quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXV - AmadoraCartoon 2013


Rosário Breve – Expedição por Daniel Abrunheiro

O pico da montanha reverbera no vidro nítido do ar-longe. De cá, mulas & homens, provisões & desejos. Mantimentos longamente acumulados na ideia. Planos que entretiveram vários invernos. Homens & animais em transe de libertação.
Na estalagem toda de madeira, esperam. Toda de madeira excepto a estrutura lareira-chaminé. A mesa longa & larga pode albergar dezasseis comedores, mas os animais comem lá fora.
A Primavera demora o tempo de que precisa. Eles, homens, também; elas, mulas, também. Há um cão: chama-se Rafael e não é moço já.
Os estalajadeiros são o casal Gottlieb: Hermann Gottlieb tem 67 anos e é gordo; Marlene Gottlieb (née Zweig) tem 62 anos e é magra. Dão-se bem, comungam o silêncio retórico de muitos anos de matrimónio construtivo.
Os homens são oito.
Gunther Schwarz é sueco, 28 anos, foi mecânico (de bicicletas).
Telemann Kaltz é alemão, 42, foi aviador (de copos, não de aviões).
Claudio Baresi é suíço do cantão italiano, tem 50 anos, foi pediatra.
Arménio Jordão, português de Sintra, 39, foi rico.
Jelavert Zubizarreta, basco e de 19 anos, estudou enfermagem.
Thomas Osgood é inglês de Yorkshire, 64, foi bibliotecário.
Oleg Mikhaylichenko é russo, 74, foi professor-primário.
E o sénior é Astor Nicopolidis, grego, 85, que não se recorda (ou pretende não recordar-se) do que fez & foi na vida activa.
(Nota do redactor: o tempo verbal que antecede todas & cada uma das oito profissões é o pretérito-perfeito. Não é mera coincidência nem estilístico descuido. É de propósito. E é de propósito porque a ser não voltam aquilo que foram. Estão, os oito, em modo & condição pré-terminal da doença-do-caranguejo. Dispõem de umas muito poucas semanas para que o cancro de vez os desembarace do fardo do nascimento. E é por isso que, supra, foi escrito: “em transe de libertação”.)
E os animais – também? Sim. Também. Chegando os dezasseis seres à montanha, as oito mulas tornar-se-ão libertas. Os homens acamparão para continuar à espera. Quando lá no sopé da majestosa elevação, não terão forças já para qualquer veleidade andina, alpínica ou himalaica. Mas também não há-de ser isso a desconfortá-los, ou a frustrá-los, ou a (di)feri-los. Já só hão-de esperar a espera mesma. Estas coisas são de nenhuma volta a dar-lhes. Estes oito só diferem por ter decidido esperar andando.
Reuniram-se em Istambul, perto do sítio onde ainda agora há poucos dias o sacana dum islamita-radical-suicida deflagrou uma dezena de turistas. Demoraram-se dois dias & duas noites na antiga capital imperial que foi Constantinopla depois de haver sido Bizâncio. Depois, vieram para esta página, perdão, para esta estalagem tão sossegadamente gerida pelos Gottlieb.
Esta noite, jantaram carne prensada, ervilhas, sopa de tomate & marzipã. Ei-los derredor-lume, uns tomando café (Gunther, Claudio, Thomas), outros havendo chá (Oleg, Jelavert) , outros xarope-de-groselha (Telemann, Astor) – e Arménio, vinho tinto aquecido. Antes de subirem para dormir, Claudio sugere que cada um escreva ao seu-alguém (se algum) uma última carta. As oito missivas terão Marlene & Hermann como fidelíssimos-depositários-da-puridade. Uns dizem que sim (Thomas, Telemann, Arménio, Gunther), um diz que não (Jelavert), Oleg & Astor respondem que vão pensar nisso.
Sabe-se agora (sete da manhã mais catorze minutos) que não será já bi-octogonal a expedição terminal-humana. Não pelas mulas, que estão robustas. É que já só sete dos homens respiram – posto que Jelavert, sofrendo de uma marrada mortífera do desespero, se cortou os pulsos antes de afogá-los no balde que faz a vez de autoclismo (é modesta, a albergaria gottliébica).
Nem por isso cancelam a expedição. Ao ar-longe-vidro, a montanha chama-os, um-a-um, pelo nome próprio, à parecença do que nesta mesma redacção acima se fez aquando das enumerações relativas. E como à consciência acontece com a rápida ingestão de ar gelado pelas esponjas pulmonares, o eco amplia os homens: (…) arzzarzzarzz, altztzztzz, ésiésiési, dãoãoão, zgudgudgud, xencoencoenco, ólidislidislidis (…)


Pacientes como budas, as mulas aproveitam para escarvar enquanto esperam, ao passo que o Rafael as azucrina fingindo que lhes morde as assaz delicadas canelas, cena que, apesar de tão divertida & tão preciosa, não constará da carta que por alguma razão Jelavert decidiu não escrever, de si, como se (ou)viu, nem eco deixando. 

Exposição Luis Filipe e a Farsa da Vida no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa até 28 de Fevereiro

Se ainda não teve oportunidade de passar pelo Museu para conhecer a obra de Luís Filipe, anote na agenda: tem até dia 28 de Fevereiro para descobrir um dos pioneiros do Modernismo em Portugal e um artista marcadamente irreverente.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O Fado e os humores por Osvaldo Macedo de Sousa

Por: Osvaldo Macedo de Sousa

Fado, a expressão da alma lusa! Este é um cliché defendido por muitos como se fosse nosso destino ter “gosto de ouvir a nossa desgraça”. É verdade que o som do queixume timbra a saudade nos harpejos da guitarra portuguesa e os melismas vocais do fado mas, se este fala da vida de todos nós, o humor também pode ser uma das suas vertentes.
O Fado evoluiu da tristeza feita música, das despedidas dos marinheiros de destino incerto, da saudade dos portos da vida, por vezes “batido” em dança erótica, por vezes gargalhada no sarcasmo da revolta contra as contrariedades, por vezes chorada no álcool. Nasce dum meio castiço, brejeiro, de vidas perdidas e reencontradas na camaradagem da miséria, das tascas onde o ambiente tanto dava para a nostalgia trágica, como para a grosseria cómica, para o riso no grotesco. Esta riqueza de matizes emocionais, de cores melódicas é vivida com maior riqueza no “Fado Vadio” ou nas “Desgarradas” em que o espírito está mais solto para a realidade do momento.
Sendo uma canção ligada às classes operárias, desde logo, a emergente arte da caricatura de imprensa se inspirou neste universo para as suas alegorias de sátira política, tendo como principal cultor Rafael Bordalo Pinheiro.
Também a dramaturgia, na sua requalificação de sobrevivência popular, na estrutura da “Revista à Portuguesa”, iria adoptar o Fado, explorando o seu casticismo para veicular a sátira social e política. Encontraremos tanto os Fados de luta ideológica como de escárnio e maldizer.
A monarquia foi pródiga na comicidade fadista, em crítica, tal como a Primeira República também seguirá esta linha satírica. Seria a ditadura Salazarista, com o seu poder censório a intentar contra estas liberdades de espírito, a procurar enclausurar o fado unicamente para o lado negro da alma, balizando a sua evolução na desgraça de ser português.
O quadro “Fado” de José Malhoa tem a mesma idade que a nossa República e nele se podem encontrar as iconografias do ambiente onde germinou o fado, ambiente boémio de mulheres perdidas e marialvas a trinarem nos seus desejos. Como diria Stuart Carvalhais numa das suas charges filosóficas – “Chamam-nos perdidas mas é connosco que eles se encontram…” Os caricaturistas, de imediato, se assenhorearam deste quadro, parodiando-o, recriando-o transformando a “mulher perdida” na “República” e o galã no Zé Povinho, esse bobo da corte eternamente explorado pelos políticos, pelo poder económico que compra tudo o que for necessário para seu desfrute pessoal ou de grupo. O Zé nunca conseguirá convencer a “República”, tanto mais que aqui está agrilhoado para a eternidade nas tintas ressequidas pelo tempo. O “Fado” satírico-pictoral é a imagem da eterna frustração do Zé em deleite platónico junto a uma República ideal…
Há humor, há comicidade na vida do Fado, de forma discreta, menos turística, mas sempre popular. É verdade que há mais adeptos da tragédia que da comédia. Há mais prazer nacional em chorar silenciosamente com as “pedras da calçada” do que abafar o som das “guitarras de Alcácer-Quibir” com as gargalhadas. Mas, a vida não é uma tristeza…

- Silêncio! Vai-se cantar o Fado!!!

domingo, 10 de janeiro de 2016

Se buscan hasta 45 ilustradores para el catálogo-exposición Iberoamérica Ilustra

¿Quiénes pueden participar?
Ilustradores profesionales de publicaciones infantiles y juveniles nacidos en cualquier país iberoamericano, sin importar el país de residencia actual, mayores de 21 años.
(Quedan excluidos de la presente convocatoria el ganador de la edición anterior, los miembros del comité organizador y los integrantes del jurado, así como el personal del Grupo SM.)
¿Cómo participar?
Los ilustradores podrán participar de manera individual o en grupo con un mínimo de tres y un máximo de cinco ilustraciones inéditas y en serie que conformen una secuencia narrativa consistente y con uniformidad en la que se cuente, a través de imágenes, una historia con tema libre. Los trabajos no deberán incluir ningún texto y serán evaluados en conjunto.
- En caso de participar en grupo, se deberá nombrar a un representante.
- Los interesados deberán completar debidamente la ficha de registro que se encuentra en el sitiowww.iberoamericailustra.com
- Es necesario llenar correctamente todos los datos de contacto, incluir una semblanza de máximo 500 caracteres y la ficha técnica de las ilustraciones (nombre de la serie, título de la ilustración, medidas y técnica).
- Al completar el registro, cada participante recibirá una confirmación de inscripción. Una vez recibida, deberá adjuntar en www.iberoamericailustra.com
 sus imágenes en versión digital en baja resolución (formato JPG, en RGB, a 72 dpis); cada una debe pesar máximo 2 MB.
- Se recomienda considerar la calidad en pantalla de las imágenes, ya que este será el material que revisará el jurado durante el fallo.

- Las imágenes con las que participen no deberán enviarse ni haber sido enviadas a otros concursos que se hayan celebrado antes o que se celebren de manera simultánea. Del mismo modo, las obras que se presenten al concurso no  deben estar sometidas a evaluación o dictamen en ninguna editorial, hasta que se emita el fallo del jurado. De lo contrario, serán descalificadas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Estúpidos, Maldosos e Semanais. Uma constelação em torno do Charlie Hebdo na Bedeteca da Amadora a partir de 7 de Janeiro


 No dia 7 de janeiro, 1 ano após o atentado contra o Charlie Hebdo, a Bedeteca da Amadora inaugura a exposiçãoEstúpidos, Maldosos e Semanais. Uma constelação em torno do Charlie Hebdo”, a qual estará patente até ao dia 30 de janeiro.
Integrada no programaOs Cinco Sentidos da Banda Desenhada”, conta com a curadoria de Pedro Moura, desta feita com a colaboração de Osvaldo Macedo de Sousa. Trata-se de uma exposição documental dedicada ao Charlie Hebdo e à constelação de publicações e autores ligados ao mesmo, acompanhada de uma mostra de artistas do mundo árabe que têm sofrido em nome da liberdade de expressão… Parte das publicações foram gentilmente emprestadas pelos Serviços da Bedeteca da Biblioteca Municipal dos Olivais.
No próprio dia 7, pelas 20h00, tem lugar uma mesa-redonda de artistas do cartoon editorial, estando já confirmadas as presenças de Nuno Saraiva e Rui Pimentel.

Integrado neste evento, realiza-se no dia 23 de janeiro outra sessão de debate, desta vez no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, de modo a se assinalar a data da morte do nosso “Pai dos quadradinhos”…

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXIII - Fernando Correia Dias um poeta do Traço - Ed. Batel / Rio de Janeiro 2013




Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCXII - Álbum de Figuras Caldenses de Vasco Trancoso, 1991


Happy new Year de Fernando Ruibal


Rosário Breve - Cesário Laranja por Daniel Abrunheiro

Vou esta manhã à minha terra. É pelo funeral de uma senhora-mãe de gente da minha criação. Mais uma, menos uma. A prova-dos-nove é consabida.
Ainda lá não cheguei. Preparo em casa a expedição. Preciso de coisas mínimas, que passo a enumerar: lápis, afiadeira, caderno pequeno, Cesário Verde em edição-de-bolso; sapatos pretos, casaco melhorzito dos dois que tenho, gorro tapa-orelhas, suspensórios cor-de-ceroula; pacote de bolachas-baunilha, laranja, rebuçados de anis, garrafinha de sovaco sem ser com água; moedas para dois cafés, óculos de perder ao perto & ao longe, número de telefone da minha Senhora escrito em vários papéis espalhados pelos bolsos, medalhinha-de-São-Cristóvão para afugentar os azares de andar um dia inteiro fora de casa; cartão de sócio dos Bombeiros, fotografia de um cão que tive & a que ainda pertenço, lembrança do nome das ruas primevas, fixação do meu próprio nome para quando, no cemitério, as mulheres mais velhas me perguntarem qual dos sete da D.ª Hermínia é que eu sou afinal.
Estou agora a sair de casa. Frescote das sete da manhã. Gasto a penúltima moeda no primeiro café. Atiro-me pela beira-rio, faço a azinhaga dos plátanos, saúdo os patos, desemboco na praça da antiga moagem. Adquiro-me o bilhete, aproveito o jornal velho que dormia aos pés de um sem-abrigo caído em combate no banco-de-espera da gare, folheio a perpétua inactualidade do real, como a primeira baunilha. Embarco. Viagem espacial: vórtice-continuum feito de estrelas apeadas, berma-árvores velocíssimas, pastagens salpicadas de ovelhas como poalha de diamantes, colinas-constelações, oficinas-auto com os nomes dos donos em manchete. Pouca gente na minha nave: um rapazola de phones autistas, um cavalheiro de hepática amarelidão, um casal sem alegria de o ser e o motorista, cujos tufos de pêlo peitoral lutam para estoirar os botões da camisa. Pela énemilésima vez, o meu Cesário ajuda a regateira de verduras a içar a giga do chão.
Estou chegando: eis o Mondego do Joaquim Jorge. A Cidade, num clarão de postal, faz-me bem de imediato. Conheço isto tudo. Cada canto me é episódico. Disponho de alguém conhecido por cada rua onde me vi sozinho. As pombas são as mesmas de há cinquenta anos. Já não há fábrica de artefactos de borracha, mas a paragem do autocarro é na mesma em frente a ela. Ali é a fábrica dos bilhetes-de-identidade. Além é onde se matou o filho do fotógrafo. Mais aquém, a parede da loja de ferragens continua manchada da sombra que lhe imprimiu a passagem de uma rapariga muito branca, muito vestida de azul, em 1977. Mas eis que eis o autocarro. Agora sim, muita gente. Rostos meus: o Serafim da Preciosa, que está reformado dos serviços municipalizados; a viúva do carteiro Arnaldo, que anda amigada, dizem as melhores-línguas, com o Antunes da serração; as netitas gémeas de um que foi polícia e depois preso e depois não se sabe que seja feito dele; e o motorista ser mulher chapa-me de repente o que isto mudou.
Apeio-me na minha Rua. Estou pronto.

Fiz bem em deixar a laranja como paga do jornal ao homem. 

sábado, 26 de dezembro de 2015

Feliz Natal, Feliz Ano Novo; Buon Natale, Buon Anno Nuovo; Joyeux Noël, Bonne Année; Merry Christmas, Happy New Year; Frohe Weihnachten; Craciun Fericit, un An Nou Fericit; Feliz Navidad, Feliz Año Nuevo in Cartoon

 Ricardo Campus
 Damaso Afonso
 Alexandre Trindade
 Artur Ferreira
 Carlos Rico
 Eugenio Soares
 Herminio Felizardo
 João Mascarenhas
 Luis Frasco
 Mario Teixeira
 Paulo Fernandes
 Pedro Manaças
 Per - Arco da Velha
 Rui Duarte
 Telmo Quadros
Jornal Trevim /Ze Oliveira

domingo, 20 de dezembro de 2015

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Feliz natal / Feliz Ano Novo


Crónica Rosário Breve - R. & A. mas é por Daniel Abrunheiro

Crónica Rosário Breve -  R. & A. mas é por Daniel Abrunheiro

Às 08h43m de quarta-feira, 16 de Dezembro de 2015, Cavaco ainda não tinha aparecido a garantir aos Portugueses que o BANIF merece toda a confiança pela óbvia razão de porque-sim. E todos sabemos que o senhor Silva e a Madeira se entendem bem, sempre se entenderam bem, que são panela & testo, Roque & Amiga, etc. & etc. E quão ele é infalível guru em imbróglios económico-financeiros. E quão nada duvidosos são os seus enganos, aliás nenhuns, jamais-em-tempo-algum. E quão a Academia sueca já há q’anos o deveria ter nobelizado – se não com a Economia, ao menos com a Paz. Ou com a Literatura, que o Churchill também dela foi agraciado – e mais era gordo e bebia e fumava.  
Às 08h56m da mesma matina, o facialmente barbado mas politicamente imberbe edil de Santarém ainda não tinha percebido a relação causa-efeito entre estudo de mobilidade e estado de imobilidade. Nem que o pandemónio evitável da Estrada da Estação é um atestado a céu-aberto de que a puerícia e a política autárquica não são panela & testo, Roque & Amiga, etc. & etc.
Às 09h03m, a entrevista de Sócrates à antiga têvê da Igreja ainda não tinha atingido as duas centenas e meia de repetições, o que é estranho. Muito estranho, aliás – posto estarmos na quadra em que estamos, acreditar no Pai Natal sempre nos faz mais bem do que mal.
Às 09h11m, a rábula triste do 2.º aniversário da morte dos praxados do Meco já não comovia nem revoltava senão os pais dos afogados – pela economia da comiseração, talvez. Ou pela saturação colectiva de um “jornalismo” baseado em ora-a-desgraça-seguinte-ó-fáxavôr. Ou porque as licenciaturas à la Lusófona não obstam a uma carreira no Ministério Público, muito pelo contrário talvez até.
Às 09h23m, um pardal pousou na grade do meu terraço. Cessei imediatamente de mexer-me. Nem um caracter crónico inscrevi no papel virtual enquanto aquele atirador de voos livres sentinelava a realidade a partir do meu promontório de terceiro-andar. Foi só quando partiu que voltei a contar minutos, esses grãos de areia que ao rio da vida assoreiam.
Às 09h29m, os agricultores de horta-para-a-panela (sem testo) ainda não eram licenciados todos em Fito-Farmácia, nem mestrados em Nitrato-do-Chile, muito menos doutorados em Couves-Esquizofrénicas-de-Bruxelas, havendo inclusivamente a suspeita de nem todos terem, sequer, o 12.º novo-oportunista das vacas-mais-gordas daquele senhor que está sempre a passar na TVI.
Às 09h32m, enrolei um mata-ratos e fui cuspinhar fumo & pedacitos de tabaco para o terraço onde há pouco o pardal. Era amena a temperatura, temperada a luz, luminosa a realidade. Mas atenção: é da realidade das 09h23m que falo. Levei trinca-de-arroz para o varandim. Pode ser que a ave volte.
Se voltar, faz de minha Amiga.
E eu faço de Roque só para ela.

O resto, que se banife mas é. 

Que é feito dos nossos jornais de humor? por António Gomes de Almeida


Segundo um Humorista cujo nome se perdeu no esquecimento, “Humor é uma faca sem lâmina, à qual falta o cabo”... Isto quer dizer, entre outras coisas, que o Humor é algo muito difícil de definir. Mas... interessará mesmo defini-lo? Será isso importante?...
Na verdade, mais importante do que definir o Humor, é praticá-lo. O que não acontece com tanta frequência como seria desejável. O Homem é o único animal que tem a capacidade de rir  – mas ri muito pouco. Talvez porque, embora possa rir, não deixa de ser um animal. 
Humor, do Latim humore, é uma forma de divertimento e de comunicação humana, que faz com que as pessoas se sintam felizes. As origens da palavra "Humor" vêm da medicina humoral dos antigos Gregos, que trata de uma mistura de fluidos, ou humores, que controlam a saúde e as emoções.
O Humor é uma revolta em que as armas são o Riso, a Troça, o Escárnio, com as quais se faz o combate ao Ridículo, à Imbecilidade e à Prepotência. É um combate um tanto desigual, pois os Humoristas são muito menos numerosos que os seus adversários. Os Prepotentes, os Imbecis e os Ridículos estão em ampla maioria e têm muita força neste mundo. No entanto, os Humoristas constituem (segundo uma terminologia muito na moda) uma Minoria Esclarecida, capaz de mobilizar as massas para o combate a essas forças retrógradas.
É por isso que os Humoristas, como todas as forças minoritárias, são geralmente mal vistos por quem manda. Porque constituem um perigo para a sua estabilidade, para a sua imagem pública, para o alto conceito que têm de si próprios.
Uma boa piada, no momento próprio, pode derrotar o mais valente general.
Mas os Humoristas são anti-violência. Não acreditam no uso da força. Os verdadeiros Humoristas só acreditam na força do Humor para conseguir melhorar a vida. E crêem que Humor com Humor se paga.
Para dar um toque erudito a esta crónica, talvez valha a pena citar São Tomás de Aquino, que dizia (no século XII): “Ludus est necessarius ad conversationem humanae vitae”  –  “O humor é necessário para a vida humana”, e ainda que o Humor seria importante para as “forças do espírito”.
Claro que esta não era, nem foi, durante séculos, a opinião da maioria das forças políticas, nem das forças religiosas, que sempre acharam o Riso uma coisa perniciosa. Lembram-se do “Nome da Rosa”? Umberto Eco conta-nos a história de uns livros que haviam sido proibidos pelo Vaticano, por conterem um estudo de Aristóteles sobre o Riso.
Já foram feitos muitos estudos académicos, sérios, sobre o Humor, nas suas variadas formas, que incluem a Ironia, a Sátira, a Paródia, a simples Anedota. Até  Sigmund Freud escreveu uma obra intitulada “O chiste e a sua relação com o inconsciente”, em que o pai da Psicanálise dividia as piadas em duas categorias básicas: as “ingénuas”, que utilizam jogos de palavras, e as “tendenciosas”, que apresentam um aspecto erótico ou preconceituoso. Nas primeiras, o Humor não estaria no conteúdo, mas no trocadilho, enquanto nas segundas ele consistiria no gozo dos estereótipos ou das diferenças.
Isto parece complicado? Com Freud, tudo era complicado. Mas houve um Humorista português, que teve algum êxito em meados  do século XX, chamado Santos Fernando, que tinha uma definição muito mais acessível. Dizia ele que “só existem vinte anedotas básicas  – e estão todas na Bíblia”. E explicava que as anedotas vivem, sobretudo, de situações, umas insólitas, outras corriqueiras, mas sempre repetidas: a situação de conflito entre o homem e a mulher; ou entre o marido, a mulher e a maldita sogra; a situação do avarento (judeu, ou, em alternativa, escocês) que não empresta dinheiro a ninguém; a situação de conflito entre o santo e o pecador; e outras semelhantes, que vão sofrendo variações no decorrer dos tempos, adaptando-se a novas personagens e a novas linguagens  – mas sempre com as mesmas piadas basilares.   
Do ponto de vista médico, o Riso é considerado saudável, pois liberta endorfina (uma proteína produzida no cérebro, que produz sensação de bem-estar), diminuindo a pressão arterial e aliviando a dor.
Se os dirigentes políticos tivessem mais senso de Humor, nunca haveria guerras. Infelizmente, como já se disse, poucos o têm. Por isso fazem e dizem coisas tão estúpidas. Assim, é de encarar muito a sério uma sugestão para a criação de uma cadeira de Humor nas Universidades de todo o Mundo, com frequência obrigatória para todos os Chefes de Estado, Ministros, dirigentes de Partidos, etc. Eles riem-se ao lerem isto, porque julgam que o Humor é uma coisa secundária, que podem dispensar, que não lhes faz falta. Alguns até julgam que o possuem...  Só quando um Humorista lhes revela, através de uma piada certeira ou de uma caricatura cruel, a verdadeira opinião que o Povo tem deles, é que reconhecem que o Humor é uma coisa muito, muito séria.
Os Estados não têm, normalmente, grande espírito. Mas o espírito tem estados. O Humor é um estado de espírito.
Ora bem, é difícil exercer o Humor sem criar uma porção de inimigos. Isto porque ninguém gosta de ser caricaturado  – em desenho ou por palavras, tanto faz. O chamado senso de Humor  é aquilo que todos nós dizemos que os outros não têm  – e não têm mesmo. O pior é que nós também o não temos  – quando são os outros a caricaturar-nos. Daí que muito pouca gente tenha o hábito de rir. Porque é muito chato ter problemas com os vizinhos.
Em Portugal, sempre fomos bastante macambúzios, mas, nos últimos tempos, estamos bastante pior. Justificamos a má cara com que andamos atribuindo-as à Política, à Economia, à Sociologia e a outras patranhas assim. Disparate! Se as pessoas se rissem mais dos Políticos, dos Economistas e dos Sociólogos, etc., talvez eles deixassem de se considerar tão importantes e chegassem a parecer-se vagamente com seres humanos normais.
Então, afinal, porque não há publicações de humor em Portugal?
As explicações são as do costume: o país é pequeno, as pessoas lêem pouco, os jornais e revistas de Humor constituem um tipo de negócio que não interessa, porque as tiragens são ridículas…
Esta palavra (“ridículas”) traz à memória de alguns leitores da meia-idade, ou de idade mais vetusta, o título de um jornal de Humor que foi dos mais marcantes entre os seus congéneres. Refiro-me a Os Ridículos, o bissemanário que foi fundado, em 1895, por Cruz Moreira (que assinava “Caracoles”) e teve depois cinco séries, a última das quais terminou, penosamente, em 1984, já quase sem leitores  – depois de ter sido uma publicação importante, até a nível político, com excelentes capas de Stuart Carvalhais e Natalino Melchíades, entre outros bons artistas nacionais.
Outro jornal de Humor que teve grande popularidade foi o Sempre Fixe, fundado em 1926 e que durou uns bons 35 anos, com reaparecimento pontual depois do 25 de Abril. As capas de Francisco Valença eram, muitas vezes, excelentes, com humor e crítica social  – e havia também a última página, assinada por Carlos Botelho, com o seu personagem Parecemal
Antes, houvera a época gloriosa de Rafael Bordalo Pinheiro, com a Lanterna Mágica (1875), onde apareceu, pela primeira vez, a figura do Zé Povinho  – e, depois, o António Maria (1879 a 1898) e A Paródia (1900 a 1907).
Tentando fazer uma lista dos outros jornais de Humor portugueses do século XX, encontrei os títulos que se seguem. A lista estará, provavelmente, incompleta, e deve haver mais títulos. Mas foram estes os que consegui achar. Vejamos:
A Bomba (1946 a 1947)  – Só durou 2 anos, mas marcou uma viragem no estilo do Humor nacional. Ere um semanário pobre no aspecto gráfico, mas de bom conteúdo. O Director era Mário Ceia e o Chefe de Redacção Mário de Meneses Santos. Neste jornal se estreariam, a escrever, Ruy Andrade e Manuel Puga, que ao acabarem as emissões radiofónicas que o jornal mantinha no Rádio Peninsular, viriam a criar os programas dos Parodiantes de Lisboa.
Riso Mundial (1947 a 1948)  – Era uma simples compilação de anedotas, sem grandes preocupações quanto ao aspecto e conteúdo.
O Mundo Ri (1954)  – Revistinha mensal de pequeno formato. Aqui comecei como colaborador, passando depois a Director. Quando abandonei o cargo, ficou como colaborador José Vilhena, que já publicara Branca de Neve e os 700 Anões e outros livros que tinham dado algum escândalo.
Cara Alegre (1951 a 1958)  – Dirigida por Nelson de Barros, com boas capas coloridas de Stuart, no seu 1º ano de publicação, e, depois, de José Viana, o actor e pintor.
O Picapau(1955)  – Semanário muito colorido, de que fui Director, tendo Stuart Carvalhais como Director Artístico. Durou sete curtas semanas, mas marcou um estilo e uma grande diferença em relação a todos os anteriores.
Parada da Paródia (1960 a 1962)  – Este semanário dos Parodiantes de Lisboa, do qual fui Director, chegou a ter tiragens de mais de 50 mil exemplares, o que era notável para a época. Publicou trabalhos do maior lote de ilustradores e cartoonistas jamais reunidos numa só publicação, em Portugal.  
A Mosca (anos 70)  – Era um suplemento do Diário de Lisboa, dirigido por Luís de Sttau Monteiro. Humor inteligente.
 Gaiola Aberta (1974)  – A revista do José Vilhena, na sequência de alguns livros que tinham dado escândalo e levaram o autor à cadeia, mais que uma vez. O Humor de Vilhena era contundente e, não raro, de mau gosto, mas muito corajoso e acutilante.
Bomba H (1963 a 1978)  – Durante cerca de 16 anos, saiu esta revista em forma de livrinho, coligindo milhares de textos e cartoons nacionais e internacionais. Fui seu Chefe de Redação.
Fala Barato (1978)  - novamente o José Vilhena a mudar de título, mas não de estilo.
O Moralista  – na continuação dos anteriores.
Depois do 25 de Abril, surgiram, em catadupa, muitas revistas e jornais de Humor, todos de existência efémera, numa autêntica “revolução humorística”. Eis alguns desses títulos:
Puflas (1974)  – Gustavo Fontoura e os seus “fotogozos”.
Pé de Cabra (1974)  – Imitação pobre do espanhol Hernano Lobo, teve vida curta.
O Macaco – Não chegou a sair. Pensado para ser um jornal semanal da empresa do Diário Popular, reuniu um lote de excelentes colaboradores, mas apenas foi impresso o Número Zero, com data de 29/11/1974. Não chegou a ser distribuído, pois foi boicotado pelos tipógrafos, que gostavam do jornal, mas desconfiavam da Administração e dos proprietários.
O Coiso (1975)  – Tinha como Chefe de Redação Mário-Henrique Leiria, o originalíssimo autor dos Contos do Gin Tónico. O nº 1 saiu a 7 de Março.
 Evaristo (1975)  – Projecto gráfico interessante, mas elitista. Durou pouco.
A Chucha (1975)  – Iniciativa de Helder Martins, que queria à viva força ter um jornal. Teve um nº 1  decepcionante , outros quase bons, e acabou mais por falta de organização interna  do que de bons colaboradores.
Chaimite (1976)  – Jornal político disfarçado de humorístico. Vida breve.
A Pantera (1976)  – Ideia original (papel cor de rosa) mas texto fraco.
A Pomba (1976)  – Número único, bons colaboradores, uma ideia romântica de Luís Lagriffa.
O Chato (1077)  – Dele não ficou memória.
O Cágado (1978)  – Os frustrados colaboradores de O Macaco tentaram um semanário que, como se viu, não era economicamente viável. Fui seu Director.
A Laracha (1980)  – Número único, sem história.
Pão Com Manteiga (1981)  – Revista que retomava o êxito de um programa da Rádio Comercial, feito por Carlos Cruz. O Director era José Duarte, o do jazz. Durou alguns meses.
O Olho (1983)  – Com um título destes, não admira que se tenha perdido de vista.
O Bisnau (1983)  – Mesmo sendo dirigido por Afonso Praça, não sobreviveu.
O Bocas (1983)  – Apenas saiu o nº 1.
Além destas publicações satíticas, devem mencionar-se algumas secções de Jornais, dedicadas a este tema. É o caso de:
Bocas (1975 a 1984)  – Por Magalhães dos Santos, no jornal O País, ilustrada por Zé Manel.
Trocas & Tretas  – Dos mesmos, no Correio da Manhã.
Tunfas!  – Ainda dos mesmos, no CM, de 1993 a 2002.
Tempiada (1983)  – Página inteira no jornal Tempo, textos que assinei  com ilustrações de Artur Correia. Aqui começou a ser publicado O País dos Cágados.
Actualmente, não existe nenhuma publicação de Humor em Portugal. Sim, há o Inimigo Público, mas não se trata de um jornal autónomo, que pudesse ter uma vida económica independente, se não vivesse à sombra do Público. Porque, doutra forma, já teria acabado há muito tempo, pelas razões explicadas: por um lado, não angariaria Publicidade que o sustentasse economicamente  – e, por outro, sendo independente, e acabando por, algum dia, ofender alguém, isso ser-lhe-ia fatal. 
Como é o humor nacional?
Existe um tipo de Humor característico da gente lusitana? Sim, existe. A tradição vem muito de trás, de Gil Vicente, com o seu linguajar vernáculo. E das cantigas de escárnio-e-mal-dizer. E dos antigos “robertos-de-feira”, cujas piadas eram sempre sublinhadas à traulitada. A nossa sátira baseia-se, historicamente, quase sempre, na piada pesadona, bruta, malcriada, perante a qual o Humor refinado é como uma picadinha de alfinete, em comparação com uma valente cacetada.
Não é, portanto, um Humor requintado e elegante, muito longe disso. E também aqui, como noutros capítulos da produção artística destinada ao grande público, este tem, como costuma dizer-se, aquilo que merece e de que gosta. Os Autores trabalham “em estilo grosso” para um público que não é fino.
Claro que há excepções, como sempre. Mas essas não passam disso mesmo: de excepções.
A justificação, que algumas pessoas (ainda) apresentam para este fenómeno, é que, durante muitos anos, a Censura impediu ferozmente tais picardias, não permitindo que o Respeitável Público fosse violentado por qualquer palavrão mais ousado, ou por qualquer ideia mais pràfrentex.
Assim, agora, os autores estariam a vingar-se dessa frustração, deitando cá para fora o que tinham atabafado dentro de si, ou cuidadosamente escondido numa gaveta secreta. A explicação não colhe. Onde é que já vai a Censura! Pelo menos a oficial…  Embora haja quem sinta que vingaram  outras mini-Censuras, e que sobeja a falta de coragem e de frontalidade.

Nota do Autor  –  Este texto, agora reformulado, com as alterações e actualizações necessárias, foi parcialmente publicado, em 2002, na Revista Meios, da AIND – Associação Portuguesa de Imprensa. Continua actual.