segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXVI - Kito de Ferreira dos Santos


Ciclo de Tertúlias - Luis filipe e a Farsa da Vida no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa

Ciclo de tertúlias - Luís Filipe e a Farsa da Vida
Entrada Gratuita
Galeria do Museu Bordalo Pinheiro
Campo Grande, 382 - Lisboa

No âmbito da exposição Luís Filipe e a Farsa da Vida, o Museu Bordalo Pinheiro vai apresentar um conjunto de três conversas ao longo do mês de Fevereiro, que abordarão alguns aspetos da vida e obra deste autor tão pouco conhecido do Primeiro Modernismo Português. Assim, a relação entre o Folclore e o Modernismo vai ser debatido no dia 13, o Humorismo e o Modernismo serão o objeto da conversa no dia 18, enquanto no dia 25 iremos enquadrar a obra deste artista na imprensa republicana dos anos 1910.
Para cada um destes temas convidámos especialistas de várias áreas (História, História da Arte, Design, Humor, Antropologia) permitindo assim um melhor conhecimento deste artista que há mais de 100 anos foi um dos pioneiros do Modernismo em Portugal mas que só agora a sua obra é apresentada em Lisboa.
As conversas serão acompanhadas de outras atividades de divulgação da sua obra: uma mostra de trabalhos de alunos de Design do Produto do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, a disponibilização em linha do jornal A Farça, de que Luís Filipe foi Diretor Artístico, pela Hemeroteca Digital ou a apresentação do catálogo da exposição.
Consulte em baixo o programa detalhado:

13 de Fevereiro, sábado, 17 horas O Modernismo e o Folclore
João Soeiro de Carvalho (Musicólogo – subdiretor da Faculdade Ciências Sociais e Humanas /UNL), Carlos Mendes (Antropólogo), Ermanno Aparo e Liliana Soares (Designers - ESTG /Instituo Politécnico de Viana do Castelo)
Terá igualmente lugar a inauguração da mostra Luís Filipe – pixeladas vianenses, com trabalhos inspirados na obra de Luís Filipe feitos pelos alunos do curso de Design do Produto da ESTG /IPVC

18 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas  Modernismo e Humor Gráfico
 Osvaldo Macedo de Sousa (Historiador do Humor e da Caricatura | Humorgrafe)
e Rui Pimentel (Cartoonista)
Antecede a apresentação da disponibilização em linha na Hemeroteca Digital de Lisboa do jornal A Farça (1909 – 1910) de que Luís Filipe foi Diretor Artístico, por João Carlos Oliveira (Hemeroteca Digital / CML) http://hemerotecadigital.cmlisboa.pt/Periodicos/AFarsa/AFarsa.htm

25 de Fevereiro, 5ª feira, 19 horas Imprensa Humorística e República
António Ventura (Historiador - Faculdade de Letras/UL)
e Ana Vasconcelos (Historiadora da Arte Fundação Gulbenkian)
Antecede a apresentação do livro Luís Filipe e a Farsa da Vida da autoria de João Alpuim Botelho, Mariana Caldas de Almeida e Pedro Bebiano Braga

Luís Filipe (1887 – 1949) foi um dos pioneiros do Modernismo em Portugal. A exposição patente no Museu Bordalo Pinheiro Luís Filipe e A Farsa da Vida acompanha o seu percurso artístico, desde os primeiros anos em Coimbra, com o despertar da sua consciência política e social, mas também com a representação de tipos sociais retirados da vida mundana. Foi neste período que publicou o jornal A Farça (1909-1910), um dos primeiros a publicar desenhos modernistas em Portugal, e que faz a ligação ao título desta exposição; os anos que se seguiram à implantação da República, com uma forte presença nos jornais com desenhos acentuadamente políticos, anticlericais e denunciadores de situações de injustiça social; e por fim os desenhos da sua vida adulta, em Viana do Castelo, com caricaturas de figuras locais e representações da cor e movimento do folclore, sempre com um olhar humorístico.

A exposição apresenta também autocaricaturas e obras que outros artistas do grupo de Coimbra lhe dedicaram, como Cristiano Cruz e Almada Negreiros. 

Crónica Rosário Breve O siluro não tem futuro (sermão aos peixes sem Santo António ao barulho) por Daniel Abrunheiro

1. Tenho para mim & por certo que não é cabal a designação de siluro-europeu para a nova praga que assola o imundiciado Tejo da nossa vida tágico-trágica. Não é que esteja errada. É que está incompleta. Falta-lhe especificidade. Siluro-alemão. Assim é que está bem: siluro com alemão a seguir. É peixe tipo gato que come carne? É alemão. Come os espécimenes mais pequenos? É alemão. Nem às avezinhas beira-fluviais permite sossego? É alemão. Até o seu cocó é tóxico quando em aglomerado cardume? É alemão. Tenho provas de que é alemão. Uma metàforazinha me serve de inegável & indesmentível evidência. Esta aqui: O Tejo é Portugal.
2. Portugal é o Tejo. Tal como o Rio sofre de poluentes (olá, Vila Velha de Ródão!; olá, Mação – sim ou não?; olá, Abrantes!; olá, Constância!); tal como o Rio se abaixa de caudal; tal como o Rio é entravado & bloqueado artificialmente por enrediços exploradores desalmados; tal como tudo isto – assim Portugal sofre de ofensas cumulativas ao seu ecossistema financeiro; assim Portugal se abaixa de cócoras para enfermar de atentados incessantes à sua biodiversidade económica; assim à ocidental praia lusitana acode a maré-negra em formato de orca-de-água-não-doce made in Berlim & desovada em Bruxelas com o beneplácito viático de Estrasburgo & de Wall Street.
3. Os Portugueses fazem de sável, de savelha, de saboga, de barbo – mesmo os cuniculófilos. O eixo Berlim-Bruxelas faz de silurus-glanis, que é o nome latino usado para disfarçar aquilo que vos disse: que o siluro é mas é alemão. Mas, ó pessoal piscícola meu compátrio, nota bem que o siluro só é siluro por enquanto. Para nossa haliêutica desgraça, e caso nos obstinemos em democraticamente seguir pela Esquerda, a voraz avantesma há-de passar ao formato do bem pior & famigerado lúcio-perca. Perca a gente a determinação, que assim desgraçadamente será como a gente se perderá.
4. Há muito que a máscara do espantalho teutónico caiu já. Aquela bocarra grande é mesmo para nos comer, à maneira do pedófilo lobo do capuchinho (precisamente, precisamente) vermelho. Ao arrepio da nossa Constituição & ao atropelo da nossa Soberania, o siluro-alemão quer (mais ainda) atirar dentuça omnívora via “alteração estrutural a nível (ou aníbal…) do rigor orçamental”, que é como se diz em economês “mais roubalheira com fartura, que a gente é que sabe, pode e manda”. O lúcio-alemão quer mesmo irrevogáveis (sem ser à PP) as medidas que nos foram coelhamente mentidas como temporárias. O bicho não descansa enquanto nos não infestar a Função Pública e nos não superhipermegagigataxar o IRS. A furtiva besta de fundão fluvial há-de dejectar quanto puder quando em cardume. Há-de continuamente alinhavar equipas técnicas (olá, Octávio Machado!) infamemente capazes de menosprezar quanto vale, sem ser em dinheiro, um centro de saúde, uma escola, um tribunal, uma ponte, um investigador, um enfermeiro, um operário da Rical, um reformado, uma criança.
5. Dispomos todavia de uma esperança sensata. Até leva, ou traz em si, o nome da nossa Capital. Refiro-me à maneirinha boga-de-boca-arqueada-de-Lisboa. É criatura lusitana, tem bebido uns copos e feito umas piscinas ali pelas Ribeiras de Muge e de Almoster, parecendo que no Rio Trancão também. Ora, é minha firme crença e minha férrea disposição que a boga não tem de ter medo do siluro. O siluro é tosco, é gordo, é pesado, é aleijado, é grotesco, é contranatura. O siluro-alemão rima com aberração. A boguinha nossa, não. É miudinha mas é nossa. É quase irrelevante mas é (d)a gente. A semelhança morfológica dela para com afins espécies ciprinídeas é a nossa própria semelhança para connosco mesmos. A boga deve pôr-se em voga. A única modificação que se lhe/nos pede, é esta aqui: que em vez de mandar(mos) bocas arqueadas, mandemos mas é o vozeirão a direito. A boga não pode esquecer-se de que duas vezes no século XX o siluro-alemão se armou em super-espécie invasora – e que duas foram as vezes em que foi arpoado à maneira na corneta. A boga deve acreditar que às três só é de vez quando o peixe se deixa morrer pela boca. Ou quando não passa de carapau-de-corrida.

Ora, a maneira que temos de interditar o futuro ao siluro é fazer-lhe ver, e de vez, que, para quem somos, bacalhau já não basta.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O fenómeno “Parada da Paródia” como semanário de humor por António Gomes de Almeida


Penso que não há exagero em classificar como fenomenal um semanário de Humor que nasceu na sequência do êxito popular de que gozavam os Parodiantes de Lisboa, na década de sessenta do século XX – mas conquistou, por mérito próprio, a sua independência Humorística.
Todos os que trabalham, ou trabalharam, em órgãos da nossa Imprensa Escrita sabem que a edição de revistas e jornais é condicionada por factores comuns a todos eles, e que podem explicar-se deste modo: 1. – As tiragens são, normalmente, pequenas (por razões culturais, porque o País é pequeno, porque há pouca gente com hábitos de leitura – todos conhecemos estas razões); 2. – Nenhuma publicação sobrevive apenas com as receitas das vendas e das assinaturas; 3. – As receitas da publicidade são essenciais para a sobrevivência... Ora bem, estes factores são ainda mais evidentes quando falamos deImprensa Humorística ou Satírica, para a qual os Anunciantes sempre tiveram grande relutância em encaminhar as suas verbas publicitárias, talvez por acharem que “não parece bem” colocar um anúncio de uma empresa “séria” num jornal de Humor…
Todavia, nenhuma destas condicionantes se verificou, no semanário Parada da Paródia.As tiragens foram excelentes, houve lucros, e houve publicidade a um nível muito razoável.
O jornal surgia como complemento impresso daquele Humor que tornara os Parodiantes campeões das audiências radiofónicas, com programas tão populares como o Teatro Trágico, o Vira o Disco e oGraça com Todos, este último acompanhando estrategicamente a hora do almoço dos portugueses, (ainda sem a concorrência da Televisão), e com personagens tão marcantes como Patilhas & VentoínhaJack-Taxas & Cara-Linda, ou o Compadre Alentejano. Parece fácil explicar que o êxito do jornal se basearia, por arrastamento, no êxito da Rádio… Mas essa, sendo a explicação inicial, deixou de o ser à medida que as semanas foram correndo e, após a espectacular tiragem de 54 mil exemplares dos primeiros números, coisa nunca vista até então, as edições estabilizaram à volta de uns excelentes 20 mil exemplares, e só viriam a diminuir um pouco quando parte das atenções do público se desviaram, em 1961, para a Imprensa Diária, por causa das notícias sobre a Guerra Colonial.
Qual é, então, a explicação complementar para o êxito da Parada da Paródia? Sem dúvida, a qualidade dos textos e das ilustrações que apareciam nas suas páginas. E a imaginação, renovada semana após semana, com a edição de números dedicados a temas originais tão inesperados como as Moscas, as Casas de Penhores, as Parteiras, as Bruxas, o Fado, os Guarda-Nocturnos, osQueijos, os Carteiros, as Varinas, a Água – e até o Vinho (este último numa edição impressa a roxo, e contendo um vale que dava direito a ir tomar um copo num estabelecimento do produtor que patrocinava o tema)...
Algumas secções fixas reproduziam temas transpostos da Rádio, como o Rádio-Crime e as paródias aos folhetins radiofónicos; mas outras, para além dessa origem, eram popularíssimas, como ABronca da Semana, o Guichet de Reclamações, o Ficheiro dos Caricaturistas e o Expediente do Director. E foi lançado, entre outras iniciativas, um concurso para eleição da Flausina Modelo, que teve uma adesão invulgar.   
A diferença estava, sem dúvida, no especialíssimo lote de colaboradores – os que escreviam e os que desenhavam – e na qualidade do Humor apresentado.
Mas, antes de falarmos desses aspectos, comecemos pelos pormenores técnicos:
Parada da Paródia foi publicada semanalmente, às quintas-feiras, durante dois anos exactos – do número 1, de 10 de Novembro de 1960, ao número 104, de 1 de Novembro de 1962.
Tinha o formato 31x23 cm, e era impressa em rotativa, em sistema tipográfico, a preto e uma cor, em papel normal de jornal.
Cada exemplar custava vinte e cinco tostões (2 escudos e 50 centavos, o equivalente, em Euros, a menos de 1 cêntimo e meio).  
O primeiro número tinha 16 páginas, 8 das quais a duas cores, mas, logo no número 2, o êxito das vendas obrigou a aumentar o número de páginas para 24. Mais tarde, a partir do número 27 e até ao número 70, passaria a publicar 28 páginas, sendo as 4 suplementares impressas em offset. Do número 71 até final, voltaria às 24 páginas, eliminando as 4 suplementares em offset.
Era impresso na Casa Portuguesa, uma tipografia da Rua das Gáveas, no Bairro Alto, onde também se imprimia, entre outros, o Diário Ilustrado.
QUEM FAZIA A PARADA DA PARÓDIA
É importante recordar a listagem de todos, ou quase todos, os que passaram pela Parada, como apareceram na Ficha Técnica respectiva.
Director - António Gomes de Almeida
Editor - Ruy Andrade
Chefe da Redacção - Manuel Puga
Chefe de Publicidade - José Andrade
Redactores – Matias Redondo (Carlos Pinhão), que escrevia a secção desportiva Meia Bola e Força!Macacão (António Rolo Duarte), que fazia a secção de Espectáculos Ver, Ouvir e Gozar;Flausina (Maria João Duarte) que respondia ao Correio da Flausina; Raúl da Costa, ex-autor de teatro de revista, com colaboração variada; Antero do Quintal e Camilo com E (Antero Nunes e Benjamim Veludo) que escreviam À moda do PortoPepe (Álvaro Magalhães dos Santos), que escrevia As Aventuras do Arnestinho e a Antologia do Pensamento MentalZé que Ri, autor dasBroncas Rimadas – e, de vez em quando, mais alguns.
Para além destes colaboradores, que escreviam as secções fixas, o corpo do jornal era preenchido com textos do Director, do Chefe da Redacção e alguns do Editor.
Quanto aos Desenhadores, nunca se reuniu, num mesmo jornal, um lote tão grande e tão talentoso como este!
O desenhador principal (autor de todas as capas, de muitos cabeçalhos, ilustrações, cartoons e muito mais) era o João Martins, que viera de O Mundo Ri, e que iria, mais tarde, dedicar-se a filmes de desenhos animados, e também a trabalhar como grande ilustrador de A Bola e de o diário, para onde foi levado pelo Carlos Pinhão.
Além deste divertido personagem, a lista dos desenhadores incluía o Túlio Coelho (que transformava em Banda Desenhada as radionovelas do Teatro Trágico); o Manel (Manuel Vieira), que também trabalhava para a RTP; o alentejano Mário Elias, cujo nome seria mais tarde atribuído a uma Casa das Artes em Mértola; o tímido portuense Miranda; o excelente ilustrador Vítor Ribeiro; o José Antunes (que chefiaria depois o sector gráfico da Verbo e o do Círculo de Leitores); o talentoso Zé Manel (filho do artista Meco, e um dos mais talentosos ilustradores deste País, que publicaria aqui os seus primeiros bonecos); o Reinaldo; o animado e meio louco Gustavo Fontoura (que, com o Manuel Puga, publicaria dois volumes de "fotogozos" com o título Puflas); o Moreira Rijo, que trabalhava na RTP; o Vítor Milheirão, chefe do restauro na Gulbenkian, com o seu amigo inseparável, o Ricardo Reis; o João Benamor, que era militar e fazia, nas noites em que estava de serviço no quartel, uns desenhos cheios de minúcia, muito bem acabados; o Mário Jorge, filho e herdeiro do estilo do conhecido Mário Neves, autor de excelentes filmes publicitários para a TV, como os da Laranjina; o Augusto Cid, que já tinha então uma produção e um talento enormes; o Rui Torres, este pouco assíduo; o Yoke, que tinha um estilo original, mas também publicou pouco; o Joes (Jorge Esteves, que mais tarde seria professor na António Arroio, depois de ter sido colaborador na Regisconta); o Ton (António Gomes Ferreira), de Coimbra; o Fausto Boavida; e ainda um Arruda, um Machado, um Toni e um Guerra, que tiveram escassa colaboração; o Helder Martins, sobrinho do João Martins, que mais tarde publicaria o seu frustrado jornal A Chucha; e ainda, na fase inicial, dois outros grandes desenhadores, dos quais se tinham publicado antes os primeiros bonecos, na revistaPicapau: o Vasco (que então ainda assinava Agostinho de Castro), e o Adolfo Feldlaufer, um dos artistas mais originais que ali apareceram, o que veio a comprovar-se mais tarde, no seu trajecto internacional.
Uma lista impressionante!
Faziam ainda parte da equipa os Fotógrafos: o Luís Henriques e os dois profissionais da Publifoto.
Parada da Paródia foi um êxito, logo a partir do primeiro número, que foi um verdadeito estouro! Teve de ser reforçada a edição, à pressa, atingindo-se os 54 mil exemplares, o que era verdadeiramente extraordinário, para a época! Por isso, a partir do número 2, "brindaram-se" os leitores com mais páginas e mais Humor.
As coisas corriam muito bem, em termos de vendas – embora, em 1961, com o início da guerra em Angola, se começasse a notar uma certa quebra. As pessoas andavam inquietas com o que se passava em África, compravam mais jornais diários, por causa da informação, aliás escassa, e estavam menos viradas para publicações deste género. No entanto, tudo indicava que o jornal, do ponto de vista comercial, continuava a ser um excelente negócio.
AS NOITES DE QUINTA-FEIRA NO DÉCIMO-TERCEIRO ANDAR
As reuniões de redacção da Parada da Paródia eram à noite, às quintas-feiras (o dia da semana em que o jornal saía para a rua), no 13º andar do prédio da Avenida dos Estados Unidos da América nº 102, numa grande sala ao lado do estúdio de gravação e dos escritórios das duas firmas associadas: "Parodiantes de Lisboa, Lda.", que geria toda a actividade relacionada com a Rádio e tinha dois sócios, os irmãos Andrade – e "Tela-Parodiantes", que tratava de todos os outros tipos de publicidade.
Eram reuniões animadíssimas, cujo barulho animava os treze pisos do enorme edifício, em cuja base estava instalado um estabelecimento que era uma espécie de "Templo do Cinema Moderno Português" – o Café Vává, centro de convívio de cineastas, jornalistas, músicos e outros artistas.
A ele desciam todos, de corrida, um pouco antes das duas da manhã (que era a hora do encerramento do café), para a última bica. Mas, quase sempre, tornavam a subir, para continuar o trabalho, a conversa e as piadas. Era, sem dúvida, uma redacção muito alegre.
Aparecia sempre muita gente, porque era nesse dia que se combinavam temas para os números seguintes e se distribuíam tarefas. Claro que, na primeira quinta-feira de cada mês, ainda aparecia mais gente – porque era o dia de pagamento das colaborações... Cada peça (texto ou boneco) valia então entre 25 e 50 escudos, o que não era nada mau, em relação ao nível praticado pelos jornais da época. E havia uma folha de colaboradores enorme!
Os ardinas (que ainda existiam, nesse tempo) eram incentivados a gritar, nas ruas, o nome daParada da Paródia. E havia um prémio de cem escudos para aquele que o apregoasse mais alto!
COLABORADORES MUITO ESPECIAIS
Já se viu que a Parada da Paródia tinha muitos colaboradores. Uns tinham mais piada que outros, como é evidente – mas, entre eles, houve quem se tornasse notado por razões que pouco tinham a ver, directamente, com o Humor.
Ao acaso, aqui vão dois episódios: um, de um colaborador da parte escrita; outro, de um desenhista...
Certo dia, recebeu-se na redacção uma carta assinada com o pseudónimo "Zé que Ri", sem mais indicação alguma; nem nome, nem morada – nada. Eram uns versos em forma de gazetilha, muito bem feitos e com muita graça. Ficaram a repousar numa gaveta, à espera de identificação do autor.
Daí a dias, nova carta e novos versos, ainda melhores e ainda com mais graça. E, uma semana depois, outra. Resolveu-se começar a publicar aquilo. Arranjou-se uma secção com o título "Broncas Rimadas" e, semana após semana, foram-se publicando as gazetilhas – que continuavam a vir pelo correio, regularmente. E nós sem sabermos nada do autor! "Mas lá que o tipo tem graça, isso tem! Vê-se que é um rapaz de espírito jovem e arejado!" – era o que todos comentávamos, na redacção.
Até que, um dia, batem à porta e aparece, finalmente, o misterioso "Zé que Ri". Vinha, timidamente, saber se tinha alguma coisa para receber, das suas colaborações. Claro que tinha, e logo lhe foi pago. Só que... para nosso espanto, o "tipo com piada", o "jovem arejado" não era um "tipo" nem era nada jovem; era, sim, uma senhora já entradota, pequenina, feíssima, ainda que muito simpática!...
Quanto ao outro episódio, tem a ver com um dos numerosos desenhadores que por lá apareciam, nas reuniões de redacção. Só que este (cujo nome não se revela, já vão perceber porquê), estava longe de ser das companhias mais apreciadas. É que o rapaz cheirava mal que era uma coisa por de mais! Assim que franqueava a porta da redacção, espalhava-se por toda a vasta sala um fedor impossível de aguentar. Logo alguém corria a abrir as janelas. Qual quê! A intensidade do mau-cheiro superava todas as correntes de ar provocadas para afastá-lo! O pior era no inverno, quando o frio, o vento e a altitude (recordo que estávamos num 13º andar!) nos punham em perigo de substituirmos um valente mau-cheiro por uma valente constipação.
Ainda por cima, o moço não tinha a mínima noção do incómodo que causava. Adivinhava-se que não tomava banho há, pelo menos, um ano – se é que alguma vez experimentara tão insólita operação. A gente lançava indirectas, contava histórias, falava do Luís XV (que constava nunca se ter banhado – mas esse, ao menos, encharcava-se em perfumes, para disfarçar). O nosso desenhista mal-cheiroso nem pestanejava.
Um dia, sabendo que ele fazia anos, resolvemos oferecer-lhe um enorme sabonete, artisticamente embrulhado, com uma dedicatória apropriada. Ele abriu o pacote, desconfiado, e saíu-se com uma frase que nos fez perder toda a esperança de que a situação (e o cheiro) algum dia desaparecessem: "Mas... isto serve para quê?"...
ERA UMA CASA PORTUGUESA...
Enquanto durou a Parada da Paródia, as noites de segunda-feira do Director eram passadas no Bairro Alto. Mas... nada de más interpretações! Embora o local, nessa época, fosse conhecido pela concentração de "casas de meninas" que o infestavam, havia, pelo menos, duas outras características que lhe davam especial interesse: era, igualmente, o bairro onde se encontravam muitas das casas de fados de Lisboa; e, também, a maioria das redacções de jornais, bem como as tipografias.
Uma destas era a "Casa Portuguesa", onde se imprimia a Parada da Paródia. Por isso é que o Director "entrava de serviço" ao fim da tarde de segunda-feira, quando começavam a ficar prontas as provas de texto que era preciso rever, e lá ficava até o jornal estar pronto a entrar na máquina, o que tanto podia verificar-se à meia-noite como às duas da manhã, ou às quatro, como aconteceu muitas vezes. Este "horário de trabalho flexível" dependia da Censura. As provas eram enviadas à medida que estavam prontas e, durante aquele período de tempo, era um corrupio, da tipografia para a Censura e da Censura para a tipografia, até estar tudo devidamente autorizado, com o carimbo oficial aplicado a todas as provas, de texto e de bonecos.
Quando as coisas corriam bem, aquilo despachava-se depressa; mas, quando os senhores Coronéis censores embirravam com qualquer texto, ou qualquer imagem, era mais complicado. Então, era necessário tornar a distribuir o material gráfico, repaginando o jornal e tapando os buracos que tinham surgido. Havia sempre um stock de gravuras soltas, que serviam para isso mesmo: para tapar os buracos que a Censura abria, inventando-se um texto mais ou menos apropriado, que se ajustasse a cada boneco, e mandando recompor aquilo tudo. Era um desafio à capacidade de imaginação e de "desenrascanço" que, nesses tempos, era um factor absolutamente indispensável a quem andava nestas vidas de jornais e revistas.
Isto significava várias horas seguidas em contacto com uma gente muito especial, que nos habituámos a admirar e a respeitar, e com quem sempre gostámos de conviver: os Gráficos. Enquanto se esperava que viessem as provas da Censura, jantávamos juntos numa tasca à esquina da Travessa da Queimada. Depois, enquanto se compunham as últimas legendas, ali se esperava, indicando os tipos a usar, lendo os textos às avessas, nas páginas já meio arrumadas, conversando com os compositores, com os impressores, com o chefe da oficina...
Deste, guarda-se uma lembrança pitoresca. Era o Miranda, um gordo bem-disposto, que usava uma linguagem profissional curiosamente repetitiva, porque, dizia ele: "esta malta, se a gente não explica tudo bem explicadinho, faz disparate”. E então, para indicar a um jovem operador de composição como queria um título, ele dizia assim: "Olha que isso é tudo em versais, ou seja, em caixa alta, portanto, tudo em letra grande, ou seja, em maiúsculas, tás a ouvir? E é um título centrado, mas centrado mesmo ao meio, metade para cada lado, percebeste?"
Nunca se chegou a saber até que ponto isto era propositado, quer dizer, se ele falava desta forma por piada, e se esta linguagem era mesmo assim, deliberadamente tosca. Mas parece que sim, porque havia outros exemplos do seu Humor. Quando, um dia, foi preciso refilar por causa de uma "gralha" que saíra num texto, o Miranda retrucou, calmamente: "Ora, não vale a pena dar tanta importância a isso! Um jornal sem "gralhas" é como a Sofia Loren sem mamas: não tem piada nenhuma!"
OS 5 TOSTÕES DO CONTABILISTA VARELA
O jornal acabou prematuramente. E acabou, não porque não continuasse a ser um êxito de vendas, mas por má gestão dos recursos financeiros da organização. E também por evidente falta de competência do contabilista de então (um pitoresco Sr. Varela, sempre muito preocupado com verbas de tostões, mas sem capacidade para gerir verbas de milhões). E isso provocava alguns problemas de tesouraria. Por outras palavras: não é que faltasse dinheiro, mas os recebimentos e pagamentos eram mal escalonados no tempo.
Ao contrário do que se passa no marketing moderno, as contas, nesse tempo e naquelas circunstâncias, não serviam para se fazer, dia a dia, a gestão do negócio: serviam, isso sim, para – com um atraso de meses ou, mesmo, de anos! – se apresentarem, finalmente, uns balancetes muito bem elaborados, é certo, mas que apenas serviam para se ficar a conhecer o aspecto "histórico" do passado.
Era assim a contabilidade de então. E era assim o contabilista, um senhor muito simpático, uma jóia de pessoa, mas aquilo a que se pode chamar, com propriedade, um atraso de vida… Todas as semanas lhe era feita a pergunta: "Então, senhor Varela, as contas do jornal? Quantos exemplares se estão a vender?" – e, todas as semanas, ele respondia, invariavelmente: "Estou a fazer o balancete, mas há uma diferençazinha..." Era preciso insistir: "Mas, não pode dar uma ideia? Não interessam números exactos, é só para saber, pouco mais ou menos, se estamos a vender vinte mil, quinze mil… ou só quinhentos exemplares! Uma coisa aproximada!" E ele: "Tenho que ver melhor. Há uma diferençazinha de cinco tostões..."
Ao fim de vários meses, a conversa já era aos gritos: "Mas isto, afinal, está a vender ou não está?!" E o senhor Varela: "Há uma diferençazinha. Ando à procura de cinco tostões..." Todos nos oferecíamos para dar, generosamente, dos nossos bolsos, os cinco tostões, para arrumar a questão. Nem pensar! O senhor Varela sorria e repetia: "Só depois de acertar as contas. Há uma diferençazinha..."
Acreditem ou não, esta cena durou meses. Entretanto, os manos Ruy e José Andrade, que se tinham habituado a viver muito à vontade, pois os programas de rádio, nessa altura, davam muito dinheiro, começaram a andar inquietos. É que havia, em cada mês, duas grandes facturas a pagar: a do tempo de antena no RCP (que era sagrada e tinha de ser paga até ao último dia de cada mês) e a da tipografia (que, por uma falta de senso incompreensível, tinham combinado pagar até ao dia 8 seguinte). Claro que, depois do esforço de cobranças de cada fim de mês, era muito difícil, nos escassos 8 dias seguintes, cobrar o suficiente para pagar a gorda factura da tipografia. Por isso, a ideia tonta que se instalou foi esta: "Se é tão difícil arranjar o dinheiro para pagar as despesas do jornal... é porque o jornal não está a dar dinheiro!" E, como o sr. Varela não dava números, por causa dos 5 tostões que faltavam, esta suspeita foi-se transformando em certeza. Um dia, os Andrades convocaram toda a gente e disseram que a Parada da Paródia tinha que acabar.
Argumentar, como, se não havia dados, números, estatísticas? Assim acabou a "Parada da Paródia", ingloriamente... em plena glória editorial! Isto porque, uns seis meses depois, surge o senhor Varela, com um sorriso radiante, uns papéis cheios de algarismos na mão, cantando vitória: "Pronto, aqui estão as contas! Sempre achei a tal diferença dos cinco tostões. E, olhem, sabem uma coisa muito engraçada?... Mesmo nas semanas mais fracas, quando foi aquela coisa da guerra de Angola, o jornal deu sempre lucro! Sempre!"
O senhor Varela já morreu há anos. De morte natural, coitado. Mas, até hoje, ninguém conseguiu explicar o que impediu, naquele dia e naquela hora, o seu assassínio, lançando-o da janela do nosso 13º andar!...
…E aqui está como uma publicação de Humor, que tinha a missão de deitar Humor cá para fora – também viveu, por dentro, situações humorísticas (ainda que, às vezes, de um Humor um tanto ou quanto negro)…

(O autor foi director do jornal “Parada da Paródia”)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Estúpidos? Maldosos? Semanais - Mesa redonda sobre Charlie Hebdo dia 23 no Museu Bordalo Pinheiro em Lisboa


Rosário Breve - É engraçado mas falo a sério por Daniel Abrunheiro


Voltarei, nesta Presidenciais, a votar em Manuel de Arriaga.
É-me despiciendo o facto de o ilustre Terceirense (açoreano da Horta, n. 1840) estar fisicamente defunto desde 1917 – é no mesmo que voto na mesma.
Quero-me representado por uma figura de natural humanismo, de cívicas bondade & benevolência, de regrado carácter, de exemplar sentido de causa & serviço públicos, de alto empenho na justiça social – e, já agora, panteísta, que era como chamavam aos ecólogo-ambientalistas quando ainda era preciso meter deuses ao barulho de rerum natura.
Interessa-me, e muito, que o mais alto magistrado da Nação não seja um ganancioso predador-distribuidor de honras, ribaltas, milhões, clientelas & milhões. O Dr. Manuel de Arriaga não é, seguramente o não foi nem o será, desses. Quando eleito, foi o primeiro a ocupar o Palácio de Belém – mas (note-se isto muito bem) por sua conta. O arrendamento de 100 escudos ao mês era satisfeito pelo bolso dele. Assim como a viatura automóvel que oficializou no cargo: comprou-a ele, acabando de pagá-la a prestações quando já resignara à Presidência. Sim, um homem assim interessa-me. Voltarei (sempre) a votar nele. Não tenho feito outra coisa, aliás. Quando foi do Soares, votei Manuel de Arriaga. Quando foi do (outro) Sampaio, votei Manuel de Arriaga. Quando foi disto, votei Manuel de Arriaga. E tenho ganhado sempre, ao contrário do País.
Sabendo-o adversário tenaz do analfabetismo (o do tempo que foi dele, à volta dos 80%; e o do nosso, que andará à volta do mesmo, evidenciando-se tal conclusão de uma rápida mirada às redes ditas sociais), tenho-o por aposta certa & vencedora nestes nossos tão desdentados dias. Agrada-me, além de tudo o mais, que a sua/dele Lucrécia não seja de Bórgia mas de Brito – e não do Vaticano mas da Ilha do Pico.
Sim, a minha cruzinha plebiscitará sem pestanejo o portador do primeiro Bilhete de Identidade alguma vez emitido pelo novel Registo Civil deste País.

E a quem eventualmente me acuse de eleger um morto, um fantasma, uma assombração, um espectro, uma múmia – ouvirá de mim a defesa acusadora de o mesmo terem feito, em recentes anos, os meus contemporâneos – e por dois mandatos consecutivos. 

Sampaio da Nóvoa


quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXV - XV Salão Luso-Galaico de Caricatura - Douro 2013


Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXV - AmadoraCartoon 2013


Rosário Breve – Expedição por Daniel Abrunheiro

O pico da montanha reverbera no vidro nítido do ar-longe. De cá, mulas & homens, provisões & desejos. Mantimentos longamente acumulados na ideia. Planos que entretiveram vários invernos. Homens & animais em transe de libertação.
Na estalagem toda de madeira, esperam. Toda de madeira excepto a estrutura lareira-chaminé. A mesa longa & larga pode albergar dezasseis comedores, mas os animais comem lá fora.
A Primavera demora o tempo de que precisa. Eles, homens, também; elas, mulas, também. Há um cão: chama-se Rafael e não é moço já.
Os estalajadeiros são o casal Gottlieb: Hermann Gottlieb tem 67 anos e é gordo; Marlene Gottlieb (née Zweig) tem 62 anos e é magra. Dão-se bem, comungam o silêncio retórico de muitos anos de matrimónio construtivo.
Os homens são oito.
Gunther Schwarz é sueco, 28 anos, foi mecânico (de bicicletas).
Telemann Kaltz é alemão, 42, foi aviador (de copos, não de aviões).
Claudio Baresi é suíço do cantão italiano, tem 50 anos, foi pediatra.
Arménio Jordão, português de Sintra, 39, foi rico.
Jelavert Zubizarreta, basco e de 19 anos, estudou enfermagem.
Thomas Osgood é inglês de Yorkshire, 64, foi bibliotecário.
Oleg Mikhaylichenko é russo, 74, foi professor-primário.
E o sénior é Astor Nicopolidis, grego, 85, que não se recorda (ou pretende não recordar-se) do que fez & foi na vida activa.
(Nota do redactor: o tempo verbal que antecede todas & cada uma das oito profissões é o pretérito-perfeito. Não é mera coincidência nem estilístico descuido. É de propósito. E é de propósito porque a ser não voltam aquilo que foram. Estão, os oito, em modo & condição pré-terminal da doença-do-caranguejo. Dispõem de umas muito poucas semanas para que o cancro de vez os desembarace do fardo do nascimento. E é por isso que, supra, foi escrito: “em transe de libertação”.)
E os animais – também? Sim. Também. Chegando os dezasseis seres à montanha, as oito mulas tornar-se-ão libertas. Os homens acamparão para continuar à espera. Quando lá no sopé da majestosa elevação, não terão forças já para qualquer veleidade andina, alpínica ou himalaica. Mas também não há-de ser isso a desconfortá-los, ou a frustrá-los, ou a (di)feri-los. Já só hão-de esperar a espera mesma. Estas coisas são de nenhuma volta a dar-lhes. Estes oito só diferem por ter decidido esperar andando.
Reuniram-se em Istambul, perto do sítio onde ainda agora há poucos dias o sacana dum islamita-radical-suicida deflagrou uma dezena de turistas. Demoraram-se dois dias & duas noites na antiga capital imperial que foi Constantinopla depois de haver sido Bizâncio. Depois, vieram para esta página, perdão, para esta estalagem tão sossegadamente gerida pelos Gottlieb.
Esta noite, jantaram carne prensada, ervilhas, sopa de tomate & marzipã. Ei-los derredor-lume, uns tomando café (Gunther, Claudio, Thomas), outros havendo chá (Oleg, Jelavert) , outros xarope-de-groselha (Telemann, Astor) – e Arménio, vinho tinto aquecido. Antes de subirem para dormir, Claudio sugere que cada um escreva ao seu-alguém (se algum) uma última carta. As oito missivas terão Marlene & Hermann como fidelíssimos-depositários-da-puridade. Uns dizem que sim (Thomas, Telemann, Arménio, Gunther), um diz que não (Jelavert), Oleg & Astor respondem que vão pensar nisso.
Sabe-se agora (sete da manhã mais catorze minutos) que não será já bi-octogonal a expedição terminal-humana. Não pelas mulas, que estão robustas. É que já só sete dos homens respiram – posto que Jelavert, sofrendo de uma marrada mortífera do desespero, se cortou os pulsos antes de afogá-los no balde que faz a vez de autoclismo (é modesta, a albergaria gottliébica).
Nem por isso cancelam a expedição. Ao ar-longe-vidro, a montanha chama-os, um-a-um, pelo nome próprio, à parecença do que nesta mesma redacção acima se fez aquando das enumerações relativas. E como à consciência acontece com a rápida ingestão de ar gelado pelas esponjas pulmonares, o eco amplia os homens: (…) arzzarzzarzz, altztzztzz, ésiésiési, dãoãoão, zgudgudgud, xencoencoenco, ólidislidislidis (…)


Pacientes como budas, as mulas aproveitam para escarvar enquanto esperam, ao passo que o Rafael as azucrina fingindo que lhes morde as assaz delicadas canelas, cena que, apesar de tão divertida & tão preciosa, não constará da carta que por alguma razão Jelavert decidiu não escrever, de si, como se (ou)viu, nem eco deixando. 

Exposição Luis Filipe e a Farsa da Vida no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa até 28 de Fevereiro

Se ainda não teve oportunidade de passar pelo Museu para conhecer a obra de Luís Filipe, anote na agenda: tem até dia 28 de Fevereiro para descobrir um dos pioneiros do Modernismo em Portugal e um artista marcadamente irreverente.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Fado e os humores por Osvaldo Macedo de Sousa

Por: Osvaldo Macedo de Sousa

Fado, a expressão da alma lusa! Este é um cliché defendido por muitos como se fosse nosso destino ter “gosto de ouvir a nossa desgraça”. É verdade que o som do queixume timbra a saudade nos harpejos da guitarra portuguesa e os melismas vocais do fado mas, se este fala da vida de todos nós, o humor também pode ser uma das suas vertentes.
O Fado evoluiu da tristeza feita música, das despedidas dos marinheiros de destino incerto, da saudade dos portos da vida, por vezes “batido” em dança erótica, por vezes gargalhada no sarcasmo da revolta contra as contrariedades, por vezes chorada no álcool. Nasce dum meio castiço, brejeiro, de vidas perdidas e reencontradas na camaradagem da miséria, das tascas onde o ambiente tanto dava para a nostalgia trágica, como para a grosseria cómica, para o riso no grotesco. Esta riqueza de matizes emocionais, de cores melódicas é vivida com maior riqueza no “Fado Vadio” ou nas “Desgarradas” em que o espírito está mais solto para a realidade do momento.
Sendo uma canção ligada às classes operárias, desde logo, a emergente arte da caricatura de imprensa se inspirou neste universo para as suas alegorias de sátira política, tendo como principal cultor Rafael Bordalo Pinheiro.
Também a dramaturgia, na sua requalificação de sobrevivência popular, na estrutura da “Revista à Portuguesa”, iria adoptar o Fado, explorando o seu casticismo para veicular a sátira social e política. Encontraremos tanto os Fados de luta ideológica como de escárnio e maldizer.
A monarquia foi pródiga na comicidade fadista, em crítica, tal como a Primeira República também seguirá esta linha satírica. Seria a ditadura Salazarista, com o seu poder censório a intentar contra estas liberdades de espírito, a procurar enclausurar o fado unicamente para o lado negro da alma, balizando a sua evolução na desgraça de ser português.
O quadro “Fado” de José Malhoa tem a mesma idade que a nossa República e nele se podem encontrar as iconografias do ambiente onde germinou o fado, ambiente boémio de mulheres perdidas e marialvas a trinarem nos seus desejos. Como diria Stuart Carvalhais numa das suas charges filosóficas – “Chamam-nos perdidas mas é connosco que eles se encontram…” Os caricaturistas, de imediato, se assenhorearam deste quadro, parodiando-o, recriando-o transformando a “mulher perdida” na “República” e o galã no Zé Povinho, esse bobo da corte eternamente explorado pelos políticos, pelo poder económico que compra tudo o que for necessário para seu desfrute pessoal ou de grupo. O Zé nunca conseguirá convencer a “República”, tanto mais que aqui está agrilhoado para a eternidade nas tintas ressequidas pelo tempo. O “Fado” satírico-pictoral é a imagem da eterna frustração do Zé em deleite platónico junto a uma República ideal…
Há humor, há comicidade na vida do Fado, de forma discreta, menos turística, mas sempre popular. É verdade que há mais adeptos da tragédia que da comédia. Há mais prazer nacional em chorar silenciosamente com as “pedras da calçada” do que abafar o som das “guitarras de Alcácer-Quibir” com as gargalhadas. Mas, a vida não é uma tristeza…

- Silêncio! Vai-se cantar o Fado!!!

domingo, 10 de janeiro de 2016

Se buscan hasta 45 ilustradores para el catálogo-exposición Iberoamérica Ilustra

¿Quiénes pueden participar?
Ilustradores profesionales de publicaciones infantiles y juveniles nacidos en cualquier país iberoamericano, sin importar el país de residencia actual, mayores de 21 años.
(Quedan excluidos de la presente convocatoria el ganador de la edición anterior, los miembros del comité organizador y los integrantes del jurado, así como el personal del Grupo SM.)
¿Cómo participar?
Los ilustradores podrán participar de manera individual o en grupo con un mínimo de tres y un máximo de cinco ilustraciones inéditas y en serie que conformen una secuencia narrativa consistente y con uniformidad en la que se cuente, a través de imágenes, una historia con tema libre. Los trabajos no deberán incluir ningún texto y serán evaluados en conjunto.
- En caso de participar en grupo, se deberá nombrar a un representante.
- Los interesados deberán completar debidamente la ficha de registro que se encuentra en el sitiowww.iberoamericailustra.com
- Es necesario llenar correctamente todos los datos de contacto, incluir una semblanza de máximo 500 caracteres y la ficha técnica de las ilustraciones (nombre de la serie, título de la ilustración, medidas y técnica).
- Al completar el registro, cada participante recibirá una confirmación de inscripción. Una vez recibida, deberá adjuntar en www.iberoamericailustra.com
 sus imágenes en versión digital en baja resolución (formato JPG, en RGB, a 72 dpis); cada una debe pesar máximo 2 MB.
- Se recomienda considerar la calidad en pantalla de las imágenes, ya que este será el material que revisará el jurado durante el fallo.

- Las imágenes con las que participen no deberán enviarse ni haber sido enviadas a otros concursos que se hayan celebrado antes o que se celebren de manera simultánea. Del mismo modo, las obras que se presenten al concurso no  deben estar sometidas a evaluación o dictamen en ninguna editorial, hasta que se emita el fallo del jurado. De lo contrario, serán descalificadas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Estúpidos, Maldosos e Semanais. Uma constelação em torno do Charlie Hebdo na Bedeteca da Amadora a partir de 7 de Janeiro


 No dia 7 de janeiro, 1 ano após o atentado contra o Charlie Hebdo, a Bedeteca da Amadora inaugura a exposiçãoEstúpidos, Maldosos e Semanais. Uma constelação em torno do Charlie Hebdo”, a qual estará patente até ao dia 30 de janeiro.
Integrada no programaOs Cinco Sentidos da Banda Desenhada”, conta com a curadoria de Pedro Moura, desta feita com a colaboração de Osvaldo Macedo de Sousa. Trata-se de uma exposição documental dedicada ao Charlie Hebdo e à constelação de publicações e autores ligados ao mesmo, acompanhada de uma mostra de artistas do mundo árabe que têm sofrido em nome da liberdade de expressão… Parte das publicações foram gentilmente emprestadas pelos Serviços da Bedeteca da Biblioteca Municipal dos Olivais.
No próprio dia 7, pelas 20h00, tem lugar uma mesa-redonda de artistas do cartoon editorial, estando já confirmadas as presenças de Nuno Saraiva e Rui Pimentel.

Integrado neste evento, realiza-se no dia 23 de janeiro outra sessão de debate, desta vez no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, de modo a se assinalar a data da morte do nosso “Pai dos quadradinhos”…

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXIII - Fernando Correia Dias um poeta do Traço - Ed. Batel / Rio de Janeiro 2013




Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXII - Álbum de Figuras Caldenses de Vasco Trancoso, 1991


Happy new Year de Fernando Ruibal


Rosário Breve - Cesário Laranja por Daniel Abrunheiro

Vou esta manhã à minha terra. É pelo funeral de uma senhora-mãe de gente da minha criação. Mais uma, menos uma. A prova-dos-nove é consabida.
Ainda lá não cheguei. Preparo em casa a expedição. Preciso de coisas mínimas, que passo a enumerar: lápis, afiadeira, caderno pequeno, Cesário Verde em edição-de-bolso; sapatos pretos, casaco melhorzito dos dois que tenho, gorro tapa-orelhas, suspensórios cor-de-ceroula; pacote de bolachas-baunilha, laranja, rebuçados de anis, garrafinha de sovaco sem ser com água; moedas para dois cafés, óculos de perder ao perto & ao longe, número de telefone da minha Senhora escrito em vários papéis espalhados pelos bolsos, medalhinha-de-São-Cristóvão para afugentar os azares de andar um dia inteiro fora de casa; cartão de sócio dos Bombeiros, fotografia de um cão que tive & a que ainda pertenço, lembrança do nome das ruas primevas, fixação do meu próprio nome para quando, no cemitério, as mulheres mais velhas me perguntarem qual dos sete da D.ª Hermínia é que eu sou afinal.
Estou agora a sair de casa. Frescote das sete da manhã. Gasto a penúltima moeda no primeiro café. Atiro-me pela beira-rio, faço a azinhaga dos plátanos, saúdo os patos, desemboco na praça da antiga moagem. Adquiro-me o bilhete, aproveito o jornal velho que dormia aos pés de um sem-abrigo caído em combate no banco-de-espera da gare, folheio a perpétua inactualidade do real, como a primeira baunilha. Embarco. Viagem espacial: vórtice-continuum feito de estrelas apeadas, berma-árvores velocíssimas, pastagens salpicadas de ovelhas como poalha de diamantes, colinas-constelações, oficinas-auto com os nomes dos donos em manchete. Pouca gente na minha nave: um rapazola de phones autistas, um cavalheiro de hepática amarelidão, um casal sem alegria de o ser e o motorista, cujos tufos de pêlo peitoral lutam para estoirar os botões da camisa. Pela énemilésima vez, o meu Cesário ajuda a regateira de verduras a içar a giga do chão.
Estou chegando: eis o Mondego do Joaquim Jorge. A Cidade, num clarão de postal, faz-me bem de imediato. Conheço isto tudo. Cada canto me é episódico. Disponho de alguém conhecido por cada rua onde me vi sozinho. As pombas são as mesmas de há cinquenta anos. Já não há fábrica de artefactos de borracha, mas a paragem do autocarro é na mesma em frente a ela. Ali é a fábrica dos bilhetes-de-identidade. Além é onde se matou o filho do fotógrafo. Mais aquém, a parede da loja de ferragens continua manchada da sombra que lhe imprimiu a passagem de uma rapariga muito branca, muito vestida de azul, em 1977. Mas eis que eis o autocarro. Agora sim, muita gente. Rostos meus: o Serafim da Preciosa, que está reformado dos serviços municipalizados; a viúva do carteiro Arnaldo, que anda amigada, dizem as melhores-línguas, com o Antunes da serração; as netitas gémeas de um que foi polícia e depois preso e depois não se sabe que seja feito dele; e o motorista ser mulher chapa-me de repente o que isto mudou.
Apeio-me na minha Rua. Estou pronto.

Fiz bem em deixar a laranja como paga do jornal ao homem.