terça-feira, 10 de março de 2015

Humor de Lailson


Tha International Cartoon Contest - Haifa - Israel 2015


Exp. Int. Cartoons - Os Direitos dos Trabalhadores a traço de humor no Museu Municipal de Arqueologia de Silves - 14 de Março a 9 de Maio 2015


Organização PCP - Produção Humorgrafe

CARTOONXIRA - 2015

 DE 14 de Março a 10 de Maio


Rosário Breve Graça agradecida por Daniel Abrunheiro

Escrevo hoje sob um céu muito puro, desses céus totais, absolutos e ubíquos cujo azul chega a doer em seda. Raro, um fiapo de nuvem a oeste: fumo branco, dedada de neve não mortífera. Não chega aqui, deo gratias, o fragor estúpido dos carnavais, as idiotas tranquibérnias de machos travestidos sem graça nem mistério de mulheronas hirsutas (quantos não tirarão hoje do armário o esqueleto da sua pederastia reprimida?).
Há sossego, a brisa penteia & despenteia a seu bel-talante o que por aí vai de orquídeas, gardénias, chitas de senhoras. Ronrono ao sol da praça a digestão de enchidos endógenos com que me apancei a tulha. Longe, um amigo (que agora pertence ao MEO) faz anos. Outro amigo (que agora pertence à NOS) fez uma biopsia. Andamos nisto.
De cediça ossatura, um velho osteoporótico atravessa pela ponte de ferro o canal fluvial. Vai a pensar em cenas de há décadas, como aliás também a mim me acontece tanto, protagonista de pretéritos só já. Sobre ele, o sol português dardeja suas radiantes frechas termonucleares. Por aqui, o anho sacrificial grego não tem de morder o pastor alemão. Não é uma paz feita de genuflexão ante o bezerro-de-ouro. A teratologia da coisa é outra.
Todavia, a entristonhar esta fotogravura verbal surge um homem-anúncio: de farpela plástico-amarela pejada de gritantes maiúsculas pretas, roga-nos ele que saibamos como vender-lhe o nosso ouro e as nossas eventuais pratas avoengas. É rapaz já descriado, fará publicamente aquela figura para comer, não sei, por carnaval não será, suponho mas não sei. Ei-lo além já, amarelejando a passadeira à pré-rotunda da velha fábrica de farinhas. A visão troca-mo de imediato por uma fêmea de madeixas roxas que lhe ficam mal – como se alguém lhe tivesse vomitado na cabeça. É de joelhos agudos como álgicas pontadas de papagaio úrico. O olhar brilha-lhe qual moeda nova, porém: esteve com amigas velhas a beber chá de catorze graus, daquele que leva mais branco. É senhora de opiniões tipo TV-cassette, useira & vezeira de fatalismos zodíacos fundamentados, tão-só e afinal, na falta de homem. Conheço-as destes anticarnavais: explora um negócio de unhas pintadas num desvão de escada-urinol-dos-aflitos ali perto da Sé.
Entretanto, a Grécia recusa-se a ser, para já, como as barreiras do planalto santareno. Em fúria, o furão teutónico brande índex-ultimatos de má-fé ariana & pior consciência histórica. Os acólitos portugas rezam, de joelhos naturalmente, à cruz (gamada). Mas por aqui não. É que estou sorrindo à epifania, galeri’afora, do casal de carrinhos-gémeos a quem a lotaria da genética brindou com dois clonezitos de chupetas geminadas. Homem-senhora-menino-e-menina: bonito de se ver, a este sol. Que a saúde nunca se furte ou escasseie a este baralho de quatro naipes, de trunfo todos eles.
Pela avenida passa ora um carro de aparelhagem sonora stum-stum-stum-stum. Condu-lo um pardal imbecil de perfil mumífico à Ramsés II. Vontade minha de autuá-lo com Bach até 2042. Também ele passa e se dissipa, porém. A calma retorna à gravura, pacificadora e materna como flanela mental.
A minha verdade íntima, no entanto, é que quase não tenho pensado noutra coisa senão na biopsia que o meu amigo fez, ou lhe fizeram, por estes dias. Ao pé da faringe dele, nem alemanhas nem grécias contam seja o que for.
É que esse amigo é, por assim dizer, meo.
Ele e eu somos nos.

Ou assim: meo gratias

sexta-feira, 6 de março de 2015

Crónica Rosário Breve - A vida é só hoje por Daniel Abrunheiro


O meu País já ontem era tarde. E amanhã não será cedo.
Outras formas haveria de dizer isto – mas não as quero. Quero dizê-las assim. E digo.
Nestes mais recentes dias, desavim-me comigo mesmo um pouco mais do que de costume. Pus-me por aí dias a fio sem meta nem retorno, a pé e com a mesma roupa. Calcorreei vastidões que só com muita generosidade podereis imaginar. Um trecho do desconsolado périplo foi rente à minha terra original. De novo me tomaram os olhos as mastodônticas estruturas industriais em ruínas. Abandonadas pela cobiça e pelo anti-humanismo de meia-dúzia de yuppies criminosos, são hoje carcaças grotescas que espelham sem ilusões o avesso do progresso. Sei de cor as famílias completas que nelas labutaram para comer. Hoje, sei de cor os desempregados sem idade para sonhar com mais nada, os reformados da uva-mijona, os novos que por aqui não ficam.
A TV, todavia, continua a ladrar mentiras felizes. Há carnavais por todo o lado e por todo o ano. A populaça gosta que lhe façam o serviço pelas costas, na condição de um bocadito de vaselina primeiro. A anemia dos sistemas de ensino, de saúde e de justiça terceiromundiza-nos a todos, mas nem todos ligamos muito à evidência. As autarquias promovem festarolas de sopas e de espinhaços de bacalhau com aquela presunção de fartura geral que é rasca e que é estúpida e que é mentirosa e que não vale uma buzinadela tripeira das mais sonoras. Aparecem senhoras lambuzadas de banhas lustrais a dizer coisas vãs e flatulentas como ouviram dizer nos programas pimbas da manhã e da tarde e da noite e amanhã o mesmo. Aparecem autarcazitas burros como testos a apregoar moralidades de papelão que eles são os primeiros a não seguir. Professorazitas que não lêem. Jornalistazitos que nem informam nem se informam. Condutores sem o mínimo lampejo de civismo ensanguentando as estradas na maior impunidade e na maior inconsequência. Casamentos e mancebias que, desfeitos, resultam como se por lógica simples em mortandades de faca e caçadeira. Os raios do Diabo, enfim, numa terriola de procissões raquíticas e de santos do caruncho.
Sinto que a crónica me está a sair azeda. Falemos de andorinhas. Ontem vi algumas. Apesar de tudo, apesar do País, das bestas da economia, dos avatares de tanta merdice, o céu deu-me andorinhas. Não eram muitas, mas para mim chegaram como mais do que suficientes. Contra o firmamento, que então era da cor da folha-de-flandres, traçavam elipses molhadas de tinta-da-china. Rápidas, diligentes, bailarinas, como se ébrias. Foram a minha recompensa e foram a minha alegria por alguns minutos. Sabia que acabaria por escrevê-las, como sei que um dia tudo se nos acaba, a começar pela tristeza e pelo se calhar mau hábito de andar por aí a estrangeirar o coração.

Mas ontem, por instantes, não.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCIX - AmadoraCARTOON / 12


Livros sobre Humor e caricatura com textos de Osvaldo Macedo de Sousa - CCVIII - AmadoraBD 2012


Santiagu conquista novo Prémio agora no CONTEST MAGAZINE NOSOROG RHINOCERVS

Sartre por Santiagu

Homenagem a João Sarzedas em Torres Vedras

A Paços – Galeria Municipal de Torres Vedras vai acolher de 7 de fevereiro a 11 de abril uma exposição de homenagem à obra gráfica do artista João Sarzedas.

João Sarzedas era conhecido pelo subtil e refinado sentido de humor que imprimia aos seus desenhos e cartoons. Munido de inesgotável imaginação, de apurada técnica e possuindo um profundo sentido de observação, deixou uma obra gráfica que ilustra, principalmente por meio do humor, o quotidiano, a sociedade e a política de uma época.


A inauguração da referida exposição (“Obra Gráfica de João Sarzedas – Uma Homenagem”), será antecedida da sessão de lançamento do livro “Sorria com Eólicos na Paisagem”, o que acontecerá no dia 7 de fevereiro, pelas 16h, no Edifício dos Paços do Concelho de Torres Vedras.


http://bedezine.blogspot.pt/2015/02/7-de-fevereiro-em-torres-vedras.html

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

ÚLTIMA SEMANA DE INSCRIÇOES no WORKSHOP DIÁRIOS GRÁFICOS de FEVEREIRO

No decurso das inscrições recebidas e pelo facto de ainda existirem vagas, venho lembrar-vos que já só falta uma semana para acabar o período de inscrição no próximo workshop de Diários gráficos de Fevereiro, que se realizará ao ar livre no Parque Recreativo dos moinhos de Santana, no Restelo.

Toda a informação sobre o workshop e como se inscrever está no programa em anexo. 

Crónica Rosário Breve - Dica da semana por Daniel Abrunheiro

Todos os dias os vejo: aos homens de já descriada idade atulhando de publicidade não endereçada as bocas de correio dos prédios. Não puderam e/ou não quiseram salvaguardar-se da penúria. No outono da idade, dão de si & por si propagando prospectos de “mestres” africanos, de “massagistas” brasileiras e de afins subprodutos, ou escombros, ou despojos, ou escórias, do alegado “Império Português”. Os ociosos de esplanada como eu são por eles mirados à sorrelfa, ciosos dos cigarros fáceis que fumamos e dos cafés perfumados de aguardente com que ilusoriamente adoçamos o desbaratar da (nossa, do lado de cá) vida.
Aos domingos, no entanto, em vez de a eles, assisto às parelhas de mulheres de já descriada idade que, munidas elas também de prospecta literatura que ninguém pediu nem quer, teimam em jeovandar caducos evangelismos sem ortografia nem esperança por essas campainhas insones.
Os prédios são os mesmos. O resultado, também.
Em verdade V. digo que me sinto companheiro, tão destas como daqueles, em má fortuna & pior ventura. Há anos que também eu ando neste negócio (aliás crónico) das mèzinhas contra o particular mau-olhado, o pé-chato da inveja, a psoríase da alma, a amarração infiel & a despolítica geral. Sim, também eu violo, no caso dos assinantes do Jornal, as frinchas virginais das caixas postais.
No gasto da tinta, esvai-se-me a mocidade física, que revérbero foi já noutros lustros e em lustres outros. Na usura do papel, descriou-se-me, a mim também, a sacanita da idade, sedimentando-se-me no palato o salitre equívoco de tanta oportunidade perdida.
Ao espelho, todavia, isso Vo-lo garanto também e com alguma soberba até, ainda faço, de quando em vez, as pazes mansas comigo, mercê da seguinte síntese zoológico-geométrica: besta-quadrada que ao menos de si mesma ri, com gosto quase até. E só não me dou de fuças como pedaço-de-asno por deveras ser o asno completo.
Não me inscrevi – prescrevi.
Não tirei cartão – nem o passei a ninguém.
Não creio em Deus – nem Ele em mim,
Não fui a tempo – mas o Tempo veio-me.
Está certo assim. A pessoa é, de si, o preço que por si mesma paga, ainda que o não valha.
A sequência é a consequência.
O remédio, porventura, estaria em nascermos todos com a idade daqueles homens e daquelas mulheres que, uns, nos dias úteis entopem as caixas de correio, e que, outras, ensurdecem as campainhas doménico-matinais. Nascermos já madurotes e, desse ponto aí então, rejuvenescermos à força toda de cada dia anversamente revertido, decrescendo em altura atlética e em sombra cismática.

Até que mais nos não pudessem pedir do que fôssemos, apenas, brincar – coisa que, aliás, não parecemos ter senão feito a vida toda, a julgar pela caixa do correio. 

Vivinha a Saltar ! - As varinas na obra de Bordalo no Museu Bordalo Pinheiro a partir de 31 de Janeiro

No próximo sábado vamos inaugurar uma nova exposição: Vivinha a Saltar ! 

A exposição divide-se em duas partes: As varinas na obra de Bordalo, em que mostramos a forma como Bordalo representou este tipo popular lisboeta, das aguarelas Naturalistas aos desenhos humorísticos e As novas sardinhas de Bordalo, em que mostramos a forma como a EGEAC e a fábrica  Faianças Artísticas Bordallo Pinheiro, com o designer Jorge Silva, entregaram uma sardinha feita por Rafael a artistas contemporâneos para a reinventarem.

É no sábado, dia 31, às 7 da tarde no Museu Bordalo Pinheiro.

Esta exposição completa outra, Varinas, Memórias de Lisboa, que inaugura no Museu da Cidade, às 5 da tarde. Venha às duas!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Dia 24 presentação do livro "30 Anos a dar Broncas" (edição Trevim - Lousã) de Zé Oliveira

No âmbito da apresentação do livro "30 Anos a dar Broncas" (edição Trevim - Lousã), já pode ser visitada na Arquivo (Leiria) a exposição de originais constantes do livro. Mas a apresentação será no dia 24, com participações de Manuel Freire e Carlos Fernandes. Falar-se-á, naturalmente, dos... riscos do Humor Gráfico.
Crónica Rosário Breve - Terá parentes idosos sem saúde o senhor ministro da Saúde? Por Daniel Abrunheiro


Até aos nossos tristes dias, os idosos pobrezinhos de Portugal não tinham onde cair mortos. Agora já têm: é nas urgências hospitalares, esses brancos matadouros da contemporaneidade. Esperam e recebem a morte ao abandono das macas dos bombeiros, vá lá que agasadalhadinhos e venha cá que com direito a chá mijão e a bolachas de cianeto.
Cá fora, os órfãos desses velhos despojados de toda a esperança e de toda a dignidade sempre têm direito, pouco depois de cada passamento, a quinze segundos de fama nos telenoticiários, à maneira dos “talentos” instantâneos que a hílare Teresa Guilherme garimpa a preceito rasca aos monturos.
Logo de seguida, a prestidigitação dos cultores da Estatística (essa arte da mentira matemática) enleva-os (aos mortos e aos órfãos) de cerúlea (que é o azul do Céu) misericórdia, lustra-os logo do áureo esmalte da fatalidade, banha-os de pio sebo cristão, unta-os da mais chilra água-benta à beira da fervura das lágrimas crocodílicas, logo os ungindo, enfim, de um seráfico esplendor que lhes fica, precisamente, a matar.
Eu já não consigo ter muita pena dos pobrezinhos de Portugal que, à asneira de aqui terem nascido, somaram o disparate de se terem deixado envelhecer cá. E não consigo ter muita pena deles porquê?
Porque a) sou ímpio; e b) foram eles a votar c) nestes que lá estão; d) naqueles que lá estiveram e e) nos homólogos de c) e d) que lá hão-de estar.
Nos entrementes, dez metros a estibordo da minha caligrafia, uma bonitíssima velhota marca presença e dá sinal de vida. Está no passeio frontal da pastelaria à espera do marido, que foi ali num instantinho à Caixa transferir uns patacos-SOS aos filhos divorciados e sem emprego nem uso que tem ó-tio-ó-tio em Lisboa. A senhora apresenta-se enroupada de abafos nacarados como o dentro das conchas. Sopra os dedos enregelados das mãos. Sei que lhe apetece o chá-das-cinco. Voto na esperança de que o marido (que roça já, como ela também, as oito décadas de nascido) se não sinta mal de repente enquanto espera vez para o caixa. Porque esta terra tem urgências hospitalares: esses brancos matadouros etc.
Nota: o senhor ministro da Saúde está, à hora a que V. escrevo, de visita ao morredouro hospitalar local. “Reunião de trabalho com a administração”, parece. Ao que sei, o senhor ministro da Saúde é um patusco bem assalariado. Tem motorista, isso também sei. E alcavalas de mordomias inerentes ao cargo, claro. Não sei é se tem parentes idosos. Ou se, tendo-os, estarão ou não eles bem de saúde. Oxalá que sim. Devem estar. O mais certo é que, em caso de indisposição súbita, não tenham de penar odisseias de infindável espera multi-horária nos calabouços esfregados a lixívia, a creolina e a ácido fénico das unidades médicas. Um parente-ministro sempre é um ministro-parente, caraças.
Escrevo isto sem me rir. Nem me importa que o senhor ministro da Saúde venha ou não venha a ler este desarrazoado chorincas meu. Eu escrevo para toda a gente, mas não é com toda a gente que falo. Com o senhor ministro da Saúde, muito menos. Também tenho os meus pudores. Também sou vulnerável à ira e à indignação. Também me canso. Também me couraço. Também me blindo. Para mais, os meus Pais já morreram. Estão safos do corrente genocídio português.
O problema é que caminho para velho. Uso o meio-capote que o meu Pai me legou, como naquela história que V. sabeis. A vida sabe-me na boca a noite fria mais vezes do que o recomendam a posologia medicamentosa e a sensatez existencial. E sim, confesso ter receio de que o senhor ministro da Saúde me queira mecanografado nas estatísticas dele. Que é como quem diz: no seu obituário economicista anti-pessoas e anti-direito à vida.

E que, portanto, eu ainda acabe por demitir-me de tudo primeiro do que ele do dourado lugar que ocupa, ele o senhor ministro da Saúde, a quem tal mortandade geriátrica deve incomodar tanto quanto a mim a boazona da Irina ainda namorar ou já não com o tão jovem e tão saudável e tão bonzão Melhor-do-Mundo. 

Hoje no Museu Bordalo Pinheiro de Lisboa Mesa Redonda sobre "Cartoon e Liberdade de Imprensa"

Com a presença dos cartoonistas António, Bandeira e Nuno Saraiva

Fernando Relvas em Exposição e Venda na Livraria EuropaAmérica até 6 de Fevereiro


Mesa Redonda - "Não sei bem o que dizer, mas tenho de dizer qualquer coisa" sobre o ataque ao Charlie Hebdo no Museu do Carmo

 Aconteceu no dia 2o de Janeiro, pelas 18h30 no Museu Arqueológico do carmo uma Mesa redonda com Eduardo Salavisa, Sara Figueiredo Costa, Nuno Saraiva, Osvaldo Macedo de Sousa e Moderação de Pedro Moura. Teve a participação de mais de meia centena de pessoas, destacando-se caricaturistas como o António, Per, Luis Frasco, Vasco Gargalo... Bandadesenhistas como Filipe Abranches... e Geraldes Lino
Neste momento o Director do Museu José Morais Arnaud dá as boas vindas

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Crónica Rosário Breve - À toujours comme tous les jours por Daniel Abrunheiro


Bruma e geada cingem a respiração em andamento. Uma pessoa vem por beira-rio, está frio, é tempo dele, as botas escrevem no chão o dois-por-quatro do caminho, sabe bem devolver em vapor ao ar o que dele veio em gelo. Com alguma sorte, é-se tão natural como cada signo do dia novo: os próprios braços como os das árvores, a água na boca como a do rio persistindo ambas em chegar um dia ao mar, a fervura do cartoon do pensamento como o desenho-animado do vento nas coisas volúveis, volantes coisas, venais é que não. A hora não é de relógio, a manhã não é de calendário: outra coisa serão, outro sentido terão, ser nelas é quanto basta. Para já.
Chega a pessoa ao balcão da Ermelinda, já ela lida trapos e vidros, da máquina-cafeteira silva o nevoeiro cálido, pelo chão a serradura fresca espera a cuspidela dos de mais brutos modos, desligada da ficha a arca dos gelados espera o Estio e a criançada colorida dele, sabe bem apear o bornal, sabe bem hastear os bons-dias aos congéneres de Língua e Pátria que vêm ao mesmo, a Ermelinda servindo a cada um o necessário sem perguntar o quê a quem, longos anos num gesto resumidos que é serviço e (re)conhecimento do Outro.
Lá fora, a música do mundo afina seus naipes: as ovelhas-chocalhos, os pardais-apogiaturas, o sacristão-badalão, a prata barroca do fontanário perpétuo, a trompa de ter nascido e mesmo assim o sol vir assim mesmo. Ninguém faz por pôr o seu deus, se algum, à frente dos outros na bicha do Paraíso, se algum, muito menos alguém se lembra de matar o próximo em nome do longínquo, a Ermelinda é que sempre diz que o negócio de cada um não é a venda de todos.
Casados no palato o figo e a aguardente, agora sim, agora é hora-número, o dia é já qualquer-coisa-feira, o trabalho não azeda, vai o mestre da escola para a escola, o da oficina para a oficina, o da muita terra para a leira, o do pouca-terra para a estação, o das cartas para o correio. Ranchos de mulheres algaraviam o perpétuo interesse da vida a caminho da fiação. Guincha o postigo meio-corpo do sapateiro. Trissa altíssimo o manicómio feliz da passarada no plátano grande do rossio. Fico a sós com a Ermelinda, que confia na honestidade da minha solidão para ir ali num instante ao peixe e aos jornais, olho a repetição de cada mesa à espera da novidade do fantasma, vou abrindo o bornal, tirando dele o lápis, a caderneta para que copio as coisas importantes, dessa “suprema importância que passa no dia seguinte” anotada por um tal Pessoa, pessoa que também gostava de aguardente, de figos não sei, de figos gostaria Caeiro, se algum.
Boa coisa: à volta da Ermelinda, quase sem quê e de todo sem para-quê, tenho a crónica feita. Ajunto caderneta e lápis de retorno às entranhas de pano do saquitel, engulo uma para o caminho (bebe muito a pretexto de si mesmo, o sacana do caminho) e é já quando devasso no pórtico as fitas verticais contra o mosquedo que, ao meu Até-logo-Ermelinda, dela ouço esta bonita coisa:

– Até sempre, Charlie