quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Crónica Rosário Breve - Abrunheiro enTVIstado (também) por Daniel Abrunheiro

Nota prévia: integro em segredo (até dizer isto) uma pandilha em rede e-mâilica que se dedica ao duplo tráfico de fotos de gajas boazonas todas nuas & de bocas anti-Sócrates. Tanto estas como aquelas nos fazem ficar, a mim como aos meus associados, a modos que aquilo dos calções da estátua do CR7. Calculai, pois, o espanto dessa minha secreta maltosa quando isto (a seguinte enTVIsta) sair a lume público. Vamos a ela:

Foi confrontado com provas pelo juiz Carlos Alexandre?
Vejo que não leu a “nota prévia” ali em cima. O juiz Carlos Alexandre é homem. É homem e não se chama Sócrates. Ora, eu é mais gajas.
Que tipo de gajas?
Tipo todas. Estou numa idade de mais caroço do que polpa. Tenho uma próstata que ainda não brinca em serviço. Por isso, é mesmo tipo todas que estejam à mão-d’inseminar, se bem me compreende.
Como encara o que está a acontecer e o que tem sido publicado?
Faço de conta que não é nada comigo. E é que não é mesmo. O que tem sido publicado é mais João Baptista & Bruno Oliveira. O Joaquim Duarte é mais o Editorial e ver se ficou alguma luz acesas às quartas no fecho do fecho. Não, nenhum destes três é da tal minha pandilha na net.
E os outros colunistas?
Ainda bem que me pergunta isso. Esses é que deveriam estar todos na preventiva. O Beja Santos por ler mais livros (mas ler mesmo) do que o prof. Marcelo. O Eurico Heitor por andar sempre a pôr Tomar nos píncaros e Abrantes na mó de baixo. Os Fernandes Pai & Filho por andarem a desassossegar (outra vez) o general Eanes. O Luís Eugénio porque sim. O Maia dos cartoons porque também. E o Arnaldo Vasques idem aspas para não se ficar a rir dos colegas.
O Carlos Cruz não?
Esse não porque eu gosto muito de ir a patuscadas com ele. E por ser ele a trazer-me, à Perna, umas malas bestiais lá dos Brasis e das Áfricas onde anda sempre metido a fazer e(t)nologia.
A tal sua pandilha e-mâilica inclúi alguns dos senhores acima nomeados?
Não, nenhum. O Maia ainda quis pertencer, mas eu disse-lhe que não porque gajas desenhadas não fazem saltar o rebite ao pilar. A gente é mais fotos com elas descalças até ao pescoço.
Então, se o acervo é fotográfico, o Zé Freitas e o Tó Vieira, se calhar são…
A menina não se ponha com reticências maliciosas. Nenhum deles pertence àquilo. São os dois fotos sim senhor, mas o Freitas é mais pássaros, não o feminino deste plural; e o Vieira quer é surf: as pranchadas dele são mais de Peniche à Nazaré.
Você é comunista?
Olha-m’esta… Não senhora, desde que morreu o Eusébio, fez agora um ano, que nunca mais fui.
Eu disse “comunista”, não desse tipo de encarnado.
A menina desculpa, mas é que voltei a abusar um bocado dos copos desde que o Salazar morreu.
Morreu mesmo?
Quem, o Pantera Negra ou o Botas? O Rei infelizmente sim. O outro, isto nunca se sabe. É ver o prof. Adriano Moreira, que anda ali como se não fosse, ou não tivesse sido, nada com ele.
Um apartamento em Paris é um dos seus sonhos?
Já foi mais. Eu agora é mais sonhos com gajas, não sei se já lho tinha dito. Assim tipo a menina.
Esteja qu’eto co’ rabo e diga-me: não considera blasfémia tanta graçola relativa à ‘geminação’ de Évora com a Cova da Iria?
Acho. Mas olhe: o pau carunchoso é pau na mesma, seja para fazer colheres, seja para fazer santos. É como o papel na rotativa: tanto dá para fazer um jornal a sério como para fazer O Mirante. A blasfémia é coisa sempre muito relativa.
Muit’òbrigadinha. Penso que está tudo. Já agora, sabe de algum tasco por aqui onde se coma bem e barato?

Isso é mais com o doutor Fernandes sénior. Mas o melhor é ir perguntar-lhe já ao aeroporto antes que o bifem preso. Eu nisso do comer, sabe, eu nisso do comer é mais gajas. O beber pode ser sozinho. E não, eu nunca disse que o doutor juiz Carlos Alexandre era da minha pandilha. Dizer, não disse. A menina aceitaria que o Zé Freitas ou o Tó Vieira lhe tirassem umas pelingrafias em dia de calor?

I am Charlie




















Eu sou Charlie
















Je suis Charlie







domingo, 28 de dezembro de 2014

Crónica Rosário Breve Stock por Daniel Abrunheiro

Não digo que seja total a ruptura de stock. Tanto, não digo – mas que seja indesmentível a vigente escassez de anjos, lá isso é e digo.
Há meses-anos na minha vida que não topo um. Perambulo muito à cata deles. Por vãos & por reentrâncias de prédios devolutos & de teatros sem actores, toco com a ponta da bota os hirtos corpos encartonados: volumes pessoais reduzidos a uma marca de frigorífico japonês. Gente, enfim: hirtos seres autodeserdados, tropa a que a vida, assobiando para o lado, estropiou sem solfejo nem grande remorso.
Antigamente, eu sitiava-os, aos meus anjos, sem acuidade nem esforço. Eles aconteciam-me. Talvez fosse da idade. Da idade deles, digo. Ou, digo, da minha, que nem idade quase tinha. Recordo aqui, e aqui o assento, aquele anjo do Novembro de 1981. Foi à saída do Teatro do Príncipe Real. Era um espécimen apardalado de figura. Magro, quase alto – e  entre o cinza e o castanho: assimétrica envergadura – e molhado de pés como um veneziano sem barca. Cumprimentei-o sem recorrer a sílabas. Paguei-lhe um ponche quente no bufete do Teatro frio. Separámo-nos, depois, no vão das escadas da Previdência, ali-onde-ainda-agora aquele homem registava sociedades de totobola manuscritas a bic-cristal-cor-de-pombo e aquecia a frio o café-com-leite da solidão vitalícia em púcaro de folha sobre língua azul de gás-estearina. Esse anjo ainda me deu para alguns meses de consumo sem remédio: como o tudo o que se consome sem poder remediar-se.
Tive outros anjos entretanto-tão-pouco, valha a verdade. Por exemplo, aquele de coisa alguns anos depois de coisa afinal nenhuma, esse de um ano algures & alhures entre os nascimentos da minha Primeira e da minha Segunda filhas. Esse, sim: foi por um Outubro.
Apareceu-me ele no espelho do barbeiro – e era do meu mesmo cabelo que ele se perdia à lancetada bífida. Trazia ele consigo meio papo-seco de mortadela quase transparente, dessa que dão aos pobres às portas de Santa Apolónia, a Ferroviária, em desobrigas de catolicismo esmoler por calendário à hora-TV. E sim, o olhar dele tinia. Tinia coruscâncias à maneira das tesouradas recebidas em espelho: olhos que davam para escutar.
Eu cá por mim, ter tempo – tenho. Espaço para V. contar de muito(s) mais anjos é que não. Leitor meu: isto é só, e tão-só, uma página de jornal: só não é a minha vida. (A páginas tantas, é melhor do que a minha vida. Seja. Não discuto isso. Estou aqui mais por causa dos anjos que já não há. Ou que não hei. Ele há-de haver ainda alguns, que não sei eu?)
Alguma coisa sei. Vi a cabeleireira sair foríssima de horas sem ser por véspera de casamento. Ainda agora foi: uma reles terça-feira, reles antevéspera do Nascimento do Deus-Menino-da-Coca-Cola-Paz-na-Terra-Prometida-aos-Judeus-de-Boa-Vontade. Nove da noite. Dez euros por umas madeixas que até ficam mal à freguesa. Dizem até que o gajo dela (da freguesa) lhe bate. Mas o anjo de hoje: esse?
Parece-me tê-lo vislumbrado na fila do desemprego. Não o confundi. Os outros todos eram só gente. Desandei. Ele há menos gente do que anjos, se calhar.

Isto não anda fácil entre Novembro e Outubro.

Pavel Matuska Art

Pavel Matuska

Willem Rasing - Artoons

Willem Rasing - Artoons

Workshop Diários Gráficos "Um museu a céu aberto" (Museu Arqueológico do Carmo)

Bom dia,

​CONTINUAM A DECORRER AS INSCRIÇÕES PARA o primeiro WORKSHOP DE DIÁRIOS GRÁFICOS de 2015 previsto para o Sábado 10 de Janeiro, das 10h às 18h , no MUSEU ARQUEOLÓGICO DO CARMO (em Lisboa).

Este workshop é uma formação de desenho que tem como objectivo estimular e criar o hábito para uma prática de desenho sistemático em diário gráfico e INCLUI UMA VISITA GUIADA AO MUSEU E À SUA COLECÇÃO. As inscrições estão abertas a participantes com ou sem formação na área do desenho. Neste workshop iremos abordar várias técnicas de registo visual a partir de uma série de curtos e simples exercícios que fomentam a observação e representação pelo desenho. Exploraremos o desenho à vista com a conjugação de aguarelas e lápis de cera (não aguareláveis). E é através da escolha das diferentes combinações entre estes materiais, que iremos aprender a obter a maior expressão gráfica no desenho de cada uma das peças expostas.

Toda a informação consta do respectivo programa em pdf (ver anexo). Mas se tiverem quaisquer dúvidas, basta perguntar.

Atenção:  As vagas são limitadas e o prazo de inscrição termina na primeira semana de Janeiro!

Cmps


Richard Câmara
www.richardcamara.blogspot.com
(+34) 639 247 763 / (+351) 964 756 353
Skype: camara.richard
Also at: WhatsApp, Facetime and Viber

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

~Votos de Feliz Natal de Miguel Ferreira

Não digo do Natal – digo da nata
do tempo que se coalha com o frio
e nos fica branquíssima e exacta
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade
esses tempos relíquidos e pardos
e faz assim que o coração se agrade
de terrenos de pedras e de cardos

por dezembros cobertos. Só então
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão,

 e as cores da terra são feroz loucura
moídas numa só, e feitas pão
com que a vida resiste, e anda, e dura.


Pedro Támen

em Natal…Natais, Oito séculos de Poesia sobre o Natal, Antologia de Vasco Graça Moura

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Crónica Rosário Breve - Sou a favor de o Natal ser de graça por Daniel Abrunheiro

O Natal, dizes tu?
Entre os meus 18 anos e anteontem, sempre foi uma quadra porreira para borracheiras de porto em manhãs que acabam tarde às portas da noite, entre rapazes a quem também já morreu alguém e a balcões que ao contrário da nossa vida eram & são inoxidáveis.
Eu faço que gosto muito do Natal por ser a época em que ser bonzinho não parece mal. E por ser quando, à entrada do hipermercado, nos dão de borla um saco vazio da (ou como a) Jonet para à saída enchermos com ele os bolsos ao Belmiro.
Também faço que gosto muito dos peditórios ubíquos como a má-sorte & do chinfrim electr’altifalante por todas as ruas e por todas as praças sem excepção & das velhas evangelizadoras que manquejam os joanetes à caça do dízimo em nome do jeová brasileiro alternativo.
O Natal é perfeito para encontrarmos finalmente o sem-abrigo à justa medida do casaco de malha que a nossa ex-sogra nos deu há trinta anos ao mesmo tempo que dava um de camurça ao nosso ex-cunhado, soslai’olhando-nos trocista e sibilina como ridente víbora, a megera. (Também agora fica lá com a filha por remendar, anda.)
Ai o Natal, o Natal! É quando mais neozelandês me sinto, isto para V. ser o mais franco – rodeado de carneiros que votam como ovelhas e cheirando a lã cagada como eles & elas.
Tenho fingimento de pena, claro que sim que finjo que tenho, das divorciadas de perl’ágrimas marejadas por este ser o ano de o menino ir com o pai, maldita a hora em que me deitei debaixo dele, por sinal foi noutro natal, como passa o tempo, isto é ela a rosnar.
A quadra entristece-me um bocadito, confesso, porque o Governo nunca tem dinheiro que chegue para comprar neve suficiente a todo o País tal que todo o País se sentisse tipo postal lapão do Minho a Timor, digo: a Silves, gastam tudo sempre e só na Serra da Estrela, ao menos poderiam variar de níveo sítio cada ano, este ano por exemplo em Portalegre, para o ano em Abrantes para o doutor Consciência não se sentir tão só no solitário alpinismo que a assertiva lucidez crítica afinal é, no Funchal é que não porque eles estoiram tudo nos foguetes do fim-d’ano e em marinas de que o mar dá cabo há uma data de milhões de euros nossos. Isso e o ringue de patinagem do Terreiro do Paço ser de plástico como este ano se lembraram de fazer, deve ter cá uma piada tipo Malucos do Riso filmados na Síria à hora-de-ponta.
Confesso ainda: cada Natal, performo a minha imitação preferida. A minha imitação preferida tem imensa graça (não tem, Graça?) e é a Imitação do Meio-Peru. Resulta sempre, faz sempre rir muito, é muito barata e é a coisa mais simples de se fazer. Consiste nisto: não deixo que me matem mas deixo que me encham de aguardente na mesma. O dano colateral é começar logo, por causa de tanto porto prévio, a ver o tremeluzir das luzinhas antes de acenderem a gambiarra ao pinheiro.
O Natal, dizias. É aquilo dos jantares contrariados com a besta do chefe da repartição, com o imbecil do autarca amigado com a educadora, com o revulsivo sinapismo do actual companheiro da cataplasma de mostarda que a nossa ex-mulher é e sempre foi e sempre há-de ser, bem te lixas que este ano o Menino (percebeste a maiúscula?) é comigo.
Ou então, não.
Ou então, nada disto.
Digo: tudo isto na mesma, mas outra coisa ainda – remanescente, vera e de vidro daquele que não corta. Esta coisa assim:
Eu ter dezoito anos sem anteontens, ninguém me/nos ter morrido e não ser preciso nem porto nenhum nem aguardente alguma. Aí sim, o Natal seria e teria, Maria, outra coisa. Outra graça.

Não teria, Graça Maria?

Voeux papal 2014... pour René Bouschet