quarta-feira, 15 de julho de 2015

Crónica Rosário Breve - Em cartaz só mais esta semana por Daniel Abrunheiro



Demorei-me um pouco mais pelas ruas do que pela noite é meu costume.
O Estio não sufocava já. Antes pelo contrário: temperada, filantrópica, a aragem nocturna convidava à cirand’ambulação em serenidade acrítica. Acrítica e serenamente cirand’ambulei, pois. Fi-lo cismando pequenos-nadas, desses que mais me vale sonhar acordado do que quando presa indefesa do sono.
Descia eu em perfeita solidão a Avenida (aquela assombrada ainda, e cada vez mais, pelo Teatro extinto). A estudantada desertou-a por o motivo das férias sazonais, a Deus graças. Subindo-a (à Avenida, digo), com estes que a terra há-de enxugar vi o casal MM/AM: Marilyn Monroe & Arthur Miller.
Não me pareceram infelizes como nas fotos daquela época em que respiravam a par e a conjugal preceito. Suavizados pela bonomia da temperatura e do anonimato, pareceram-me tão-só gente tão só: como eu, àquela-hora-naquele-lugar.
Ela cometia o pecadilho indultado à nascença de não simular beijos morango-platinados para a câmara.
Ele não espelhava aquela sisudez de grande dramaturgo que de facto foi.
Duas soledades notáveis (a)notadas por uma terceira irrelevante solidão – isto apenas.
Passaram eles, eu passei – como é de força & é de lei que tudo passe e passem(os) todos. Não olhei para trás: já sou de sal q.b. e quanto sobre.
Lançado sem pressa nessa espécie de epifania-technicolor-a-preto-e-branco, não demorei muito a topar, uns meros metros-décadas a baixo, com outra parelha improvável: BC/VS – Beatriz Costa & Vasco Santana. Muito novos ambos, claro, ambos muito Canção-de-Lisboa, naturalmente.
Ela choraming(u)ava; ele fazia por consolá-la. Julgo ter percebido porquê: ela sabia que o Vasquinho dela iria morrer cedo, como de facto morreu; todavia, ele, maganão vero e fingido malandrim como sempre, ia-lhe cici’sussurr’ando que preferia tal destino àquele que sabia já vir a ser, como a ser deveras veio, o dela, o qual destino era, como foi, o de invern’amargar o outonecimento da vida no desamparo sem cura nem companhia de um quarto-casa de hotel antigo.
Não tive tempo de ter pena deles: retive, sim, não quaisquer fúteis lágrimas de basbaque cinémano, mas um sorriso grato – por ele esbracejar mui gordamente, de charuto à Groucho Marx na beiça, no intuito de fazê-la gargalhar em cristal puro como dela era timbre.
Fantasmas os quatro, caixeiros-viajantes prontos a morrer de novo, lá devem ter arranjado maneira de penetrar no fantasmático Teatro encerrado da Avenida. Não sei. Sei que eram horas do último autocarro. Apanhei-o.

Apanhei-o, mas só depois de baforar à pressa a ponta final do charuto à Groucho Marx que o Vasquinho me atirou do lado de lá da pantalha e em cujo fumo desapareço da minha plateia por mais uma semana em cartaz.

HERÓIS INESQUECÍVEIS - O PONTO (in bloguedebd.blogspot.pt)

http://bloguedebd.blogspot.pt/2015/07/herois-inesqueciveis-37-o-ponto.html


A 29 de Agosto de 1951, no n.º 852 da saudosíssima revista “Diabrete”, aconteceu um estoiro maravilhoso: o nascimento do herói-BD, O Ponto!...
Pela “estranja”, nada constava de semelhante. Por cá, foi uma firme e encantadora sacudidela na “modorrinha nacional” (como diria Fialho de Almeida), tanto nos leitores como no seio dos nossos desenhistas de então.
Treze pranchas, do n.º 852 ao n.º 864 da já citada revista “Diabrete”, encantaram-nos e divertiram-nos com a história “Loja de Bonecos” ou “O Mistério do Cofre Sarapintado”... 
Pranchas de "Loja de Bonecos", in "Diabrete" (1951)

Foi a loucura das loucuras pela mestria da arte e do humor non sense de mestre Fernandes Silva (1931-2010). Não havia nada que se parecesse pela Banda Desenhada, mormente na nossa, na portuguesa... Era uma incrível narrativa “disparatada” e encantadora!
O herói?... Simplesmente, “O Ponto, o Detective Sem Rosto”.
Pois ele é atrevido e desastrado, pequenino, com uma enorme cabeça (lembrando um aumentado ovo de avestruz), sem qualquer traço no rosto, mas tendo como adereços, o chapéuzito e o clássico cachimbo, que era típico na época em todos os detectives. Só um talento extraordinário como foi (e é) Fernandes Silva teria e teve a deliciosa “loucura” de inventar O Ponto. Na verdade, uma maravilha!...
Ainda nesse 1951, o “Diabrete” publicou a segunda aventura de O Ponto, do n.º 875 ao n.º 887, com o título “Novas Aventuras Por Causa de Uma Talhada de Melão”. Mais tarde, em 1992, com total e amiga autorização do autor, esta narrativa foi publicada no n.º 8 dos “Cadernos Sobreda-BD”.
Pranchas de "Novas Aventuras por Causa de Uma Talhada de Melão", in "Diabrete" (1951)

Depois... depois, só por 1955, agora na revista “Flecha”, apareceu a terceira e tão esperada aventura de O Ponto, intitulada “O Ponto, Detective Privado”.
Durou do n.º 12 ao n.º 37. Mas, desoladoramente para os bedéfilos, ficou incompleta pois a revista finou-se subitamente e o nosso desenhista, desiludido, desinteressou-se... Que pena!
Pranchas de "O Ponto, Detective Privado", in "Flecha" (1955)

De qualquer modo, a revista “Flecha” maltratou quanto baste a publicação desta aventura: começou por prancha/página e passou a tiras mesquinhas em rodapé. Incrível atentado!...
O Ponto, será levianamente apelidado de anti-herói. Mas os anti-heróis não são também heróis?... De qualquer modo, é um marco indelével na BD Portuguesa.
Obrigado, Fernandes Silva!
LB

Capas de "Almada BD Fanzine" #6 (1991) e "Cadernos Sobreda BD" #8 (1992),
publicações onde O Ponto foi personagem em destaque.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

dia 14 de Julho na Ler Devagar - LxFactory em Alcantara a apresentação do álbum "30 Anos a dar Broncas" de Zé Oliveira

Este livro editado pela Cooperativa Trevim terá a apresentação por Manuel Freire e Osvaldo Macedo de Sousa pelas 18h30 na livraria "Ler Devagar" que se encontra em Alcântara (LXFactory) em Lisboa

Crónica Rosário Breve Tatus, tatuas, borrões & falcatruas por Daniel Abrunheiro


Eram, antigamente eram, exclusivas de presidiários, de marinheiros e de soldados coloniais. Refiro-me às tatuagens.
Como parece ser (e é) tão próprio como fatal das coisas estúpidas, pegaram moda. O pessoal faz tatuar-se muito, hoje em dia. Não ocorre às pessoas que o resultado seja o de passarem a equivaler a espécimenes ambulantes de carcaças vivas carimbadas à maneira do gado de matadouro. Por dentro, mudo e quedo, designo-as por tatus & tatuas. Merecem o apodo.
Tatus & tatuas gostam particularmente do Verão. O calor (ou “a calma”, como lhe chamava o grande Sá de Miranda de “O sol é grande, caem co'a calma as aves(…)”) despe-os e traveste-as, permitindo-lhes a exibição dos borrões frouxos que lhes mancham o couro.
Não sei, sentem-se talvez símbolos de alguma coisa maior do que as viditas que têm & levam; apresentam-se talvez a si mesmos e a si próprias com algo de muito importante para dizer que ninguém quer nem precisa de saber; julgam-se talvez capazes de tudo, a começar por nada, aptos & prontas a mostrar, demonstrar, cabalizar, revolucionar, espantar. A mim, no entanto, parece-me tão-só gente que nunca mais se pode lavar na íntegra como deve ser.
Que os penitentes dos presídios se maculem de códigos e de pertenças gangue-gregárias – eu percebo: é apenas pueril, perigoso apenas, próprio de crianças ladronas e/ou assassinas.
Que os marinheiros na pele tragam do mar evidências de céu convexo – eu entendo: é apenas Poesia, própria de gente com uma mulher em cada porto e com um porto em cada filho.
Que os praças sentissem no Ultramar premências de deixar escrito no próprio corpo Amor-de-Mãe-Angola-1967 – eu compreendia: Mãe, há só uma, como com a Morte acontece.
Agora, estes tatus & estas tatuas que por aí me embaciam as dioptrias – não. Não gosto. Sujam-se por tudo e para nada. E não me diga ninguém que tomo a parte pelo todo: parte-me todo, tal dito.
Ainda há bocadito, no autocarro nocturno (último da carreira, metáfora rodada e a gasóleo do acabamento e da insensatez da viagem), vi uma tatua. Já tinha mais do que idade para não gastar o siso todo em dentes serôdios. Uma borboleta feia gangrenava-lhe a roxo o bíceps dextro. Em baixo, o artelho do mesmo lado acolhia uma tarântula cega. Na tábua do peito (mamariamente falando, a quarentona saía ao pai), floria-lhe um coração falador que exclamava “Raul” e “Love”. E eu sei que ela agora se amanceba com um que é Júlio, que o Raul a deixou pela Guida Florista, que na vida só há duas hipóteses: ou Raul Forever ou Love do tipo não-empurrem-que-há-lugar-p’a-todos.
O desastre estético da pobrezita culminava nas asas do nariz, agrafadas ambas com piercings evocadores do arganel no focinho dos porcos, e nas unhas de mãos & pés, as quais dez, esmaltadas a verde, me fizeram pensar se ela não viria de jogar à porrada, fazendo-o sangrar, com algum extraterrestre daqueles do Scharwznegger.
Coitadita. Eu não deveria ser assim tão malévolo para com ela e para com os asininos seus homólogos que se deslavam as dermes com anjos, estrelas, búzios, cornetas, morcegos, zodíacos e similares insígnias do género ó-p’ra-mim-a-meter-nojo-e-ainda-por-cima-paguei-um-balúrdio-pa’-isto.
Sou um reles bota-de-elástico, eu sei. Sou. Sei. Sim. Mas é que.
Mas é que a tal tatua me trocou as voltas ao projectado duplo mote da crónica. Amolou-me o ferrão. Embotou-me a verruma. Eu vinha para gozar um bocado à pala do enigmático zootecnocrata que passou a integrar a administração do Hospital (para humanos, em princípio) de Santarém (que já lá tinha poucos, aliás). Era para gozar com isso – e com a Carta Educativa que a Assembleia Municipal de Santarém ratificou à absoluta revelia das autarquias menores que lhe são relativas e em completo desprezo pelas necessidades reais, na vida real, das populações com suas crianças sem eira e suas escolas sem beira. Ora, atraindo-me as hastes (por assim dizer e não desfazendo das vossas) e as lentes, a tatua fez-me falcatrua. Mas não faz mal, afinal. Porque, enfim, sempre simbolizam, as manchas dela, alguma coisa: a nomeação das boy-boletas e a aranha do menosprezo e da repugnância pela Educação que é afim de todas as pesporrências e de todas as prepotências, a começar pelas mais analfabetas, como é o caso da nossa bronca Edilidade.

Mas, ó meu bom Sá de Miranda, calma! Tais aves também caem, ao contrário das tatuagens com que se mancham, a ponto de nunca mais, como deve ser, se possa delas dizer coisa limpa e lavada.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Estórias nazarenas de Júlio Murraças e ilustrações de Zé Oliveira será lançadp amanha, dia 20 pelas 18h na Galeria Municipal Artur Bual da Amadora

Na próxima quinta-feira (dia 18 de junho), pelas 18 horas, a Galeria Municipal Artur Bual é o cenário para a apresentação do livro “Estórias Nazarenas – Se não é verdadeiro… ‘tá bem caçado”, de Júlio Murraças.
Júlio Murraças, nazareno de alma e coração, apesar de residente na Amadora durante grande parte da sua vida, recorre às memórias da sua juventude para uma compilação de pequenas estórias da terra natal, que foram passando por várias gerações, com base na oralidade.
As estórias reunidas no livro são contadas num estilo literariamente livre e de uma forma despretensiosa. Na sua maioria, refletem um lado irónico e sarcástico do humor e de um certo estar dos nazarenos.

O livro conta com a participação do cartoonista Zé Oliveira que fez diversas ilustrações.

Na ocasião, haverá um momento musical com Guto Pires, cantor e compositor guineense.

Comemoração da criação de Zé Povinho 20 de Junho no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa

Rafael Bordalo Pinheiro desenhou pela primeira vez a figura de Zé Povinho no seu
jornal A Lanterna Mágica de 12 de Junho de 1875, num cartoon alusivo às Festas de
Santo António.
Uma vez que o dia 12 é véspera de Santo António, o Museu Bordalo Pinheiro celebra a
mais genial criação de Rafael Bordalo Pinheiro a 20 de junho, sábado, com um
conjunto de actividades que animarão o Museu ao longo do dia.

Às 11 da manhã vamos abrir a Feira do Livro de Poesia e Banda Desenhada,
organizada por Inês Ramos, onde pode encontrar os mais recentes publicações de
autores portugueses.

Às 11.30 começa o atelier construção de um taumatrópio – um dos mais antigos
aparelhos de pré cinema - integrado na exposição de imagem em movimento, pela
NTheias.

Os azulejos de inspiração bordaliana feitos pelos alunos de artes visuais do colégio de
Santa Doroteia vão ser apresentados às 13 horas pelo seu professor, Mário Linhares.

Penim Loureiro vai dar uma sessão especial do seu curso de Banda Desenhada
dedicado ao desenho digital na BD, a partir das 14 horas (inscrição obrigatória).

Às 17 horas teremos Fanzines à Conversa com Geraldes Lino, Inês Ramos e alguns
autores de fanzines.

No âmbito da exposição “Vivinha a Saltar, a Varina na obra de Bordalo”, às 19 horas o
grupo de Teatro dos Serviços Sociais da CML vai apresentar a peça Confissões de uma
Varina, depois do sucesso da sua apresentação no Museu de Lisboa.

Entretanto, ao longo do dia teremos várias aparições do próprio Zé Povinho,
nomeadamente para provar a cerveja Bordallo, às 18 horas.

Contamos consigo!



Mais informações: museu.bordalopinheiro@cm-lisboa.pt ou 21 8170671

A exposição "Liberdade - Selecção de obras da IV Bienal de Humor Lu'iz d'Oliveira Guimarães - Penela" patente na Assembleia da República- Palácio de S. Bento em Lisboa prolonga a sua abertura ao público até 28 de Junho



Crónica Rosário Breve n.º 411 - A Escolha (acta de consulta) por Daniel Abrunheiro


De seu/dela lado da mesa, a Senhora pergunta-me:
– Qual é a sua Primeira Recordação da/na vida?
É uma pergunta profissional. Clínica, não cínica. A mesa é de consultório.
Respondo:
– No Pátio da Casa dos Pais, 1967, tenho três anos, algo debaixo de um papel ou cartão, acho algo que me enche de alegria, alguma quinquilharia-tesouro, não consigo saber o quê, talvez uma carica de garrafa de laranjada para fazer um ciclista, talvez um cromo ainda bom de jogador da bola para a caderneta, só recordo o ter achado, não o achado em si, ou em mim, só o ter feito um descobrimento, a emoção intensa (chamam-lhe “adrenalina”, hoje em dia), o sapato direito garimpando aquela fortuna incalculável,  que, de facto, ficou por calcular.
A Senhora então assim para mim:
– É mesmo essa a sua Primeira?
Ardil. Tento esconder o gato sem mostrar o rabo. Em vão: ela sabe do ofício.
Eu assim para ela:
– Até que ponto, Doutora, são as recordações deveras factuais? Quanta ficção maquilhada pelo desejo as não emboneca? Quanto real é/há nelas? Quão sincero (nos) é o Passado (ou nós sinceros para com ele)? Quanto tem ele de fabricação?
Ela sossega-me:
– As recordações têm sempre algo de verdadeiro, de histórico, na origem. A essa verdade antiga costuma associar-se, inconscientemente embora, o contexto, a época, o ouvido, o falado, o que os mais Velhos disseram, o que a Criança apre(e)nde(u).
E insiste:
– É mesmo essa a sua Primeira Recordação?
Decido abrir o jogo:
– É. Mas há uma Segunda que é Primeira também. Ex-æquo, diria eu. E digo.
E ela:
– Conte-ma, por favor.
E eu:
– Tem de ser 1967 ou 1968, no máximo. Não pode ser mais perto no Tempo. Nem mais longe – eu sou dos de ’64. Ainda não ando na Escola. É na terra do meu Pai, não naquela onde moramos, que é a da minha Mãe. Levavam então as crianças a essas coisas fúnebres. Acho que ainda levam. De repente (é uma espécie de clarão na mente), num adro (árduo), vejo o Caixão. Já saiu da Igreja, ainda não chegou ao Cemitério. Terra seca. Está completamente só, o Morto. Como deve ser, s(up)onho eu agora. O Rosto é um lenço sobre o rosto. Brisa nenhuma. O Rosto-rosto não se mexe. Os homens pousaram-no ali. Talvez para descansarem um pouco. Os homens desapareceram. O séquito desapareceu. O Sol a pino. A pique. Absolutamente Só. Absolutamente Sol. Absolutamente ninguém em torno do esquife. Não me vejo a mim mesmo – sou Aquele-que-Olha.
A Doutora:
– De quem era o funeral?
Eu:
– Era de um homem já grande quando o meu Pai ainda era menino.
A Senhora:
– Muito calor?
Eu:
– Insuportável. Aquela luz irrespirável à García Márquez, sabe a Senhora? O negro acérrimo do ataúde. Ninguém à volta daquela Caixa-Preta. A força do calor açulada pela força do Ninguém-à-Volta, pela força do Nada-por-Todo-o-Lado. Nem o meu Pai à vista. Até hoje.
A Senhora:
– Há estudos que apontam no sentido de um maior pendor para a sobrevivência no caso das pessoas cujas primeiras recordações estão associadas à alegria, ao prazer, a sentimentos bons como a gratidão, a surpresa agradável etc. O senhor tem duas Primeiras.
Qual delas escolhe?
E eu:
– Mas eu posso escolher?
Então a Senhora assim:
– Pode. Pode sempre escolher. Fixe isso: pode escolher sempre. Creia nisso. Mas é bom que tenha sido franco com o acréscimo da “Segunda-também-Primeira”.
E eu:
– Então escolho a primeira-Primeira. A do Achado.
Então a Senhora assim:
– Como, ou o quê, são hoje para si os dias de muito calor?
Eu:
– Acho que compreendo a pergunta. São mortíferos e mortais e sozinhos. Olhe a Senhora que eu gosto de praia no Verão. Mas prefiro-a de Inverno. Ao Estio, prefiro de longe o Outono temperado. Até a Invernosa mais álgida lhe prefiro.
A Senhora:
– Compreender é bom. Ajuda a escolher. Não muda o Passado. Mas muda qualquer coisa (para) hoje.
Eu:
– Mas nunca saberei o que estava sob o papel/cartão, o que achei, o que me alegrou tanto.
A Senhora:
– Escolha o tesouro que quiser. Mesmo que esteja calor a mais.

Consulta acabada, sozinho na paragem de autocarros. Sol forte, implacável, daquele de enegrecer rosas. Mas, perto, há uma orla de sombra viva: como uma gaze fresca atirada pela Mãe. Acolho-me a ela. O autocarro vem a horas. E, uma vez na vida ao menos, eu também.
Obrigado, minha Senhora.
Obrigado, acho eu.

Ou escolho.

Rosário Breve - Duas por uma resto zero - por Daniel Abrunheiro


1. O Regresso do Emigrante
À saída do comboio, sentiu que o tempo tinha mudado de espessura. A ausência tinha oxidado os pombos e as palmeiras. O jardim era do esmalte que consubstancia o futuro anterior. No coreto, fantasmas filarmónicos tocavam Roberto Carlos.
Comeu um quarto de frango numa churrasqueira enegrecida. O recepcionista da pensão aceitou-lhe as malas com um gemido artrítico.
De volta ao largo, conferiu a eternidade das mercearias, os jogadores de cartas aposentadas, a sesta dos táxis e a fragrância mortífera da desesperança.
Trinta anos em França. Doze na Alemanha. As mãos dormentes de tanto trabalho. E, agora, o regresso, essa missão impossível. As crianças tinham-se casado. As aldeias eram iguais entre si como requeijões. As pastelarias repetiam-se umas às outras como sonhos feios. Os arquitectos pariam cubos de cimento como galinhas geométricas. Os farmacêuticos aviavam pastilhas contra o problema de ter nascido. E os futebolistas da equipa local eram brasileiros que entristeciam de frio na noite dos cafés cibernéticos.
Ao jantar, na mesma churrasqueira, ainda considerou a possibilidade de voltar para trás: França, Alemanha. Mas decidiu que não, que ficaria.
Que, no próprio dia seguinte, trataria de comprar um táxi ou um baralho de cartas, de modo a poder usufruir, em pleno esmalte, da glória de Roberto Carlos tocado até nunca mais pelos benignos fantasmas da filarmónica de quando isto era vila e ele não tinha partido para sempre.
2. Ao Alcance das Mãos
Contar e ouvir histórias não são actividades exclusivas da infância. Pertencem igualmente ao mundo do envelhecimento. Porquê? Porque as histórias, próprias e alheias, narradas e ouvidas, servem para melhorar a realidade. A realidade, sim. Porque a realidade nunca é bastante. Porque raramente é bonita, construtiva, adequada. E porque a realidade sai distorcida do velho conflito entre as mãos, que representam a prática, e o coração, que é a despensa sangrenta de tudo o que realmente vale a pena. Por tudo isto, trago hoje outra história.
Era uma vez uma pessoa que tudo deixava cair das mãos. Bebé, compreendia-se que tal lhe acontecesse. Veio a puberdade e, com ela, o ostracismo. “Ostracismo” quer dizer (mais ou menos) que tudo e todos ficam longe de nós, porque todos e tudo assim o querem. Todas as coisas vinham parar ao chão, segundos depois de tentar segurá-las nas mãos. Estas eram, ao menos na aparência, normais: dez dedos e dez unhas, mais as oito linhas que marcam o delta do destino. Garfos, jornais, jarras com suas flores, anéis até: tudo acabava no chão.
Já adulto, não segurava nem empregos nem amores. Das mãos lhe caiu a vida do pai e a de um irmão. E também a do cachorro amarelo, único dos seres que tinha podido conservar, pois, como é sabido, são os animais que nos possuem e seguram.

A história acaba assim: deixou de tentar agarrar com as mãos coisas e pessoas. Descobriu que a única forma de ter está no olhar. E que, vistas as coisas assim, a realidade não é tão má como parece. Sim, mesmo aquela que temos ao alcance das mãos.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Liberdade - Mostra de trabalhos da IV Bienal de Humor Luiz de Oliveira Guimarães - Penela patente ao publico na Assembleia da República - Palácio de S. Bento Lisboa até 19 de Junho

  Inaugurou no antigo Refeitório dos Monges, no Parlamento - Assembleia da Republica a exposição sobre a Liberdade através do humor. Não foi fácil aquela casa abrir as portas á liberdade e depois de uma longa telenovela e passada a data prevista que era a comemoração do 25 de Abril com a Liberdade, abriu finalmente a 20 de Maio e ficará patente ao publico até 19 de Junho.
Esta é uma organização da Câmara Municipal de Penela / Junta de Freguesia do Espinhal e Assembleia da República com Produção da Humorgrafe
 Na hora dos discursos podem-se ver na foto o Presidente da Junta de Freguesia do Espinhal António Alves, o Presidente do Município de Penela Luís Filipe Matias, a representante da família Leonor Oliveira Guimarães, o Director da Bienal Osvaldo Macedo de Sousa e a Deputada Maria da Conceição Pereira




59.ª, da Revista “O Pimpolho”

Exmo(a)s Senhor(a)es, / Ladies and Gentlemen,
 Está disponível on-line mais uma edição, a 59.ª, da Revista “O Pimpolho”. / Is available online another edition, 59. Nd Magazine's "O Pimpolho."
 O endereço de acesso é:
http://opimpolho.no.sapo.pt/pagina3.html
The access address is:
http://opimpolho.no.sapo.pt/pagina3.html
 É possível aceder também a partir da página inicial, http://opimpolho.no.sapo.pt, e seleccionar a opção Fanzine no ícone respectivo no topo da página.
You can also access from the homepage, http://opimpolho.no.sapo.pt, and select the corresponding icon Fanzine at the top of the page.
 José Sarmento
Tlm + 351 93 903 76 12
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sexta-feira, 15 de maio de 2015

"O gentilissimo e talentoso João Amaral" inaugura dia 16 no Museu de Lamego


Neste fim de semana vamos celebrar o Dia Internacional do Museus no Museu Bordalo Pinheiro.


  
Neste  fim de semana vamos celebrar o Dia Internacional do Museus no Museu Bordalo Pinheiro. 

Preparámos visitas guiadas às exposições temporárias (Comes com Bordalo e Bebes com Bordalo e Varinas de Lisboa - em colaboração com o Museu de Lisboa), apresentação dos trabalhos do Curso de BD de Penim Loureiro e do Grafitti da Rita Constantino (Veja o programa completo em anexo).

Há ainda duas conversas:
 a apresentação do livro As Caldas de Bordalo de Isabel Castanheira, com João Paulo Cotrim, Carlos Querido e Miguel Macedo, no sábado às 18.30;

As novas sardinhas de Bordalo, Com o designer Jorge Silva, Rita Castel-Branco (EGEAC) e Nuno Barra (Fábrica Bordallo Pinheiro) na 2ª feira, às 19horas.
A seguir às conversas vamos ter a degustação das conservas gourmet da Bom Petisco e dos magníficos Vinhos da Região de Lisboa.





Esperamos por si, mas já sabe que este mail é para os amigos. 
Não para que se sintam obrigados a vir, mas para que saibam onde há coisas divertidas em Lisboa.

Rosário Breve - 25 menos 25 igual a 28 por Daniel Abrunheiro




Sentado em perfeita solidão no banco da paragem, espero o autocarro da carreira 27, o das 19h45m. Calor. Inconstante como a vida, o meu Maio natalício esteve de radiador ligado o dia todo. E que me oferece a espera, primeiro, e a viagem, depois? Oferece-me números:

1. A derradeira dança do pombal pelo entardenoitecer. Umas duas dezenas e meia delas voando em formação ordenada, elíptica, comandada por um qualquer instinto gregário e aerotopográfico que não sei azimutar, muito menos explicar. Constituem uma forç’aérea muito bela e muito poderosa no azul-ferrete terminal do firmamento. Um pouco mais alto do que elas, todavia, mas delas ameaçadoramente não muito longe, sobrevoa-as um milhafre. De rapace solidão é a figura dele. Lento, pensativo, calculista, armado até aos dentes que aliás nem tem, merece-me uma alcunha má: Carlucci.

2. Derredor, o arvoredo incólume do planalto (cedros, mormente) matiza uma álea de sombra em refresco. Estão, ainda, vinte & muitos graus centígrados. A esquadrilha columbina desapareceu (para) já. O milhafre, não. Dele, a linha escura tem qualquer coisa de traço cuneiforme, de caligrama chinês, de cabide sumério. Não o odeio nem o venero – vigio-o, tão-só.

3. A quatro minutos do horário, passa-me defronte um quarentão de chapéu amarelo fitado de azul, pele tisnada daquele inequívoco açafrão típico do pica-heroa, rabo-de-cavalo a precisar muito de água-sabão. Vai labiando, como se charutasse um habano, um mata-ratos enrolado à mão que rastilha pelo ar uma espiral pró-hílare de oleaginosa essência de Marraquexe. No preciso entrementes mesmo, cruza a via (mas oh quão majestosamente!) um luzifelídeo, vulgo gato, de pêlo tipo carvão refractário, qual tocha negra de todo alheia e imune a tudo isto a que, se calhar por inconsciente auto-sarcasmo, chamamos “civilização”.

4. Tudo isto é pela hora a que os Antigos chamavam “noitinha”, mimoseador diminutivo da tenebrosa incógnita que a Noite é, foi sempre & sempre será. Eu chamo-lhe “entardenoitecer”. Eu chamo-lhe “luzcofuspúsculo”. Espécie de, digo eu, “eterni’tarde”. 0u de “peren’oite”. Acaso, ocaso tudo, qual seja o nome.

5. A bordo já do 27, colecciono os terminais lampejos solares que faíscam nas cúpulas dos prédios de mais altos cristais: frechas de ouro oblíquo, dardos de platina torrada. Mas também se me dá a recepção de certa pré-lunaridade na progressiva quietação: dirigindo-me eu a certa reunião (às 21h00m em ponto) de deserdados & desencaminhados do viver meus afins, recebo os sinais do vulgo humilde – a evidente fadiga dos trabalhadores em fim de jornada, a volatilização em éter dos desempregados cansados de enxamear sem préstimo o mundo-colmeia das abelhas-ainda-assalariadas, o cego de caixa-fenda-esmoler ao peito reenrolando os naperons das cautelas que ficaram por vender à pequena-sorte, o par de namorados partilhando a botelha plástica de água morna mercê de mole câmbio ósculo-beijoqueiro, a autoridade da incerteza pesando os quilogramas do Destino.

6. E ainda se me oferece saber, via O RIBATEJO da semana passada, que o “pacu”, peixe parece que familiar da sinistra e dentívora piranha, prolifera no fluvial-tomarense Nabão.E tanto prolifera ele, ouço dizer, que já lhe dá para migrar do rio para a seca Assembleia Municipal de Santarém, pardieiro-capoeiro onde andam urdindo a troca festivo-fogueteira do 25 de Abril pelo 25 de Novembro. O de 1974 pelo de 1975, portanto. O pacu anda armado em milhafre, por modos. Mas é mentira. O pac(arl)u(cci) não é nada o 25/XI/75 que quer festejar. É o 28. De Maio. De 1926. É, é. Repete a desgraça da História quem não engraça com a lição da memória.
Digo-vos eu tão-só isto: cuidado, garnizés, que as pombas ainda um dia se cansam de tanta mansidão. A ponto de um dia destes ainda fazerem pombal-quartel-general na maltratada EPC, de cujo pátio e de cujos portões, por mais degradados pela incúria e pela amnésia obrigatória dos politicamente imberbes cachopos de momento galarós no poleiro local, sairão voando baixinho.
De chaimite.
E de megafónicas asas abertas à SalgueiroMaia.

Cuidado com elas. Isto é: connosco.