvaldo Macedo de Sousa, no próximo dia 16 de Fevereiro pelas 18h30 no GEO - Gabinete de Estudos Olisiponenses (Palácio Beau Sejour - Estrada de Benfica, 368 | 1500-100 LISBOA)
II Ciclo de Conferências
– Temas Olisiponenses - “Lisboa na
Caricatura: pode uma cidade ser tema caricatural?” - a cargo do Dr. Osvaldo Macedo
de Sousa, no próximo dia 16 de Fevereiro pelas 18h30 no GEO - Gabinete de
Estudos Olisiponenses (Palácio Beau Sejour - Estrada de Benfica, 368 |
1500-100 LISBOA)
A sátira gráfica, por recair essencialmente no retrato da
política, normalmente é cenógrafa em interiores, já que a política verdadeira
não se faz na rua, mas nos bastidores do poder. Por essa razão a cidade nem
sempre aparece como cenário gráfico da crítica jornalística. Por outro lado, ao
não se identificar totalmente um cenário, esquecemos que as cidades estão
lá, e na caricatura de imprensa portuguesa, Lisboa encontra-se retratada em
suas múltiplas vestes, ou seja a arquitectónica, social e pitoresca…
Esta breve viagem vai tentar desvendar:
1 - O que caracteriza a caricatura?
Exagero, humor, crónica do quotidiano…
2 - O que caracteriza a cidade?
Arquitectura
População
– Anónima
Tipos
/ tradições / costumes / Figurões….
3 - Humores?
Cidade
como alvo
Cidade
como cenografia
Cidade
com seus governantes.
Contando com a vossa presença,
atenciosamente
Ernesto José Nazaré Alves Jana (Técnico Superior)
Câmara Municipal de Lisboa
Direção Municipal de Cultura
Departamento de Património Cultural
GEO - Gabinete de Estudos Olisiponenses
Estrada de Benfica, 368 | 1500-100
LISBOA
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
Ciclo de Tertúlias - Luis filipe e a Farsa da Vida no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa
Ciclo de tertúlias - Luís Filipe
e a Farsa da Vida
Entrada Gratuita
Galeria do Museu Bordalo Pinheiro
Campo Grande, 382 - Lisboa
No âmbito da exposição Luís
Filipe e a Farsa da Vida, o Museu Bordalo Pinheiro vai apresentar um conjunto
de três conversas ao longo do mês de Fevereiro, que abordarão alguns aspetos da
vida e obra deste autor tão pouco conhecido do Primeiro Modernismo Português.
Assim, a relação entre o Folclore e o Modernismo vai ser debatido no dia 13, o
Humorismo e o Modernismo serão o objeto da conversa no dia 18, enquanto no dia
25 iremos enquadrar a obra deste artista na imprensa republicana dos anos 1910.
Para cada um destes temas
convidámos especialistas de várias áreas (História, História da Arte, Design,
Humor, Antropologia) permitindo assim um melhor conhecimento deste artista que
há mais de 100 anos foi um dos pioneiros do Modernismo em Portugal mas que só
agora a sua obra é apresentada em Lisboa.
As conversas serão acompanhadas
de outras atividades de divulgação da sua obra: uma mostra de trabalhos de
alunos de Design do Produto do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, a disponibilização
em linha do jornal A Farça, de que Luís Filipe foi Diretor Artístico, pela Hemeroteca
Digital ou a apresentação do catálogo da exposição.
Consulte em baixo o programa
detalhado:
13 de Fevereiro, sábado, 17 horas O Modernismo e o Folclore
João Soeiro de Carvalho
(Musicólogo – subdiretor da Faculdade Ciências Sociais e Humanas /UNL), Carlos
Mendes (Antropólogo), Ermanno Aparo e Liliana Soares (Designers - ESTG /Instituo
Politécnico de Viana do Castelo)
Terá igualmente lugar a
inauguração da mostra Luís Filipe – pixeladas vianenses, com trabalhos
inspirados na obra de Luís Filipe feitos pelos alunos do curso de Design do
Produto da ESTG /IPVC
18 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas Modernismo e Humor Gráfico
Osvaldo Macedo de Sousa (Historiador do Humor
e da Caricatura | Humorgrafe)
e Rui Pimentel (Cartoonista)
Antecede a apresentação da
disponibilização em linha na Hemeroteca Digital de Lisboa do jornal A Farça
(1909 – 1910) de que Luís Filipe foi Diretor Artístico, por João Carlos
Oliveira (Hemeroteca Digital / CML) http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/Periodicos/AFarsa/AFarsa.htm
25 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas Imprensa Humorística e República
António Ventura (Historiador -
Faculdade de Letras/UL)
e Ana Vasconcelos (Historiadora
da Arte Fundação Gulbenkian)
Antecede a apresentação do livro
Luís Filipe e a Farsa da Vida da autoria de João Alpuim Botelho, Mariana Caldas
de Almeida e Pedro Bebiano Braga
Luís Filipe (1887 – 1949) foi um
dos pioneiros do Modernismo em Portugal. A exposição patente no Museu Bordalo
Pinheiro Luís Filipe e A Farsa da Vida acompanha o seu percurso artístico, desde
os primeiros anos em Coimbra, com o despertar da sua consciência política e
social, mas também com a representação de tipos sociais retirados da vida
mundana. Foi neste período que publicou o jornal A Farça (1909-1910), um dos
primeiros a publicar desenhos modernistas em Portugal, e que faz a ligação ao
título desta exposição; os anos que se seguiram à implantação da República, com
uma forte presença nos jornais com desenhos acentuadamente políticos, anticlericais
e denunciadores de situações de injustiça social; e por fim os desenhos da sua
vida adulta, em Viana do Castelo, com caricaturas de figuras locais e
representações da cor e movimento do folclore, sempre com um olhar humorístico.
A exposição apresenta também
autocaricaturas e obras que outros artistas do grupo de Coimbra lhe dedicaram,
como Cristiano Cruz e Almada Negreiros.
Crónica Rosário Breve O siluro não tem futuro (sermão aos peixes sem Santo António ao barulho) por Daniel Abrunheiro
1. Tenho para mim & por certo que não é cabal a designação de siluro-europeu para a nova praga que
assola o imundiciado Tejo da nossa vida tágico-trágica. Não é que esteja
errada. É que está incompleta. Falta-lhe especificidade. Siluro-alemão. Assim é que está bem: siluro com alemão a
seguir. É peixe tipo gato que come carne? É alemão. Come os espécimenes mais
pequenos? É alemão. Nem às avezinhas beira-fluviais permite sossego? É alemão.
Até o seu cocó é tóxico quando em aglomerado cardume? É alemão. Tenho provas de
que é alemão. Uma metàforazinha me serve de inegável & indesmentível
evidência. Esta aqui: O Tejo é Portugal.
2. Portugal é o Tejo. Tal
como o Rio sofre de poluentes (olá, Vila Velha de Ródão!; olá, Mação – sim ou
não?; olá, Abrantes!; olá, Constância!); tal como o Rio se abaixa de caudal;
tal como o Rio é entravado & bloqueado artificialmente por enrediços exploradores
desalmados; tal como tudo isto – assim Portugal sofre de ofensas cumulativas ao
seu ecossistema financeiro; assim Portugal se abaixa de cócoras para enfermar
de atentados incessantes à sua biodiversidade económica; assim à ocidental praia lusitana acode a
maré-negra em formato de orca-de-água-não-doce made in Berlim & desovada em Bruxelas com o beneplácito viático
de Estrasburgo & de Wall Street.
3. Os Portugueses fazem de sável, de savelha, de saboga, de barbo –
mesmo os cuniculófilos. O eixo Berlim-Bruxelas faz de silurus-glanis, que é o nome latino usado para disfarçar aquilo que
vos disse: que o siluro é mas é alemão. Mas, ó pessoal piscícola meu compátrio,
nota bem que o siluro só é siluro por enquanto. Para nossa haliêutica desgraça,
e caso nos obstinemos em democraticamente seguir pela Esquerda, a voraz
avantesma há-de passar ao formato do bem pior & famigerado lúcio-perca. Perca a gente a
determinação, que assim desgraçadamente será como a gente se perderá.
4. Há muito que a máscara do espantalho teutónico caiu já. Aquela
bocarra grande é mesmo para nos comer, à maneira do pedófilo lobo do capuchinho
(precisamente, precisamente) vermelho. Ao arrepio da nossa Constituição &
ao atropelo da nossa Soberania, o siluro-alemão quer (mais ainda) atirar
dentuça omnívora via “alteração
estrutural a nível (ou aníbal…) do
rigor orçamental”, que é como se diz em economês
“mais roubalheira com fartura, que a gente é que sabe, pode e manda”. O
lúcio-alemão quer mesmo irrevogáveis (sem ser à PP) as medidas que nos foram
coelhamente mentidas como temporárias.
O bicho não descansa enquanto nos não infestar a Função Pública e nos não
superhipermegagigataxar o IRS. A furtiva besta de fundão fluvial há-de dejectar
quanto puder quando em cardume. Há-de continuamente alinhavar equipas técnicas (olá, Octávio Machado!)
infamemente capazes de menosprezar quanto vale, sem ser em dinheiro, um centro
de saúde, uma escola, um tribunal, uma ponte, um investigador, um enfermeiro,
um operário da Rical, um reformado,
uma criança.
5. Dispomos todavia de uma esperança sensata. Até leva, ou traz em
si, o nome da nossa Capital. Refiro-me à maneirinha boga-de-boca-arqueada-de-Lisboa. É criatura lusitana, tem bebido
uns copos e feito umas piscinas ali pelas Ribeiras de Muge e de Almoster,
parecendo que no Rio Trancão também. Ora, é minha firme crença e minha férrea
disposição que a boga não tem de ter medo do siluro. O siluro é tosco, é gordo,
é pesado, é aleijado, é grotesco, é contranatura. O siluro-alemão rima com
aberração. A boguinha nossa, não. É miudinha mas é nossa. É quase irrelevante
mas é (d)a gente. A semelhança morfológica dela para com afins espécies
ciprinídeas é a nossa própria semelhança para connosco mesmos. A boga deve pôr-se
em voga. A única modificação que se lhe/nos pede, é esta aqui: que em vez de
mandar(mos) bocas arqueadas, mandemos
mas é o vozeirão a direito. A boga não pode esquecer-se de que duas vezes no
século XX o siluro-alemão se armou em super-espécie invasora – e que duas foram
as vezes em que foi arpoado à maneira na corneta. A boga
deve acreditar que às três só é de vez quando o peixe se deixa morrer pela
boca. Ou quando não passa de carapau-de-corrida.
Ora, a maneira que temos de
interditar o futuro ao siluro é fazer-lhe ver, e de vez, que, para quem somos,
bacalhau já não basta.
sábado, 6 de fevereiro de 2016
O fenómeno “Parada da Paródia” como semanário de humor por António Gomes de Almeida
Penso que não há exagero em
classificar como fenomenal um semanário de Humor que nasceu na
sequência do êxito popular de que gozavam os Parodiantes de Lisboa,
na década de sessenta do século XX – mas conquistou, por mérito próprio, a sua independência
Humorística.
Todos os que trabalham, ou
trabalharam, em órgãos da nossa Imprensa Escrita sabem que a edição de revistas
e jornais é condicionada por factores comuns a todos eles, e que podem
explicar-se deste modo: 1. – As tiragens são, normalmente, pequenas (por razões
culturais, porque o País é pequeno, porque há pouca gente com hábitos de
leitura – todos conhecemos estas razões); 2. – Nenhuma publicação sobrevive
apenas com as receitas das vendas e das assinaturas; 3. – As receitas da
publicidade são essenciais para a sobrevivência... Ora bem, estes factores são
ainda mais evidentes quando falamos deImprensa Humorística ou Satírica,
para a qual os Anunciantes sempre tiveram grande relutância em encaminhar as
suas verbas publicitárias, talvez por acharem que “não parece bem” colocar um
anúncio de uma empresa “séria” num jornal de Humor…
Todavia, nenhuma destas
condicionantes se verificou, no semanário Parada da Paródia.As
tiragens foram excelentes, houve lucros, e houve publicidade a um nível muito
razoável.
O jornal surgia como complemento
impresso daquele Humor que tornara os Parodiantes campeões das
audiências radiofónicas, com programas tão populares como o Teatro
Trágico, o Vira o Disco e oGraça com Todos, este
último acompanhando estrategicamente a hora do almoço dos portugueses, (ainda
sem a concorrência da Televisão), e com personagens tão marcantes como Patilhas
& Ventoínha, Jack-Taxas & Cara-Linda, ou o Compadre
Alentejano. Parece fácil explicar que o êxito do jornal se basearia, por
arrastamento, no êxito da Rádio… Mas essa, sendo a explicação inicial, deixou
de o ser à medida que as semanas foram correndo e, após a espectacular tiragem
de 54 mil exemplares dos primeiros números, coisa nunca vista até então, as
edições estabilizaram à volta de uns excelentes 20 mil exemplares, e só viriam
a diminuir um pouco quando parte das atenções do público se desviaram, em 1961,
para a Imprensa Diária, por causa das notícias sobre a Guerra Colonial.
Qual é, então, a explicação
complementar para o êxito da Parada da Paródia? Sem dúvida, a
qualidade dos textos e das ilustrações que apareciam nas suas páginas. E a
imaginação, renovada semana após semana, com a edição de números dedicados a
temas originais tão inesperados como as Moscas, as Casas de
Penhores, as Parteiras, as Bruxas, o Fado,
os Guarda-Nocturnos, osQueijos, os Carteiros, as Varinas,
a Água – e até o Vinho (este último numa
edição impressa a roxo, e contendo um vale que dava direito a ir tomar um copo
num estabelecimento do produtor que patrocinava o tema)...
Algumas secções fixas reproduziam
temas transpostos da Rádio, como o Rádio-Crime e as paródias
aos folhetins radiofónicos; mas outras, para além dessa origem, eram
popularíssimas, como ABronca da Semana, o Guichet de
Reclamações, o Ficheiro dos Caricaturistas e o Expediente
do Director. E foi lançado, entre outras iniciativas, um concurso para
eleição da Flausina Modelo, que teve uma adesão invulgar.
A diferença estava, sem dúvida, no
especialíssimo lote de colaboradores – os que escreviam e os que desenhavam – e
na qualidade do Humor apresentado.
Mas, antes de falarmos desses
aspectos, comecemos pelos pormenores técnicos:
A Parada da Paródia foi
publicada semanalmente, às quintas-feiras, durante dois anos exactos – do
número 1, de 10 de Novembro de 1960, ao número 104, de 1 de Novembro de 1962.
Tinha o formato 31x23 cm, e era
impressa em rotativa, em sistema tipográfico, a preto e uma cor, em papel
normal de jornal.
Cada exemplar custava vinte e
cinco tostões (2 escudos e 50 centavos, o equivalente, em Euros, a menos de 1
cêntimo e meio).
O primeiro número tinha 16
páginas, 8 das quais a duas cores, mas, logo no número 2, o êxito das vendas
obrigou a aumentar o número de páginas para 24. Mais tarde, a partir do número
27 e até ao número 70, passaria a publicar 28 páginas, sendo as 4 suplementares
impressas em offset. Do número 71 até final, voltaria às 24 páginas, eliminando
as 4 suplementares em offset.
Era impresso na Casa Portuguesa,
uma tipografia da Rua das Gáveas, no Bairro Alto, onde também se imprimia,
entre outros, o Diário Ilustrado.
QUEM FAZIA A PARADA DA PARÓDIA
É importante recordar a listagem de
todos, ou quase todos, os que passaram pela Parada, como
apareceram na Ficha Técnica respectiva.
Director - António Gomes de
Almeida
Editor - Ruy Andrade
Chefe da Redacção - Manuel Puga
Chefe de Publicidade - José
Andrade
Redactores – Matias Redondo (Carlos
Pinhão), que escrevia a secção desportiva Meia Bola e Força!; Macacão (António
Rolo Duarte), que fazia a secção de Espectáculos Ver, Ouvir e Gozar;Flausina (Maria
João Duarte) que respondia ao Correio da Flausina; Raúl da Costa,
ex-autor de teatro de revista, com colaboração variada; Antero do
Quintal e Camilo com E (Antero Nunes e Benjamim
Veludo) que escreviam À moda do Porto; Pepe (Álvaro
Magalhães dos Santos), que escrevia As Aventuras do Arnestinho e
a Antologia do Pensamento Mental; Zé que Ri, autor dasBroncas
Rimadas – e, de vez em quando, mais alguns.
Para além destes colaboradores,
que escreviam as secções fixas, o corpo do jornal era preenchido com textos do
Director, do Chefe da Redacção e alguns do Editor.
Quanto aos Desenhadores,
nunca se reuniu, num mesmo jornal, um lote tão grande e tão talentoso como
este!
O desenhador principal (autor de
todas as capas, de muitos cabeçalhos, ilustrações, cartoons e muito mais) era o
João Martins, que viera de O Mundo Ri, e que iria, mais tarde, dedicar-se
a filmes de desenhos animados, e também a trabalhar como grande ilustrador de A
Bola e de o diário, para onde foi levado pelo Carlos
Pinhão.
Além deste divertido personagem, a
lista dos desenhadores incluía o Túlio Coelho (que transformava em Banda
Desenhada as radionovelas do Teatro Trágico); o Manel (Manuel
Vieira), que também trabalhava para a RTP; o alentejano Mário Elias, cujo nome
seria mais tarde atribuído a uma Casa das Artes em Mértola; o tímido portuense
Miranda; o excelente ilustrador Vítor Ribeiro; o José Antunes (que chefiaria
depois o sector gráfico da Verbo e o do Círculo de Leitores); o talentoso Zé
Manel (filho do artista Meco, e um dos mais talentosos ilustradores deste País,
que publicaria aqui os seus primeiros bonecos); o Reinaldo; o
animado e meio louco Gustavo Fontoura (que, com o Manuel Puga, publicaria dois
volumes de "fotogozos" com o título Puflas); o
Moreira Rijo, que trabalhava na RTP; o Vítor Milheirão, chefe do restauro na
Gulbenkian, com o seu amigo inseparável, o Ricardo Reis; o João Benamor, que
era militar e fazia, nas noites em que estava de serviço no quartel, uns
desenhos cheios de minúcia, muito bem acabados; o Mário Jorge, filho e herdeiro
do estilo do conhecido Mário Neves, autor de excelentes filmes publicitários
para a TV, como os da Laranjina; o Augusto Cid, que já tinha então
uma produção e um talento enormes; o Rui Torres, este pouco assíduo; o Yoke,
que tinha um estilo original, mas também publicou pouco; o Joes (Jorge Esteves,
que mais tarde seria professor na António Arroio, depois de ter sido
colaborador na Regisconta); o Ton (António Gomes Ferreira), de Coimbra; o
Fausto Boavida; e ainda um Arruda, um Machado, um Toni e um Guerra, que tiveram
escassa colaboração; o Helder Martins, sobrinho do João Martins, que mais tarde
publicaria o seu frustrado jornal A Chucha; e ainda, na fase
inicial, dois outros grandes desenhadores, dos quais se tinham publicado antes
os primeiros bonecos, na revistaPicapau: o Vasco (que então ainda
assinava Agostinho de Castro), e o Adolfo Feldlaufer, um dos
artistas mais originais que ali apareceram, o que veio a comprovar-se mais
tarde, no seu trajecto internacional.
Uma lista impressionante!
Faziam ainda parte da equipa os
Fotógrafos: o Luís Henriques e os dois profissionais da Publifoto.
A Parada da Paródia foi
um êxito, logo a partir do primeiro número, que foi um verdadeito estouro! Teve
de ser reforçada a edição, à pressa, atingindo-se os 54 mil exemplares, o que
era verdadeiramente extraordinário, para a época! Por isso, a partir do número
2, "brindaram-se" os leitores com mais páginas e mais Humor.
As coisas corriam muito bem, em
termos de vendas – embora, em 1961, com o início da guerra em Angola, se
começasse a notar uma certa quebra. As pessoas andavam inquietas com o que se
passava em África, compravam mais jornais diários, por causa da informação,
aliás escassa, e estavam menos viradas para publicações deste género. No
entanto, tudo indicava que o jornal, do ponto de vista comercial, continuava a
ser um excelente negócio.
AS NOITES DE QUINTA-FEIRA NO
DÉCIMO-TERCEIRO ANDAR
As reuniões de redacção da Parada
da Paródia eram à noite, às quintas-feiras (o dia da semana em que o
jornal saía para a rua), no 13º andar do prédio da Avenida dos Estados Unidos
da América nº 102, numa grande sala ao lado do estúdio de gravação e dos
escritórios das duas firmas associadas: "Parodiantes de Lisboa,
Lda.", que geria toda a actividade relacionada com a Rádio e tinha dois
sócios, os irmãos Andrade – e "Tela-Parodiantes", que tratava de todos
os outros tipos de publicidade.
Eram reuniões animadíssimas, cujo
barulho animava os treze pisos do enorme edifício, em cuja base estava
instalado um estabelecimento que era uma espécie de "Templo do Cinema
Moderno Português" – o Café Vává, centro de convívio de cineastas,
jornalistas, músicos e outros artistas.
A ele desciam todos, de corrida,
um pouco antes das duas da manhã (que era a hora do encerramento do café), para
a última bica. Mas, quase sempre, tornavam a subir, para continuar o trabalho,
a conversa e as piadas. Era, sem dúvida, uma redacção muito alegre.
Aparecia sempre muita gente,
porque era nesse dia que se combinavam temas para os números seguintes e se
distribuíam tarefas. Claro que, na primeira quinta-feira de cada mês, ainda
aparecia mais gente – porque era o dia de pagamento das colaborações... Cada
peça (texto ou boneco) valia então entre 25 e 50 escudos, o que não era nada
mau, em relação ao nível praticado pelos jornais da época. E havia uma folha de
colaboradores enorme!
Os ardinas (que ainda existiam,
nesse tempo) eram incentivados a gritar, nas ruas, o nome daParada da
Paródia. E havia um prémio de cem escudos para aquele que o apregoasse mais
alto!
COLABORADORES MUITO ESPECIAIS
Já se viu que a Parada da
Paródia tinha muitos colaboradores. Uns tinham mais piada que outros,
como é evidente – mas, entre eles, houve quem se tornasse notado por razões que
pouco tinham a ver, directamente, com o Humor.
Ao acaso, aqui vão dois episódios:
um, de um colaborador da parte escrita; outro, de um desenhista...
Certo dia, recebeu-se na redacção
uma carta assinada com o pseudónimo "Zé que Ri", sem mais indicação
alguma; nem nome, nem morada – nada. Eram uns versos em forma de gazetilha,
muito bem feitos e com muita graça. Ficaram a repousar numa gaveta, à espera de
identificação do autor.
Daí a dias, nova carta e novos
versos, ainda melhores e ainda com mais graça. E, uma semana depois, outra.
Resolveu-se começar a publicar aquilo. Arranjou-se uma secção com o título
"Broncas Rimadas" e, semana após semana, foram-se publicando as
gazetilhas – que continuavam a vir pelo correio, regularmente. E nós sem
sabermos nada do autor! "Mas lá que o tipo tem graça, isso tem! Vê-se
que é um rapaz de espírito jovem e arejado!" – era o que todos comentávamos,
na redacção.
Até que, um dia, batem à porta e
aparece, finalmente, o misterioso "Zé que Ri". Vinha, timidamente,
saber se tinha alguma coisa para receber, das suas colaborações. Claro que
tinha, e logo lhe foi pago. Só que... para nosso espanto, o "tipo com
piada", o "jovem arejado" não era um "tipo" nem era
nada jovem; era, sim, uma senhora já entradota, pequenina, feíssima, ainda que
muito simpática!...
Quanto ao outro episódio, tem a
ver com um dos numerosos desenhadores que por lá apareciam, nas reuniões de
redacção. Só que este (cujo nome não se revela, já vão perceber porquê), estava
longe de ser das companhias mais apreciadas. É que o rapaz cheirava mal que era
uma coisa por de mais! Assim que franqueava a porta da redacção, espalhava-se
por toda a vasta sala um fedor impossível de aguentar. Logo alguém corria a
abrir as janelas. Qual quê! A intensidade do mau-cheiro superava todas as
correntes de ar provocadas para afastá-lo! O pior era no inverno, quando o
frio, o vento e a altitude (recordo que estávamos num 13º andar!) nos punham em
perigo de substituirmos um valente mau-cheiro por uma valente constipação.
Ainda por cima, o moço não tinha a
mínima noção do incómodo que causava. Adivinhava-se que não tomava banho há,
pelo menos, um ano – se é que alguma vez experimentara tão insólita operação. A
gente lançava indirectas, contava histórias, falava do Luís XV (que constava
nunca se ter banhado – mas esse, ao menos, encharcava-se em perfumes, para
disfarçar). O nosso desenhista mal-cheiroso nem pestanejava.
Um dia, sabendo que ele fazia
anos, resolvemos oferecer-lhe um enorme sabonete, artisticamente embrulhado,
com uma dedicatória apropriada. Ele abriu o pacote, desconfiado, e saíu-se com
uma frase que nos fez perder toda a esperança de que a situação (e o cheiro)
algum dia desaparecessem: "Mas... isto serve para quê?"...
ERA UMA CASA PORTUGUESA...
Enquanto durou a Parada da
Paródia, as noites de segunda-feira do Director eram passadas no Bairro
Alto. Mas... nada de más interpretações! Embora o local, nessa época, fosse
conhecido pela concentração de "casas de meninas" que o infestavam,
havia, pelo menos, duas outras características que lhe davam especial
interesse: era, igualmente, o bairro onde se encontravam muitas das casas de
fados de Lisboa; e, também, a maioria das redacções de jornais, bem como as
tipografias.
Uma destas era a "Casa
Portuguesa", onde se imprimia a Parada da Paródia. Por isso é
que o Director "entrava de serviço" ao fim da tarde de segunda-feira,
quando começavam a ficar prontas as provas de texto que era preciso rever, e lá
ficava até o jornal estar pronto a entrar na máquina, o que tanto podia
verificar-se à meia-noite como às duas da manhã, ou às quatro, como aconteceu
muitas vezes. Este "horário de trabalho flexível" dependia da
Censura. As provas eram enviadas à medida que estavam prontas e, durante aquele
período de tempo, era um corrupio, da tipografia para a Censura e da Censura
para a tipografia, até estar tudo devidamente autorizado, com o carimbo oficial
aplicado a todas as provas, de texto e de bonecos.
Quando as coisas corriam bem,
aquilo despachava-se depressa; mas, quando os senhores Coronéis censores
embirravam com qualquer texto, ou qualquer imagem, era mais complicado. Então,
era necessário tornar a distribuir o material gráfico, repaginando o jornal e
tapando os buracos que tinham surgido. Havia sempre um stock de gravuras
soltas, que serviam para isso mesmo: para tapar os buracos que a Censura abria,
inventando-se um texto mais ou menos apropriado, que se ajustasse a cada
boneco, e mandando recompor aquilo tudo. Era um desafio à capacidade de
imaginação e de "desenrascanço" que, nesses tempos, era um factor
absolutamente indispensável a quem andava nestas vidas de jornais e revistas.
Isto significava várias horas
seguidas em contacto com uma gente muito especial, que nos habituámos a admirar
e a respeitar, e com quem sempre gostámos de conviver: os Gráficos. Enquanto se
esperava que viessem as provas da Censura, jantávamos juntos numa tasca à
esquina da Travessa da Queimada. Depois, enquanto se compunham as últimas
legendas, ali se esperava, indicando os tipos a usar, lendo os textos às
avessas, nas páginas já meio arrumadas, conversando com os compositores, com os
impressores, com o chefe da oficina...
Deste, guarda-se uma lembrança
pitoresca. Era o Miranda, um gordo bem-disposto, que usava uma linguagem
profissional curiosamente repetitiva, porque, dizia ele: "esta malta,
se a gente não explica tudo bem explicadinho, faz disparate”. E então, para
indicar a um jovem operador de composição como queria um título, ele dizia
assim: "Olha que isso é tudo em versais, ou seja, em caixa alta,
portanto, tudo em letra grande, ou seja, em maiúsculas, tás a ouvir? E é um
título centrado, mas centrado mesmo ao meio, metade para cada lado, percebeste?"
Nunca se chegou a saber até que
ponto isto era propositado, quer dizer, se ele falava desta forma por piada, e
se esta linguagem era mesmo assim, deliberadamente tosca. Mas parece que sim,
porque havia outros exemplos do seu Humor. Quando, um dia, foi preciso refilar
por causa de uma "gralha" que saíra num texto, o Miranda retrucou,
calmamente: "Ora, não vale a pena dar tanta importância a isso! Um
jornal sem "gralhas" é como a Sofia Loren sem mamas: não tem piada
nenhuma!"
OS 5 TOSTÕES DO CONTABILISTA
VARELA
O jornal acabou prematuramente. E
acabou, não porque não continuasse a ser um êxito de vendas, mas por má gestão
dos recursos financeiros da organização. E também por evidente falta de
competência do contabilista de então (um pitoresco Sr. Varela, sempre muito
preocupado com verbas de tostões, mas sem capacidade para gerir verbas de
milhões). E isso provocava alguns problemas de tesouraria. Por outras palavras:
não é que faltasse dinheiro, mas os recebimentos e pagamentos eram mal
escalonados no tempo.
Ao contrário do que se passa no marketing moderno,
as contas, nesse tempo e naquelas circunstâncias, não serviam para se fazer,
dia a dia, a gestão do negócio: serviam, isso sim, para – com um atraso de
meses ou, mesmo, de anos! – se apresentarem, finalmente, uns balancetes muito
bem elaborados, é certo, mas que apenas serviam para se ficar a conhecer o
aspecto "histórico" do passado.
Era assim a contabilidade de
então. E era assim o contabilista, um senhor muito simpático, uma jóia de
pessoa, mas aquilo a que se pode chamar, com propriedade, um atraso de vida…
Todas as semanas lhe era feita a pergunta: "Então, senhor Varela, as
contas do jornal? Quantos exemplares se estão a vender?" – e, todas as
semanas, ele respondia, invariavelmente: "Estou a fazer o balancete,
mas há uma diferençazinha..." Era preciso insistir: "Mas, não
pode dar uma ideia? Não interessam números exactos, é só para saber, pouco mais
ou menos, se estamos a vender vinte mil, quinze mil… ou só quinhentos
exemplares! Uma coisa aproximada!" E ele: "Tenho que ver
melhor. Há uma diferençazinha de cinco tostões..."
Ao fim de vários meses, a conversa
já era aos gritos: "Mas isto, afinal, está a vender ou não está?!"
E o senhor Varela: "Há uma diferençazinha. Ando à procura de cinco
tostões..." Todos nos oferecíamos para dar, generosamente, dos nossos
bolsos, os cinco tostões, para arrumar a questão. Nem pensar! O senhor Varela
sorria e repetia: "Só depois de acertar as contas. Há uma
diferençazinha..."
Acreditem ou não, esta cena durou
meses. Entretanto, os manos Ruy e José Andrade, que se tinham habituado a viver
muito à vontade, pois os programas de rádio, nessa altura, davam muito
dinheiro, começaram a andar inquietos. É que havia, em cada mês, duas grandes
facturas a pagar: a do tempo de antena no RCP (que era sagrada e tinha de ser paga
até ao último dia de cada mês) e a da tipografia (que, por uma falta de senso
incompreensível, tinham combinado pagar até ao dia 8 seguinte). Claro que,
depois do esforço de cobranças de cada fim de mês, era muito difícil, nos
escassos 8 dias seguintes, cobrar o suficiente para pagar a gorda factura da
tipografia. Por isso, a ideia tonta que se instalou foi esta: "Se é tão
difícil arranjar o dinheiro para pagar as despesas do jornal... é porque o
jornal não está a dar dinheiro!" E, como o sr. Varela não dava
números, por causa dos 5 tostões que faltavam, esta suspeita foi-se
transformando em certeza. Um dia, os Andrades convocaram toda a gente e
disseram que a Parada da Paródia tinha que acabar.
Argumentar, como, se não havia
dados, números, estatísticas? Assim acabou a "Parada da Paródia",
ingloriamente... em plena glória editorial! Isto porque, uns seis meses depois,
surge o senhor Varela, com um sorriso radiante, uns papéis cheios de algarismos
na mão, cantando vitória: "Pronto, aqui estão as contas! Sempre achei a
tal diferença dos cinco tostões. E, olhem, sabem uma coisa muito engraçada?...
Mesmo nas semanas mais fracas, quando foi aquela coisa da guerra de Angola, o
jornal deu sempre lucro! Sempre!"
O senhor Varela já morreu há anos.
De morte natural, coitado. Mas, até hoje, ninguém conseguiu explicar o que
impediu, naquele dia e naquela hora, o seu assassínio, lançando-o da janela do
nosso 13º andar!...
…E aqui está como uma publicação
de Humor, que tinha a missão de deitar Humor cá para fora – também viveu, por
dentro, situações humorísticas (ainda que, às vezes, de um Humor um tanto ou
quanto negro)…
(O autor
foi director do jornal “Parada da Paródia”)
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Rosário Breve - É engraçado mas falo a sério por Daniel Abrunheiro
Voltarei, nesta Presidenciais, a votar em Manuel
de Arriaga.
É-me despiciendo o facto de o ilustre
Terceirense (açoreano da Horta, n. 1840) estar fisicamente defunto desde 1917 –
é no mesmo que voto na mesma.
Quero-me representado por uma figura de natural
humanismo, de cívicas bondade & benevolência, de regrado carácter, de
exemplar sentido de causa & serviço públicos, de alto empenho na justiça
social – e, já agora, panteísta, que era como chamavam aos
ecólogo-ambientalistas quando ainda era preciso meter deuses ao barulho de rerum natura.
Interessa-me, e muito, que o mais alto
magistrado da Nação não seja um ganancioso predador-distribuidor de honras, ribaltas,
milhões, clientelas & milhões. O Dr. Manuel de Arriaga não é, seguramente o
não foi nem o será, desses. Quando eleito, foi o primeiro a ocupar o Palácio de
Belém – mas (note-se isto muito bem) por sua conta. O arrendamento de 100
escudos ao mês era satisfeito pelo bolso dele. Assim como a viatura automóvel
que oficializou no cargo: comprou-a ele, acabando de pagá-la a prestações
quando já resignara à Presidência. Sim, um homem assim interessa-me. Voltarei
(sempre) a votar nele. Não tenho feito outra coisa, aliás. Quando foi do
Soares, votei Manuel de Arriaga. Quando foi do (outro) Sampaio, votei Manuel de
Arriaga. Quando foi disto, votei Manuel de Arriaga. E tenho ganhado sempre, ao
contrário do País.
Sabendo-o adversário tenaz do analfabetismo (o
do tempo que foi dele, à volta dos 80%; e o do nosso, que andará à volta do
mesmo, evidenciando-se tal conclusão de uma rápida mirada às redes ditas
sociais), tenho-o por aposta certa & vencedora nestes nossos tão desdentados
dias. Agrada-me, além de tudo o mais, que a sua/dele Lucrécia não seja de
Bórgia mas de Brito – e não do Vaticano mas da Ilha do Pico.
Sim, a minha cruzinha plebiscitará sem pestanejo
o portador do primeiro Bilhete de Identidade alguma vez emitido pelo novel
Registo Civil deste País.
E a quem eventualmente me acuse de eleger um
morto, um fantasma, uma assombração, um espectro, uma múmia – ouvirá de mim a
defesa acusadora de o mesmo terem feito, em recentes anos, os meus
contemporâneos – e por dois mandatos consecutivos.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
Rosário Breve – Expedição por Daniel Abrunheiro
O pico da montanha reverbera no
vidro nítido do ar-longe. De cá, mulas & homens, provisões & desejos.
Mantimentos longamente acumulados na ideia. Planos que entretiveram vários
invernos. Homens & animais em transe de libertação.
Na estalagem toda de madeira,
esperam. Toda de madeira excepto a estrutura lareira-chaminé. A mesa longa
& larga pode albergar dezasseis comedores, mas os animais comem lá fora.
A Primavera demora o tempo de que
precisa. Eles, homens, também; elas, mulas, também. Há um cão: chama-se Rafael
e não é moço já.
Os estalajadeiros são o casal
Gottlieb: Hermann Gottlieb tem 67 anos e é gordo; Marlene Gottlieb (née Zweig) tem 62 anos e é magra. Dão-se
bem, comungam o silêncio retórico de muitos anos de matrimónio construtivo.
Os homens são oito.
Gunther Schwarz é sueco, 28 anos,
foi mecânico (de bicicletas).
Telemann Kaltz é alemão, 42, foi
aviador (de copos, não de aviões).
Claudio Baresi é suíço do cantão
italiano, tem 50 anos, foi pediatra.
Arménio Jordão, português de
Sintra, 39, foi rico.
Jelavert Zubizarreta, basco e de 19
anos, estudou enfermagem.
Thomas Osgood é inglês de
Yorkshire, 64, foi bibliotecário.
Oleg Mikhaylichenko é russo, 74, foi
professor-primário.
E o sénior é Astor Nicopolidis, grego, 85, que
não se recorda (ou pretende não recordar-se) do que fez & foi na vida
activa.
(Nota do redactor: o
tempo verbal que antecede todas & cada uma das oito profissões é o
pretérito-perfeito. Não é mera coincidência nem estilístico descuido. É de
propósito. E é de propósito porque a ser não voltam aquilo que foram. Estão, os
oito, em modo & condição pré-terminal da doença-do-caranguejo. Dispõem de umas muito poucas semanas para que o cancro de vez os
desembarace do fardo do nascimento. E é por isso que, supra, foi escrito: “em
transe de libertação”.)
E os animais – também? Sim. Também. Chegando os
dezasseis seres à montanha, as oito mulas tornar-se-ão libertas. Os homens
acamparão para continuar à espera. Quando lá no sopé da majestosa elevação, não
terão forças já para qualquer veleidade andina, alpínica ou himalaica. Mas também
não há-de ser isso a desconfortá-los, ou a frustrá-los, ou a (di)feri-los. Já
só hão-de esperar a espera mesma. Estas coisas são de nenhuma volta a dar-lhes.
Estes oito só diferem por ter decidido esperar andando.
Reuniram-se em Istambul, perto do sítio onde ainda
agora há poucos dias o sacana dum islamita-radical-suicida deflagrou uma dezena
de turistas. Demoraram-se dois dias & duas noites na antiga capital
imperial que foi Constantinopla depois de haver sido Bizâncio. Depois, vieram
para esta página, perdão, para esta estalagem tão sossegadamente gerida pelos
Gottlieb.
Esta noite, jantaram carne prensada, ervilhas,
sopa de tomate & marzipã. Ei-los derredor-lume, uns tomando café (Gunther,
Claudio, Thomas), outros havendo chá (Oleg, Jelavert) , outros
xarope-de-groselha (Telemann, Astor) – e Arménio, vinho tinto aquecido. Antes
de subirem para dormir, Claudio sugere que cada um escreva ao seu-alguém (se
algum) uma última carta. As oito missivas terão Marlene & Hermann como
fidelíssimos-depositários-da-puridade. Uns dizem que sim (Thomas, Telemann,
Arménio, Gunther), um diz que não (Jelavert), Oleg & Astor respondem que
vão pensar nisso.
Sabe-se agora (sete da manhã mais catorze
minutos) que não será já bi-octogonal a expedição terminal-humana. Não pelas
mulas, que estão robustas. É que já só sete dos homens respiram – posto que
Jelavert, sofrendo de uma marrada mortífera do desespero, se cortou os pulsos
antes de afogá-los no balde que faz a vez de autoclismo (é modesta, a
albergaria gottliébica).
Nem por isso cancelam a expedição. Ao
ar-longe-vidro, a montanha chama-os, um-a-um, pelo nome próprio, à parecença do
que nesta mesma redacção acima se fez aquando das enumerações relativas. E como
à consciência acontece com a rápida ingestão de ar gelado pelas esponjas
pulmonares, o eco amplia os homens: (…)
arzzarzzarzz, altztzztzz, ésiésiési, dãoãoão,
zgudgudgud, xencoencoenco, ólidislidislidis (…)
Pacientes como budas, as mulas
aproveitam para escarvar enquanto esperam, ao passo que o Rafael as azucrina
fingindo que lhes morde as assaz delicadas canelas, cena
que, apesar de tão divertida & tão preciosa, não constará da carta que por
alguma razão Jelavert decidiu não escrever, de si, como se (ou)viu, nem eco
deixando.
Exposição Luis Filipe e a Farsa da Vida no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa até 28 de Fevereiro
Se ainda não teve oportunidade de passar pelo Museu para conhecer a obra de Luís Filipe, anote na agenda: tem até dia 28 de Fevereiro para descobrir um dos pioneiros do Modernismo em Portugal e um artista marcadamente irreverente.
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
O Fado e os humores por Osvaldo Macedo de Sousa
Por: Osvaldo Macedo de Sousa
Fado, a
expressão da alma lusa! Este é um cliché defendido por muitos como se fosse
nosso destino ter “gosto de ouvir a nossa
desgraça”. É verdade que o som do queixume timbra a saudade nos harpejos da
guitarra portuguesa e os melismas vocais do fado mas, se este fala da vida de
todos nós, o humor também pode ser uma das suas vertentes.
O Fado evoluiu
da tristeza feita música, das despedidas dos marinheiros de destino incerto, da
saudade dos portos da vida, por vezes “batido” em dança erótica, por vezes
gargalhada no sarcasmo da revolta contra as contrariedades, por vezes chorada
no álcool. Nasce dum meio castiço, brejeiro, de vidas perdidas e reencontradas
na camaradagem da miséria, das tascas onde o ambiente tanto dava para a
nostalgia trágica, como para a grosseria cómica, para o riso no grotesco. Esta
riqueza de matizes emocionais, de cores melódicas é vivida com maior riqueza no
“Fado Vadio” ou nas “Desgarradas” em que o espírito está mais solto para a
realidade do momento.
Sendo uma canção
ligada às classes operárias, desde logo, a emergente arte da caricatura de
imprensa se inspirou neste universo para as suas alegorias de sátira política,
tendo como principal cultor Rafael Bordalo Pinheiro.
Também a
dramaturgia, na sua requalificação de sobrevivência popular, na estrutura da
“Revista à Portuguesa”, iria adoptar o Fado, explorando o seu casticismo para
veicular a sátira social e política. Encontraremos tanto os Fados de luta
ideológica como de escárnio e maldizer.
A monarquia foi
pródiga na comicidade fadista, em crítica, tal como a Primeira República também
seguirá esta linha satírica. Seria a ditadura Salazarista, com o seu poder censório
a intentar contra estas liberdades de espírito, a procurar enclausurar o fado
unicamente para o lado negro da alma, balizando a sua evolução na desgraça de
ser português.
O quadro “Fado”
de José Malhoa tem a mesma idade que a nossa República e nele se podem
encontrar as iconografias do ambiente onde germinou o fado, ambiente boémio de
mulheres perdidas e marialvas a trinarem nos seus desejos. Como diria Stuart
Carvalhais numa das suas charges
filosóficas – “Chamam-nos perdidas mas é
connosco que eles se encontram…” Os caricaturistas, de imediato, se
assenhorearam deste quadro, parodiando-o, recriando-o transformando a “mulher
perdida” na “República” e o galã no Zé Povinho, esse bobo da corte eternamente explorado
pelos políticos, pelo poder económico que compra tudo o que for necessário para
seu desfrute pessoal ou de grupo. O Zé nunca conseguirá convencer a
“República”, tanto mais que aqui está agrilhoado para a eternidade nas tintas
ressequidas pelo tempo. O “Fado” satírico-pictoral é a imagem da eterna
frustração do Zé em deleite platónico junto a uma República ideal…
Há humor, há
comicidade na vida do Fado, de forma discreta, menos turística, mas sempre
popular. É verdade que há mais adeptos da tragédia que da comédia. Há mais
prazer nacional em chorar silenciosamente com as “pedras da calçada” do que abafar o som das “guitarras de Alcácer-Quibir” com as gargalhadas. Mas, a vida não é
uma tristeza…
- Silêncio!
Vai-se cantar o Fado!!!
segunda-feira, 11 de janeiro de 2016
domingo, 10 de janeiro de 2016
Se buscan hasta 45 ilustradores para el catálogo-exposición Iberoamérica Ilustra
¿Quiénes pueden participar?
Ilustradores profesionales de
publicaciones infantiles y juveniles nacidos en cualquier país iberoamericano,
sin importar el país de residencia actual, mayores de 21 años.
(Quedan excluidos de la presente
convocatoria el ganador de la edición anterior, los miembros del comité
organizador y los integrantes del jurado, así como el personal del Grupo SM.)
¿Cómo participar?
Los ilustradores podrán participar de
manera individual o en grupo con un mínimo de tres y un máximo de cinco
ilustraciones inéditas y en serie que conformen una secuencia narrativa
consistente y con uniformidad en la que se cuente, a través de imágenes, una
historia con tema libre. Los trabajos no deberán incluir ningún texto y serán
evaluados en conjunto.
- En caso de participar en grupo, se
deberá nombrar a un representante.
- Los interesados deberán completar
debidamente la ficha de registro que se encuentra en el sitiowww.iberoamericailustra.com
- Es necesario llenar correctamente
todos los datos de contacto, incluir una semblanza de máximo 500 caracteres y
la ficha técnica de las ilustraciones (nombre de la serie, título de la
ilustración, medidas y técnica).
- Al completar el registro, cada
participante recibirá una confirmación de inscripción. Una vez recibida, deberá
adjuntar en www.iberoamericailustra.com
sus imágenes en versión digital en
baja resolución (formato JPG, en RGB, a 72 dpis); cada una debe pesar máximo 2
MB.
- Se recomienda considerar la calidad en
pantalla de las imágenes, ya que este será el material que revisará el jurado
durante el fallo.
- Las imágenes con las que participen no
deberán enviarse ni haber sido enviadas a otros concursos que se hayan
celebrado antes o que se celebren de manera simultánea. Del mismo modo, las
obras que se presenten al concurso no deben estar sometidas a evaluación
o dictamen en ninguna editorial, hasta que se emita el fallo del jurado. De lo
contrario, serán descalificadas.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Estúpidos, Maldosos e Semanais. Uma constelação em torno do Charlie Hebdo na Bedeteca da Amadora a partir de 7 de Janeiro
No dia 7 de janeiro, 1 ano após o atentado contra o Charlie Hebdo, a Bedeteca da Amadora inaugura a
exposição “Estúpidos, Maldosos e Semanais. Uma
constelação em torno do Charlie
Hebdo”, a qual estará patente até ao dia 30 de janeiro.
Integrada no programa “Os Cinco Sentidos da Banda
Desenhada”, conta com a curadoria de Pedro Moura, desta feita com a
colaboração de Osvaldo Macedo de Sousa. Trata-se de uma exposição documental dedicada
ao Charlie Hebdo e à
constelação de publicações e autores ligados ao mesmo, acompanhada de uma
mostra de artistas do mundo árabe que têm
sofrido em nome da liberdade de expressão… Parte das publicações foram
gentilmente emprestadas pelos Serviços da Bedeteca da Biblioteca Municipal dos
Olivais.
No próprio dia 7, pelas 20h00, tem lugar uma mesa-redonda
de artistas do cartoon editorial, estando já confirmadas as
presenças de Nuno Saraiva e Rui Pimentel.
Integrado neste evento, realiza-se no dia 23 de janeiro outra
sessão de debate, desta vez no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, de modo a se assinalar
a data da morte do nosso “Pai dos quadradinhos”…
Subscrever:
Mensagens (Atom)













